Entrevista com Jaffar Amin, filho de Idi Amin Dada

Idi Amin, presidente de Uganda de 1971 a 1979, é uma das figuras políticas mais controversas do século XX. Sobre ele abundam acusações e boatos de todo tipo, promovidos pela mídia ocidental, até mesmo de que ele seria um canibal. Não obstante, durante seu período como governante Uganda conheceu uma prosperidade inaudita, graças à dureza de um líder que buscou um caminho nacionalista, equidistante entre Washington e Moscou, em plena Guerra Fria.

Mas a África é um continente complexo, e o desenho artificial das fronteiras garante que os inimigos geopolíticos, especialmente as grandes potências, possam explorar rivalidades tribais para derrubar os líderes que as desagradam. Foi o que aconteceu em Uganda. Para esclarecer os fatos e tentar distinguir verdades e mentiras na história desse personagem a Nova Resistência procurou Jaffar Amin, um dos filhos do ex-presidente de Uganda, autor do livro “Idi Amin: Herói ou Vilão?” para uma conversa sobre seu pai.

Você poderia nos contar sobre as memórias que você tem de seu pai? Como ele era em sua vida pessoal, como pai, como pessoa?

Minhas memórias abarcam todo um espectro de lembranças melancólicas. Seu amor coruja, sua atenção “maternal” por seu grande número de filhos…ele nos ensinando a nadar, passeios de barco para sua ilha privada chamada “Paradise Island”…ele nos ensinando a jogar basquete, cada filho ganhando um par de tênis allstar “Chuck Taylor”…viagens de compras para Londres, Dubai, Jeddah, Kuwait, passeios no parque Pakuba Safari, voos de helicóptero para a Escola Preparatória Kabale, no distrito de Kigezi…a agitação quando hordas de bandas de afro-jazz congolês vinham tocar para ele enviadas por seu amigo Mobutu…minha visita à Angola em 1975 quando ela se tornou independente…a visita do grande Pelé em 1976 quando ele conheceu Idi Amin Dada em Uganda, e isso passou na TV o dia todo e quisemos conhecêlo… minha visita para conhecer Gaddafi em 1977 e então nosso triste voo para a Líbia de novo rumo ao exílio em 1979, no qual ele permaneceu de 1980 a 2003 quando ele veio a falecer em Jeddah na Arábia Saudita em 16 de agosto de 2003, estando enterrado no Cemitério Público Ruwais em um túmulo sem nome como é o costume no Islã.

Ele era um homem que amava se divertir, mas ao mesmo tempo um pai rígido e amoroso, que genuinamente demonstrava amor e afeição por todos os seus filhos igualmente. Minha confiança vem da visão de mundo que ele ofereceu a todos os ugandenses. Essa determinação que é tão ausente na maioria das pessoas de ascendência africana, que sofrem de baixa auto-estima. Eu sou grato por esse dom da autoconfiança, de que nós somos capazes e pela atitude pró-ativa.

O que o povo de Uganda pensa de seu pai hoje?

As vítimas abominam o homem, mas surpreendentemente uma quantidade razoável das massas de 41 milhões de ugandenses o vê como herói hoje, e dizem que Idi Amin Alemi Dada abriu nossos olhos quando expulsou 80 mil asiáticos em 1972 (devidamente compensados com 1 bilhão de dólares americanos em 1976, o que foi supervisionado pela ONU) criando mais oportunidades para que os nativos trabalhassem na indústria e no comércio, a coração do desenvolvimento de nosso país.

O que está por trás de todos esses rumores contra seu pai, como o de que ele era canibal, por exemplo?

Infelizmente, isso foi dito pela primeira vez pelo seu próprio cunhado, o falecido Wanume Kibedi em 1974, então Ministro de Relações Exteriores de Uganda que fugiu para o Reino Unido. Quando ele convenceu a sua irmã, a primeira-dama Sara Mutesi Kibedi a fugir para o exílio e se unir a ele na Inglaterra, ele então a convenceu a assinar um depoimento afirmando que Idi Amin Alemi Dada (seu marido) havia sacrificado e comido o seu filho favorido, Moses Kenyi Abdul Mohsen Idi Amin Dada, nascido em 1969, em um ritual para permanecer no poder.

Quando o tio conseguiu o direito de publicar sua história nos jornais por bastante dinheiro, após o depoimento, a mídia ficou extasiada por essas acusações como se fosse evidência de que Idi Amin seria um canibal. Idi Amin ficou tão chocado que ele pegou seu filho Moses e as irmãs dele da mesma mãe, a primeira-dama Sara Mutesi Kibedi, e os enviou para visitar o avô e avó maternos para provar que a criança ainda estava viva. Quando eles chegaram em Busembatya, no Reino de Busoga, eles encontraram uma vigília fúnebre para o filho favorito de Idi Amin, porque eles de fato haviam acreditado no frenesi midiático britânico. Chocado com o súbito aparecimento de seu amado neto, o velho perguntou: “Por que meu filho, Joash Wanume Kibedi, e minha filha, Sara Mutesi Kibedi, estão tentando difamar nosso genro, Idi Amin Dada? Por que envergonhar o nome de nossa família?”, perguntou o Ancião Kibedi diante de uma multidão do clã Baisemena.

Bem, a acusação ficou até hoje, de modo que até sua mãe acreditou nisso até 1995, quando Moses foi de Paris, onde ele vive, para Londres, onde sua mãe vive ainda em exílio perpétuo desde 1974 e eles se encontrarem. Então desde que a mãe veja seu filho e saiba que ele está vivo e bem, eu não me importo com a mídia ocidental que ainda usa os depoimentos “juramentados” como prova de que Amin era um canibal. Deixamos isso para Alá, como ele costumava dizer, nosso irmão está vivo e bem, vivendo discretamente em Paris e ele prefere ser deixado em paz.

Aqui no Brasil nós não temos muito acesso à história de Uganda, muito menos sobre o governo de seu pai. O que você poderia nos dizer sobre aquela época que é mais importante, como as coisas que seu pai fez que deveriam ser lembradas?

Caro Brasil, nação com o maior número de pessoas com ascendência africana fora da África, eis aqui a história do homem que foi meu pai: Idi Amin Alemi Dada nasceu em 30 de maio de 1928, no quartel policial de Kampala, no Reino de Buganda, filho de Amin Andrea Dada, do clã Likamero Kakuwa, e Aisha Chumaru Aate, dos clãs Rikaju Lugbara e Kakuwa, e ele ascendeu à mais alta posição no país como Chefe de Estado por 8 memoráveis anos. Ele gerou esperança e controvérsia na mesma medida; ele é herói e vilão aos olhos de muitos, então deixe-me dizer o que eu gostaria que meu querido povo brasileiro lembrasse sobre meu pai:

Enquanto nossos “pais da independência” se contentavam com falatório em Addis Abeba, uma nova estirpe de líderes pró-ativos emergiu entre o final dos anos 60 e início dos anos 70. Eles nos colocaram no caminho rumo a uma emancipação genuína de todos os africanos.

Hoje, qualquer ugandense que encontro cidadãos de Angola, Comoros, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Djibuti se surpreendem com a simpatia com que são tratados, e o motivo para isso é que Idi Amin era presidente da União Africana quando estes países conseguiram se emancipar do colonialismo.

Aos olhos dos cidadãos desses países, então, teria sido Idi Amin um herói?

Idi Amin veio de uma região marginalizada de Uganda, designada pelas potências coloniais como região de reserva de mão-de-obra, de modo que as pessoas dessa região eram vistas como cidadãos de segunda classe em sua própria terra, destinados a não passar de servos por contrato.

Foi, então, um evento avassalador que um filho do norte de Uganda se tornasse Chefe de Estado, e ainda mais que ele concretizasse a emancipação simbólica de Uganda através da Guerra Econômica de 1972, um ato de nacionalização que rompeu simbolicamente o jugo colonialista e rompeu os grilhões da escravidão de nossos mestres britânicos sobre os ugandenses.

Não obstante, com a ajuda da Líbia e da Arábia Saudita, ele até mesmo compensou financeiramente os proprietários britânicos com um total de 1 bilhão de dólares, e organizou um departamento para redistribuir as propriedades nacionalizadas para ugandenses nativos.

Ele assumiu de forma convicta o manto de Emancipador da África das garras do colonialismo e do imperialismo; o que pode ser visto em seu importante discurso à União Africana em Addis Abeba em 1973 quando ele explicou o caminho a ser seguido para que os países ainda sob hegemonia colonial alcançassem sua plena emancipação. Foi então a coroação de seu legado revolucionário que, em 1975, ele conseguisse alcançar parcialmente aquilo sobre o que outros apenas falavam, ou seja, que as nações supramencionadas alcançassem a sua independência do colonialismo.

Ademais, no âmbito tecnológico Fidel Castro o havia desafiado na Argélia durante a Conferência dos Não-Alinhados e ele teve que atender a critérios rígidos estabelecidos para que uma nação sediasse a Cúpula da União Africana, no sentido de que uma infraestrutura de comunicação devia estar em funcionamento, com capacidade de transmissão global.

A importação de tecnologia da Alemanha e do Japão permitiu a Uganda dar um “salto de rã” (leapfrogging) tecnológico, superando expectativas e garantindo ao governo de Idi Amin uma infraestrutura avançada de fibra ótica, estações retransmissoras de radiodifusão por satélite, canais de TV a cores, e uma estação de rádio com capacidade de difusão global, para assim transmitir sua agenda para o mundo.

A iniciativa de Idi Amin, portanto, permitiu a Uganda tomar a frente dos outros países da África Subsaariana no setor tecnológico por um tempo. O quando o país se desenvolveu em apenas 8 anos cria um contraste assombroso com a situação atual do país, e tudo por conta da liderança de um homem semi-analfabeto como Idi Amin, uma das figuras mais difamadas da história africana.

A sua representação no filme “O Último Rei da Escócia” foi surpreendentemente suave e positiva. Teria ele realmente reivindicado aquele título? Ou teria esse boato se espalhado por conta de um pedido oficial de separatistas escoceses de que ele se tornasse seu líder e patrono, tal como ocorreu entre Gaddafi e o IRA, para que assim eles pudessem receber apoio moral, político e financeiro do Líder Mercurial?

De fato, Idi Amin Dada deixou um legado controverso e sua estatura cresceu para além do que se poderia imaginar na arena global culminando com a crise dos reféns judeus em 1976. Suas ameaças, no mesmo ano, em resposta ao apoio queniano no resgate dos reféns judeus de Uganda, quando ele ameaçou anexar todo o oeste fértil do Quênia de volta para Uganda foi a gota d’água, e em 1978 quando a região de Kagera foi anexada pelo Exército de Uganda, resultando em uma guerra aberta entre Uganda e Tanzânia, teve origem a crise que levaria à sua derrubada em 11 de abril de 1979.

Esse evento catastrófico varreu a comunidade vista como “o povo de Amin”, com um número entre 300 mil e 500 mil pessoas fugindo em exílio ou como refugiados, atravessando as fronteiras com o Congo e o Sudão.

Hoje as estações terrenas de telecomunicação não existem mais! O serviço internacional de rádio não existe mais! Graças a decisão da “Frente Nacional de Libertação de Uganda” de expropriar e vender os bens do Estado como forma de “compensação”!

No auge de seu governo, antes da queda em 1979, Idi Amin proclamou triunfantemente como Presidente da Organização da Unidade Africana, diante de Chefes de Estado africanos que ele havia nascido exatamente naquele lugar em 1928; a mídia mundial não levou a sério as suas palavras e preferiu focar na maneira caótica pela qual Idi Amin havia empreendido a organização da conferência e o complexo hoteleiro (que ele chamou de “Mansões Nilóticas”), estabelecendo uma rede de estações de comunicação por satélite por todo o país, cumprindo à risca os rígidos padrões das redes internacionais de telefonia e introduzindo a TV a cores no país, o segundo país na África Subsaariana a fazê-lo depois da Nigéria.

Ele adquiriu a infraestrutura necessária para a recém-criada Corporação Ferroviária de Uganda e criou oficinas para cuidar dos vários vagões que ele havia comprado da Alemanha.

Ele recapitalizou a indústria têxtil com a mais avançada tecnologia japonesa da época, de modo que Uganda estava produzindo os melhores tecidos a partir de nosso próprio algodão, ao invés de nos limitarmos a exportar a matéria-prima para a América. Agregamos valor produzindo nossos próprios tecidos e nossas próprias roupas.

Nosso Banco Comercial de Uganda era verdadeiramente um banco popular e operava junto às várias cooperativas para facilitar o seu acesso aos créditos necessários.

Uganda chegou a ultrapassar o Brasil em 1977 como principal exportador de café no mundo, por conta de um período de problemas climáticos que prejudicou a safra brasileira da época. Nesse ano, nosso país pela primeira e única vez em sua história conseguiu alcançar um superávit, e.g., as exportações superaram as importações. Algo raro na África Subsaariana.

O valor do shilling para o dólar no mercado negro era de aproximadamente 16 shillings, e só subiu para 20 durante os anos de guerra de 1978 a 1979. A taxa oficial permaneceu em 7 shillings de 1971 a 1979, principalmente por causa das fortes exportações de café, chá, cobre e cobalto. As boas colheitas garantiram que por todo esse período a inflação não fosse um problema. Ainda assim, chamam de período mais sombrio na história de Uganda.

Cinicamente, hoje escritores e propagandistas políticos de Uganda usualmente justapõem o caos e anarquia do vácuo de poder nos anos 80 após o golpe contra Idi Amin e o culpam por isso. Foi essa gente da UPC e da FRONASA a responsável pela destruição de toda a infraestrutura nacional, tal como os americanos fizeram no Iraque e os britânicos e franceses na Líbia. E ainda assim eles culpam o “tirano” exilado. Idi Amin recebe a culpa por aquilo que Uganda se tornou depois de 11 de abril de 1979.

Você acredita que o que fez seu pai ter tantos inimigos foi sua postura de força e sua tentativa de construir uma Uganda sem influências externas?

Sim, de fato. Os britânicos jamais abriram mão das rédeas do poder de suas colônias e protetorados e usaram agentes como o Aga Khan para fazer propaganda contra Idi Amin ao longo de seu governo. De fato, Idi Amin contou com apoio britânico para chegar ao poder, porque eles, os israelenses e os americanos acharam que Idi Amin seguiriam as suas orientações. Mas já em 1971 ele escolheu o Movimento Não-Alinhado. Em 1972 ele disse, como o Grande Elefante: “Eu caminho no meio da estrada. Eu não me curvo nem perante o oriente comunista, nem perante o ocidente capitalista, mas tomo o que é positivo do ocidente e o que é positivo do oriente. Eu sou não-alinhado por princípio”.

A elite intelectual de Uganda o detestava porque ele foi educado apenas até o quarto ano, porque a legislação colonial não permitia que escolas islâmicas ensinassem além do quarto ano do ensino fundamental. Se você quisesse ir além, você tinha que ir para uma escola missionária cristã. A elite abominava o homem e as massas amavam o governante absoluto que ele era, enquanto o mundo o via como tirano, como autoritário e como assassino, por causa das suas execuções públicas por fuzilamento dos culpados por traição, diante de seus parentes.

Ele culpava desaparecimentos na atividade subversiva do FRONASA de Museveni e do Kikosi Maalum de Obote, mas publicamente fuzilava os subversivos onde fossem encontrados, pois ele acreditava que não se devia matar ninguém no escuro. Os subversivos sequestravam e assassinavam membros da própria elite anti-Uganda. Era uma situação “Catch-22” frustrante para seu governo. A intelligentsia fugiu por medo e ele continuou a afirmar que não era responsável, estabelecendo até mesmo a primeira Comissão da Verdade para investigar os incidentes de 1971 a 1974.

Mortes violentas entre 1971 e 1979, incluindo aí duas invasões da Tanzânia, em 1972 e a Guerra de Kagera de 1978 a 1979, foi de 10.800, como reportado por líderes cristãos à ONU. Foi puro cinismo dos “libertadores” pós-1979 aumentar os números de mortos para 300 mil ou até 500 mil durante o governo de Idi Amin, só para não permitir que as mortes da guerra civil durante o Triângulo de Luwero ultrapassassem as supostas atrocidades de Idi Amin. Hoje, as caveiras estão em exibição mostrando as vítimas dos massacres de Luwero nos anos 80, mas não há evidência a ser exibida das supostas vítimas de Idi Amin Dada.

E assim perpetuam a mitologia do canibalismo e das vítimas dadas a crocodilos, este é o dilema do homem forte, do governante absoluto que desafiou o status quo neocolonialista durante o auge da OPEC, quando ele se tornou seu porta-voz e eles ajudaram o seu regime por conta de sua estabilidade.

Há algum partido ou político em Uganda hoje que segue passos similares ou é inspirado pelo seu pai?

Idi Amin foi um soldado entre soldados, seu governo foi sob decreto militar (lei marcial), mas surpreendentemente a maioria dos seus decretos virou lei em Uganda após 1979, porque ele efetivamente fez seus decretos sob supervisão judicial e seu procurador-geral à época, Bart Katureebe, é o atual presidente do Tribunal Constitucional de Uganda.

Ironicamente, o único critério para ser um líder em Uganda é o de ser ou ter sido soldado e ser influente com o establishment militar. Assim, hoje, o governo macaqueia todas as políticas populistas de Idi Amin, com a única diferença de que Museveni ao longo dos últimos 32 anos de seu governo tem um Legislativo que só serve para carimbar suas decisões e um Judiciário completamente corrupto.

Uma vez perguntei ao meu pai, caso ele retornasse a Uganda e organizasse um partido como ele o batizaria? Ele respondeu: “Partido Trabalhista”. Eu pedi uma explicação, e ele disse: “Tem que ser um partido do povo e para o povo”.

Como era a relação entre seu pai, enquanto líder de Uganda, e Muammar Gaddafi?

Eles eram irmãos-de-armas e Gaddafi ajudou financeiramente Uganda de 1972 a 1979, a partir do momento em que eles assinaram um comunicado em 14 de fevereiro de 1972 que afirmou a sua postura não-alinhada e Idi Amin se tornou porta-voz ad hoc da emancipação e independência da África. Eles também eram grandes admiradores de Gamal Abdel Nasser e de Kwame Nkurumah. Idi Amin alcançou seus objetivos com a emancipação de Angola, Moçambique, São Tomé & Príncipe, Comoros e Djibuti, Gaddafi também o convenceu a expulsar os asiáticos, e ele até financiou a compensação financeira dos asiáticos expulsos.

Idi Amin e Gaddafi foram revolucionários, iconoclastas, que romperam o status quo neocolonialista na África.

O seu pai, após o golpe que o derrubou do poder, em algum momento buscou ou contemplou retornar à vida política em Uganda?

Idi Amin continuou a comentar sobre a situação de Uganda pós-79, mas seus anfitriões da família real saudita pediram que ele se mantivesse em silêncio por toda sua vida. Ele foi, porém, abordado por seus ex-oficiais que formaram um grupo rebelde chamado Frente do Nilo Ocidental liderado por seu filho, o major-general Taban Idoru Amin e seu ex-MRE o coronel Juma Ori, porém seus esforços não tiveram sucesso.

Na sua opinião o pulso firme de seu pai teria se devido também às disputas tribais que existiam e que ainda existem em alguma medida em Uganda? Uma postura firme por parte de seu pai teria sido necessária por causa dessas disputas tribais?

Uganda sempre foi monarquista e militarista por natureza, desde tempos imemoriais, passando por reinos tradicionais e chefaturas tribais e isso foi agravado por uma hegemonia imperial durante a era colonial que colocou as tribos setentrionais, mais guerreiras, nas Forças Armadas, enquanto as tribos meridionais cheias de escribas, foram empurradas para os setores público e privado, monopolizando o desenvolvimento econômico.

Mas com a independência, os britânicos maliciosamente entregaram o poder aos enclaves étnicos setentrionais, acostumados com uma administração comunitária, em um esquema de “dividir para conquistar”, enquanto os enclaves meridionais estavam acostumados com uma tendência monarquista que se apoiava em uma política de privilégio.

Idi Amin consolidou o modus operandi marcial dos colonialistas britânicos, mas nivelou as estruturas de classe dando esperança às multidões de pessoas ordinárias, às pessoas comuns.

Ele se deparou com resistência por parte da elite intelectual, mas ironicamente hoje o critério para ser líder em Uganda, mesmo sob as roupagens do multipartidarismo, é ter sido parte do establishment militar ou ter influência no establishment militar, o que se tornou conhecido após 1979 como “Aminismo”.

Você poderia deixar uma mensagem para todos que tem uma imagem negativa de seu pai graças à propaganda midiática feita ao longo dos anos?

Hoje, a demografia de meu querido país, Uganda, tem 80% da população abaixo dos 30 anos de idade. A juventude só conheceu um líder ao longo dos últimos 32 anos. Apenas 1% dos 41 milhões de habitantes de Uganda estão acima dos 65 anos de idade e são responsáveis por nosso passado doloroso. Está na hora de desfazermos os punhos fechados e pedirmos perdão. Está na hora dos 19% entre 30 e 64 anos construírem uma ponte para trazer coesão e união entre os inúmeros enclaves étnicos que foram unidos arbitrariamente pelas potências coloniais e transformadas em uma nação relutante chamada Uganda. A minha vocação, aos 51 anos de idade, é ser um catalisador para a reconciliação e coexistência comunitárias e para uma tolerância pelas diferentes culturas da Uganda. Devemos rumar na direção de uma transformação curativa e de uma distribuição equânime do potencial de nosso rico país, abençoado pela natureza.

Que legado seu pai deixou para o povo de Uganda?

Idi Amin foi o pai da independência econômica. Ele desafiou o status quo neocolonial de uma política subserviente à Grã-Bretanha, e diz-se que ele abriu os olhos dos africanos em relação ao “sono colonial”. Ele rompeu os grilhões que prendiam nossos pés e livrou nossos pescoços o jugo colonial, especialmente após sua guerra econômica em 1972 quando ele expulsou de 50 a 80 mil britânicos, além das dezenas de milhares de asiáticos (que foram devidamente compensados). Os anos 80 viram, infelizmente, a reversão dessa situação, com a escravização impiedosa de quase todos os países africanos independentes à ditadura econômica do Banco Mundial e do FMI, por meio de medidas de austeridade e reformas estruturais, ironicamente semelhantes às que estão fundando a Europa no abismo no século XXI.

Obrigado por me darem a oportunidade de falar sobre o legado de meu pai.

Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor e membro fundador da divisão brasileira da Nova Resistência, é um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Aleksandr Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

1 Comment

  1. Excelente matéria. O Brasil precisa conhecer melhor, diretamente, a história da África e se inspirar em sua tradição guerreira, mística e destemida, abandonando os esteriótipos que nos são dados pelas leituras européias e norte americanas.

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