O Aniversário da Revolução Cubana como Lição Soberanista

Escrito por Andrea Virga
Texto de 2013

Nessa próxima semana em Cuba se festejará em magna pompa o 60º aniversário da Revolução. Ofícios públicos e atividades comerciais já começaram com exposições e pôsteres celebratórios. O 26 de Julho será um dia festivo e os habaneros se lançarão à orla de Malecón para fazer fiesta y pachanga, para beber e dançar até tarde.

Não se trata, porém, da recorrência da entrada dos barbudos à Havana em 1 de janeiro de 1959. Também esta é uma data festiva, o aniversário do Triunfo da Revolução, mas ela é tão somente a conclusão da primeira etapa de uma aventura empreendida mais de cinco anos antes. Por estranho que possa parecer, não se festeja um triunfo no 26 de julho, mas uma derrota.

Era 1953, e no ano anterior o ex-presidente Fulgêncio Batista havia retomado o poder com um golpe militar. Era um sargento mulato, que havia se projetado com o golpe d 1934, antes de ser eleito (dessa vez regularmente!) em 1940, com o apoio da esquerda (inclusive dos comunistas). A guerra mundial lhe havia fornecido a ocasião de correr em apoio aos States depois de Pearl Harbour e de cultivar ambições de participação no teatro europeu. Nos anos 50 ele se contentava com agitar os seus sabres e recolher subornos de seus parceiros de negócios, Meyer Lanski e Lucky Luciano principalmente, destinados à sua conta em Santo Domingo.

Depois da ocupação militar e da repartição das riquezas do país entre as Corporation, de fato, ao fim da época do proibicionismo e do ditador Machado, os Estados Unidos puritanos haviam escolhido Cuba como bordel de luxo, a 60 milhas de distância da Flórida. No entanto, fora da cintilante “Paris das Antilhas”, a Havana das nights e dos cassinos, dos subornos e dos prostíbulos, os cidadãos cubanos viviam em condições de miséria, enquanto o 1% dos proprietários dividiam 47% das terras. Mas não foram eles a se sublevar, nem tampouco os trabalhadores das plantations ou os operários das refinarias; foi um punhado de jovens de boa família, filhos da burguesia branca e urbana, a reagir, custasse o que custasse.

Poucos deles eram, de fato, comunistas ou socialistas, para dizer a verdade. Muitos deles vinham do Partido Ortodoxo, cujo líder, Eduardo Chibás, havia se suicidado ao vivo na rádio, para protestar contra a deplorável situação política em que o país se encontrava. O lema do partido, “vergonha contra dinheiro”, refletia as suas posições justicialistas e nacionalistas. De fato, aquilo pelo que lutavam era uma Revolução Nacional que desse seguimento ao caminho interrompido em 1898 e realizasse o sonho de José Martí: uma Cuba livre das ingerências americanas, plenamente soberana no fórum das outras nações americanas, e socialmente justa.

O herdeiro de Chibás, já líder de seus círculos jovens, era um advogado de vinte e seis anos, filho de um agricultor galego de Birán, perto de Holguín, e cunhado do ministro batistiano Díaz-Balart. A educação dada pelos jesuítas falangistas do Colégio de Belén havia alimentado o seu orgulho, o seu carisma e a sua eloquência, criando um líder natural: Fidel Alejandro Castro Ruz. O apoiavam no empreendimento, entre outros, o irmão mais novo Raúl, os irmãos Abel e Haydée Santamaría Cuadrado, José Luis Tasende, Juan Almeide Bosque e Melba Hernández.

Os jovens patriotas começaram a se organizar, a arranjar armas e a se exercitarem secretamente com o fim ousado de derrubar o regime. Fieis à lição de José Martí, segundo o qual, quem controla a Sierra Maestra controla o leste e quem controla o leste controla Cuba, planejaram o assalto às duas principais casernas de Santiago de Cuba (o Quartel “Guillermo Moncada”), segunda cidade do país, e de Bayamo (o Quartel “Carlos Manuel de Céspedes”), ambos às margens da Sierra Maestra. O seu plano era neutralizar as forças militares do governo, se apossar das armas contidas nas casernas, e abrirem dessa forma o caminho para uma insurreição geral, que dali se espalhasse para o resto do país, até chegar à Havana.

Havia sido escolhida a noite do 26 de Julho, depois do Carnaval de Santiago, prevendo que os soldados estivessem então atordoados pelas festividades. Todavia, apesar de um aparente sucesso inicial, a incapacidade dos revolucionários de assumirem o controle rápido dos edifícios e a intervenção das forças do governo fez com que o assalto acabasse em um desastre. Muitos caíram em combate, outros foram executados sumariamente, outros torturados e massacrados, como Abel Santamaría e José Luis Tasende. Os sobreviventes não conseguiram fugir pela Sierra, foram capturados, processados e condenados à prisão na Ilha dos Pinheiros. Foi em ocasião do processo que Fidel Castro se defende pronunciando a famosa arenga “A História me absolverá”.

No 26 de Julho, portanto, se celebra uma “Caporetto”, a qual, porém, teve nos anos sucessivos, o seu “Piave”, o seu “Grappa” e a sua “Vittorio Veneto”. De 1956 a 1958, as forças revolucionárias, lideradas pelos irmãos Castro, combateram sob o nome de Movimento 26 de Julho. “M-26” estava escrito em branco sobre a faixa vermelha e negra que os guerrilheiros portavam no braço esquerdo, sobre os uniformes verde-oliva, e a eles se deve, essencialmente, a derrota do regime. Os eventos que se seguiram depois dividiram a própria frente revolucionária, mas eventos como o 26 de julho ou o 1 de janeiro pertencem à toda a nação cubana.

Para sublinhar isto, de 1959 em diante, todo ano, uma cidade diferente tem sediado as celebrações oficiais deste evento. Neste ano, o sexagésimo, coube a Santiago de Cuba, e os muros crivados de projéteis do Quartel Moncada ecoaram as vozes dos protagonistas daquele tempo, envelhecidos pelos anos e pelo exercício do poder, mas no íntimo ainda tão jovens quanto antes. Eu estarei lá, para ver de perto como é um povo soberano, um povo que não festeja a ocupação estrangeira chamando-a de “Libertação”.

Andrea Virga

Historiador, PhD em história política e autor do livro Cuba: Dio patria socialismo.

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