Mensagem aos pais

Hoje, no Brasil, celebramos o Dia dos Pais, no segundo domingo do mês de agosto, quando também se comemora o dia de São Joaquim, pai da Virgem Maria.

Invenção do Roberto Marinho nos anos 1950 ou como seja, a data incorporou-se aos costumes de nossa gente, sendo usualmente este dia reservado a um almoço com o pai, à maneira do Dia das Mães.

Dos últimos anos para cá, um grupo pequeno, porém ruidoso, que se dedica a transformar todos os veículos de comunicação, incluindo as “redes sociais” em um grande muro das lamentações, tem voltado sua artilharia também para esta data, supostamente tão odiosa. É um grupo que odeia o Dia dos Pais (odeiam várias outras coisas também) com uma força e uma energia admiráveis. Este grupo é dotado de tão transbordante generosidade que se sente na obrigação moral de compartilhar com todos nós os intensos sentimentos que nutrem pela data. Ela deve, asseguram-nos, ser desconstruída, destruída, tripudiada, abolida ou esquecida, a depender do horário em que perguntamos-lhos. Afinal, nada poderia ser mais odioso e opressor do que comprar aquele par de meias de sempre, fazer um bolo ou coisa que o valha e presentear o velho, parabenizando-lhe por seu dia e sentando-se com ele para almoçar. O horror! E rangem os dentes, bufando, entre murmúrios e apoplexias. O ataque, evidentemente, não é contra a data somente, mas contra a própria figura do Pai, este titânico tirano a ser castrado e arremessado nos infernos.

Alguém poderia gaiatamente interpelar esses murmuradores e perguntar-lhes se acaso provieram da chocadeira. Mas ai de quem o fizer… A resposta a isso já têm pronta: dirão que pai é construção social. E, nisso, ao menos, estão certos! Explicamo-lo: ora, evidentemente existe um dado biológico incontornável por trás da maternidade e da paternidade e não existe desconstrução retórica no mundo que consiga jogar para escanteio o fato de que homens, pela sua ação inseminadora, engravidam mulheres e o fato de que a prole frequentemente nasce parecida com a mulher em questão e com o homem que a engravidou.

É assim também com os pássaros, as moscas, os ratos, o gado também e os jumentinhos. Mas isso não é a história completa, é?

Ora, uma mulher que desse à luz uma criança gerada, por exemplo, por um estupro e, superando inúmeros sofrimentos, a criasse, ainda assim, com todo o amor, dificilmente encorajaria tal criança a chamar de “pai” o indivíduo que, de fato, lhe é pai no sentido estritamente biológico – mesmo que a mulher em questão calhe de saber, por exemplo, a unidade carcerária na qual o cavalheiro se encontra recluso, é pouco provável que se disporá, aos domingos (mesmo neste domingo de hoje) a escolher uma roupa bonita para a criança, a penteá-la e levá-la a visitar o “pai”.

Não existe outra forma de se produzir cachorrinhos senão aproximando um macho e uma fêmea da espécie. Daí não se segue, contudo, que o cão que acaba de fecundar a cadela no cio e desaparece ligeiro no mato com a língua de fora seja “pai”. Uma avaliação mais lisonejira poderia talvez ser feita quanto à paternidade de várias espécies de pássaros, nas quais o macho de fato forma um par (mesmo que temporário) com a fêmea e, com ela, alimenta os filhotes e cata-lhes os piolhos. Gorilas também. E, acrescentamos, humanos. Ora, se existe uma instituição cultural que parece ser “universal” (“cross-cultural”) na espécie humana, é o matrimônio (seja duradouro ou temporário) e as noções de “pai” e “mãe” – e qualquer antropólogo social poderá confirmar isso. No geral, nos cinco continente, a maioria dos homens, com seus vícios e virtudes, assemelha-se mais aos pássaros e aos gorilas do que aos cães de rua. Quando a cães de rua se assemelham (e ocorrem muito), isso não é valorado positivamente por ninguém.

No fundo, há um falso dilema aqui entre o que é “natural” e o que é “social”: é natural para os seres humanos serem criaturas sociais. Há variações culturais imensas, mas também parece haver alguns universais – a família sendo, como mencionamos, um deles.

Aquele pequeno grupo que mencionamos anteriormente, se tiver sobrevivido à leitura, possivelmente estará, a esta altura, salivando de forma espumante e rasgando as vestes de forma dramática. Prosseguiremos, de qualquer forma, serenamente, como convém a um dia de domingo, agradecendo a paciência de quem ainda nos lê.

Ora, sabemos muito bem que o sistema de parentesco brasileiro, em sentido antropológico, não contempla somente a chamada “família nuclear”, mas em verdade se estende a arranjos outros, com padrinhos, madrinhas, pais e mães de criação, agregados e também as famílias compostas por mães solteiras.

Contudo, a ausência de um pai (digno do nome) é, normalmente, vivenciada de forma negativa.

A consanguinidade é valorada em nossa cultura e ordenamento jurídico e lhe é atribuído intenso sentido simbólico e cultural – isso é inegável. Os pais e as mães se regozijam em dizer que este ou aquele infante é “sangue do meu sangue”.

Contudo, é evidente que isso não é tudo. A noção de “pai de criação” também ocupa lugar em nossa civilização e os murmuradores serão os primeiros a nos lembrarem disso. Mas, em algum grau, sempre foi assim, em toda parte – aqui poderíamos citar os ditados italianos que proclamam que “chamo de pai quem me dá de comer”, mencionar a lei romana para dizer que o sangue é valorado, mas, em última instância, ser pai é função social. Mas pouparemos quem nos lê de tanta erudição.

Concluindo, existem fatos da vida biológica relacionados a ser pai e ser mãe e, ao mesmo tempo, a paternidade é, sim, uma “construção social”. Assim como o matrimônio, o tabu do incesto, a cidadania, o Estado de Direito e a nacionalidade são também “construções reais” e, exatamente por isso, são reais! Somos seres sociais e não existe nada no adulto que seja puramente “natural” – nem sotaque nem tipo de vestimenta nem idioma específico falado.  Construções sociais possuem densidade ontológica. O fato de que algo ser uma “construção social” não faz com que seja menos verdadeiro por isso!

Aqui devemos – admitimo-lo – pedir desculpas por usarmos a ocasião do Dia dos Pais como pretexto para atacar aqueles murmuradores que tanto mencionamos. Se os atacamos, é antes para dispensar um não-essencialismo radical e um “pós-modernismo” que não oferece nada de bom ao povo.

De resto,  não cabe mais cansar quem nos lê com uma estéril discussão sobre natureza e cultura ou “nature versus nurture”. Até poderíamos, à guisa de ilustração, citar várias estatísticas e estudos sobre o impacto que a falta de uma presença paterna faz nos lares e na formação das crianças (particularmente dos meninos), salientando ser digna de nota a correlação entre falta de pai e delinquência juvenil, por exemplo. Mas não é preciso: quem nos lê sabe do que estamos falando.

O ataque ao Dia dos Pais, salientamos, não é só um ataque à instituição da família, abrigo e escudo do Povo e da classe trabalhadora (que por pressões econômicas e ataques na esfera cultural se vê dispersa em famílias despedaçadas e enfraquecidas, enquanto a casta parasitária financeira que nos domina está encastelada em famílias poderosas, famílias clãs, dinastias oligárquicas).

É mais do que isso: é ataque à ideia mesma, arquetípica, de Pai: esse misto de amor e severidade, de rigor e compaixão, de sabedoria e desconfiança. “Olha lá, hein”…

Usam o ataque à figura do pai para denunciar e atacar o trabalhismo, o “populismo”, o “caudilhismo”, o “autoritarismo” – quando, mais do que nunca, precisamos tanto de caudilhos.

Só nos resta saudar e parabenizar os pais, dignos do nome, perfeitos ou imperfeitos, como companheiros das mães, co-artífices dos homens e mulheres do amanhã e, assim, de nossa Pátria futura e nos resta, ademais, conclamar os homens de nosso povo a serem homens de verdade e pais de verdade, que honram seus compromissos e deveres para com sua prole, movidos pela responsabilidade e pelo amor.

A Nova Resistência deseja a todos os pais um feliz Dia dos Pais.

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