Montanha e Espiritualidade: Entrevista com Domenico Rudatis

Montanha e Espiritualidade: Entrevista com Domenico Rudatis em Heliodromos nº 4, inverno de 1988.

Consideramos interessante levar ao conhecimento dos leitores de Heliodromos essa entrevista de Domenico Rudatis, figura eminente do alpinismo nos anos vinte e teórico da dimensão esotérica do alpinismo, com a certeza de suscitar a curiosidade e o interesse naqueles que possam entender a dimensão espiritual e de conhecimento que encerra sua prática. Já no passado apresentamos uma resenha do magnífico livro de D. Rudatis, Liberazione, em que o autor repassa sua vida de alpinista enfocada como prática esotérica.

Rudatis, que reside em Nova York há muitos anos, nasceu em Veneza no início do século XX no seio de uma família bellunesa. Nos anos vinte, junto aos mais experientes alpinista do momento, realizou ascensões excepcionais no conjunto dolomítico do Civetta. No entanto, sua atividade como alpinista sempre esteve iluminada por uma busca interior e por exigências espirituais, que fazem da ascensão um tipo de ascese cósmica. Sempre foi contrário aos enfoques demasiado técnicos do montanhismo, consequência de sua democratização, e defendeu um alpinismo elitista, isento de inutilidades e de virtuosismos meramente ginásticos e de toda a retórica tardo-romântica então em voga. Naqueles anos colabora em diversas publicações, entre elas Diorama Filosófico, na qual escreveu vários artigos sobre o conceito de esporte.

Rudatis desenvolverá este tema ulteriormente nas revistas especializadas do CAI e em monografias importantes (como por exemplo La Battaglia del sesto grado escrita junto a Messner e Varale) dedicadas completamente à busca e à defesa dos valores morais e espirituais do alpinismo.

Sem esquecer que – como aponta O. E. Meyer – “a montanha não pode ser o essencial para nós, senão o homem; tampouco o fato ou o trabalho exterior, senão sua ressonância espiritual”.

Numa época em que a Grande Paródia – a modernização – elevou toda ideia antitradicional, subvertendo campos que sempre pertenceram ao mundo da Tradição, como as práticas outrora vivificadas pelo Espírito, o que se pode dizer do sentido original do alpinismo e do que atualmente permanece dele? O que você pensa das formas modernas (do tipo free-climbing, para ser claro) que fazem da escalada um mero exercício de ginástica destituído de qualquer referência espiritual e que nada tem a ver com o alpinismo de Preuss, de Welzenbach ou de Buhl?

Píndaro, o ápice da lírica grega, cantou as primeiras Olimpíadas e outros grandes acontecimentos esportivos no século sexto antes de Cristo. Ele foi um homem de elevado intelecto. Em suas Odas salientou que os homens e os deuses se encontravam no mesmo nível e extraíam a respiração da vida da mesma mãe-terra. Somente os poderes eram diferentes. Píndaro está entre os primeiros gregos a defender que os deuses foram homens de origem não terrestre.

Os gregos foram valiosos alpinistas. Alexandre Magno foi da Grécia à Caxemira, nas regiões do Himalaia. Escalaram montanhas usando cordas e cravos no terceiro século antes de Cristo. A degeneração do alpinismo é sem dúvida um fenômeno do Renascimento, culminando com os passeios sobre os campos do Ventoux do poeta Petrarca com seu irmão Gerardo. Por fim, Petrarca se arrependeu de seus passeios porque leu nas Confissões de Santo Agostinho que os homens passeiam para apreciar a natureza e se esquecem da alma. Voltou a Avignon, onde estava provisionalmente a Sede Papal, como cortesão, ainda que continuou sendo um bom latinista. Mais tarde foi coroado poeta em Roma e reconhecido como o pai espiritual do alpinismo! Este engano continuou durante muitos séculos. Petrarca não havia buscado esse título e nem o queria, mas lhe foi imposto, seguindo o sistema comum de fazer representante de algo a um homem que não o representa em absoluto. Em realidade foi somente a arrogância e a fátua vaidade renascentista. Junto com as vaidades políticas, sempre exibindo méritos daqueles que carecem. Na mesma época do Renascimento os incas efetuaram escaladas difíceis e valentes. O free-climbing é uma classificação ambígua. Geralmente é uma ascensão com medidas de segurança mas sem meios especiais para avançar. O free-climbing puro, isso é, só com os próprios meios, é uma exceção raríssima, e requer extraordinárias qualidades atléticas e psicológicas. O melhor exemplo é Jonh Bachar. É um alpinismo muito concentrado tanto a partir do ponto de vista do esforço como das emoções. É um diálogo com a eternidade! Não tem nada a ver com os vulgares free-climbing. Bachar poderia fazer a via Preuss com muita facilidade.

Poderia o alpinismo, entendido não como atividade esportiva, mas como uma experiência mágico-ascética, se se realiza uma prática correta unida igualmente a uma adequada sensibilidade interior, criar a possibilidade de aberturas espirituais no homem?

O alpinismo entendido como experiência espiritual pode elevar e pode implicar perfeitamente aberturas de consciência a níveis superiores. Eu tive várias experiências deste gênero. Pode tratar-se do despertar de percepções esotéricas milenárias. Há muitos exemplos de percepções parapsicológicas. Agora bem, é preciso entender que não adianta levar à igreja alguém cheio de egoísmo para convertê-lo em um santo. Na montanha, no fundo, estamos diante do mesmo fenômeno.

A montanha com sua severa essencialidade e sua potência vertical pode induzir a considerações e atitudes de coragem que podem elevar o homem. No entanto, a literatura de montanha é muitas vezes repleta de banalidades comuns ao sentimentalismo ou, no melhor dos casos, dedicada à mera crônica técnica do empreendimento alpinista em questão. Além de Lammer com sua “Fonte de Juventude”, em sua opinião, que outros personagens e obras souberam captar o sentido da experiência ascética e a espiritualidade que a montanha encerra em si?

É reconhecido que a alta montanha não tem uma grande poesia, nem literatura, nem uma grande música, nem sequer uma grande pintura. A única extraordinária exceção é Nicolas Roerich, extraordinário pintor, arqueólogo, explorador e escritor. Mas ele também foi um místico e um profundo conhecedor do Oriente. Seus quadros tem uma atmosfera mística única no mundo. Inclusive encontrou vestígios da presença de Cristo no Tibete, isso é, de Jesus jovem.

Em 1937 me tornei membro do Ateneu do Vêneto e publiquei um ensaio no órgão oficial intitulado “O sentimento dos cumes”, dedicado a evidenciar que a alta montanha não forma parte do mundo da arte. É algo bastante raro, mas que se explica se consideramos a montanha como um entorno místico e não decorativo ou cenográfico. Por sua vez, Lammer tem boas páginas. Teria que adicionar, ás vezes com vantagem, à Oskar Erich Meyer. E em parte, também a Leo Maduschka. Lammer representa o tom estético, Meyer o tom místico, Maduschka o tom ético. K. Greitbauer escreveu um grosso volume sobre a estrutura psicológica dos alpinistas e estabeleceu uma relação com o existencialismo. Escrevi bastante acerca do sentido esotérico da montanha e Evola também o fez. Mas no fundo está faltando voltar-se para o Oriente. No entanto, há mais de cinco mil anos os sumérios escreveram: “O verdadeiro filho do abismo é o verdadeiro filho de Deus”. Merezkowsky também lembrou dessa inscrição!

Reinhold Messner é hoje em dia certamente o alpinista mais famoso por suas conquistas excepcionais. Qual é a sua opinião sobre ele? Como você vê a entrada no mundo do alpinismo dos grandes patrocinadores, da televisão e as mídias de massa, utilizados por Messner para financiar suas expedições?

R. Messner nasceu e viveu entre os cumes das Dolomitas, cresceu escalando e, portanto, fixou em seus nervos e em seu sangue as reações mais válidas e rápidas exatamente porque começou a escalar muito jovem. Muito robusto, e adestrado perfeitamente, escalou com perfeição também fora de casa. Além disso, Messner é um magnífico administrador de si mesmo. Teria sido um homem de negócios perfeito em qualquer campo. Messner é para a montanha o que Picasso é para a Pintura. Isso significa que possui capacidade pessoal combinada com um saber perfeitamente calculado. Era inclusive capaz de ajudar através de seus livros. O resultado final é um êxito completo, tanto no cálculo como na execução.

Concluindo, Messner calculou bem, realizou as coisas de maneira bem feita e, portanto, triunfou a partir do ponto de vista da sociedade moderna, interessada no êxito material alcançado da maneira mais rápida possível. O que conseguiu construir dentro de si espiritualmente é algo muito difícil de dizer. Se eu fosse muito rico confiaria à Messner algumas explorações no Peru, onde certamente existem coisas muito interessantes como a cidade oculta dos incas, como a lendária Paititi e não o Machu Picchu, as imensas redes de galerias, onde o companheiro de um conhecido meu se perdeu num labirinto e não foi possível encontrá-lo.

Na coleção Diorama Filosófico aparecem alguns de seus escritos acerca do conceito de esporte. Esporte entendido como “ludo”, ato sacro e ritual. Mas, em sua opinião, a ideia de esporte não seria uma ideia completamente moderna, dificilmente aplicável à concepção tradicional da vida em que, se fosse o caso, deveríamos falar de treinamento: físico, psíquico e espiritual? E lembrando de antigas controvérsias sempre presentes, o alpinismo é uma prática esportiva ou transcende isso?

O esporte não é uma ideia moderna. O ideal esportivo é típico da Grécia antiga. Desde o começo do primeiro milênio a. C. traduz um elevado nível espiritual. Que às vezes também participassem os deuses é algo que transmite a importância do esporte, o que inclusive demonstra que os deuses foram essencialmente humanos! Píndaro exaltou essa antiga visão esportiva no século sexto antes de Cristo, mas as Olimpíadas haviam começado séculos antes.

Os modernos criaram o esporte financeiro, isso é, transformando-o em um mercado muitas vezes suspeito. Uma das infinitas degenerações psicológicas modernas. O alpinismo é um esporte no melhor sentido. Agora está se transformando em um mercado como qualquer outra atividade. O alpinismo, que os incas consideravam como algo sagrado, agora é cada vez mais uma propaganda comercial. Cabe recordar a discussão iniciada na revista CAI em que alguém chegou a afirmar que os que se dedicam exclusivamente ao alpinismo são “parasitas sociais” já que não produzem nada. Mas de acordo com essa lógica todos os guias da humanidade haveriam sido parasitas sociais! Hoje seria exigido que vivessem só para produzir benefícios!

Em Cavalgar o Tigre, Julius Evola ofereceu ao homem do kaly-yuga, que assiste de pé, impassível, graças à referência da Tradição, o desmoronamento de um mundo em ruínas, algumas indicações precisas acerca de como afrontar a atual contingência cíclica. Afirma que há no Oriente a possibilidade de forçar e conseguir, mediante experiências-limite, como o alpinismo, aberturas de consciência não facilmente acessível aos homens de outras idades. Você compartilha dessa visão do alpinismo e das opiniões evolianas em geral?

Que o alpinismo seja uma experiência limite é exato, mas só no caso em que se exclua o alpinismo essencialmente técnico. Portanto, Evola tem razão, como é preciso reconhecer com frequência, mas sempre se você não inventa algum “absoluto”. É fato que a crise nuclear poderia significar o fim do último século. Assim afirmaram os maias há mil anos, que calcularam uma data pouco depois do ano 2000, o que parece confirmado agora por muitos outros indícios e é um tema interessante abordado por alguns livros americanos recentes. Nesse caso a atitude individual conta pouco ou nada. Para que a defesa seja possível deve ser coletiva. A existência de galerias profundas muito antigas demonstra que houveram crises igualmente muito antigas que foram superadas! Estou escrevendo sobre isso em um livro. Evola fez parte de um grupo de cientistas muito ativo interessado nesses problemas.

Evola sempre viu os problemas localmente. Porém, hoje os problemas são universais ou quase, e tudo se modificou. Discutir de “romanidade” também é algo provincial. Hoje os problemas são terrestres e realmente globais. Tratei essa questão no Anuário do Clube Alpino Acadêmico de 1982 e publiquei um artigo no Arthos nº 29, onde também foi publicada uma entrevista que concedi a um editor suíço de Evola.

Em relação a Evola, você poderia nos contar como se lembra dele e do ambiente tradicional dos anos trinta? Como entraram em contato? Quais foram as razões que o levaram a colaborar com Evola e quais foram, se houveram, seus contatos com o Grupo de Ur?

Em 1930 publiquei na revista do CAI um artigo muito original sobre uma ascensão noturna sem meios nem auxílios ao Pão de Açucar da Civetta. Tinha inclusive um sentido esotérico. Muita gente me escreveu, inclusive Evola, que encontrou naquele texto nossa afinidade espiritual. E me convidou a colaborar com Ur. De fato, colaborei com KRUR, mas não tive contato com o grupo. Porém, sei que Evola teve alguns problemas. Estimei muito Evola, estudei seus livros, todos ou quase todos. Como escritor foi excelente. Logo me convidou a colaborar na Diorama e na La Torre. Encontrou-se comigo em Veneza durante uma viagem.

Não tive contatos com o Grupo de Ur, eles tiveram muitos problemas, e estavam obcecados em parte pela magia da Idade Média, que não me interessou, embora eu tenha estudado Kremmerz!

Você viveu cerca de quarenta anos nos Estados Unidos. O “país mais plebeu do mundo”, que para nós representa o compêndio do que é a descrição do mundo moderno e, portanto, o país que mais radicalmente representa a negação dos valores tradicionais. Como você foi se estabelecer ali e qual a sua experiência a partir desse ponto de vista?

Eu fui a Nova York em 1939 porque um financiador americano, honesto e inteligente, veio ver meus experimentos com filmes a cores sem fotografia e me levou a Nova York, onde vários jornais me entrevistaram sobre esse tema. Inclusive foi aprovado pelo Conselho Nacional de Investigação. A Fiat (ou seja, o senhor Agnelli) se interessou, mas Ferrania foi contra porque eles tinham feito recentemente contratos para o fornecimento de prata e eu não usava prata. Me enviaram, todavia, uma carta muito entusiasmada. Depois de um ano de experimentos em Nova York o estopim da guerra me fez voltar à Itália e tomar parte no conflito até o final. Nesse meio tempo meu financiador organizou um grupo formidável com a XX Century Fox e o Chase Manhattan Bank. No entanto, durante a primeira viagem de negócios ao Brasil o avião sofreu um acidente, assim permaneci em Veneza até 1952. Voltei a Nova York onde se encontrava o irmão de minha mulher. Também fiz outros inventos e consegui muitas patentes, mas a chamada “rat race”* me decepcionou e voltei de Nova York. Estive em Roma em 1957 em razão de algumas patentes de televisão mas fiquei desapontado e retornei à Nova York.

Ainda que se acredite que os EUA são o país da especulação, com todas as suas consequências pouco espirituais, também é um fato que possuem uma visão total das coisas, não provinciana. Isto significa que enquanto na Europa existem discussões por mil questões sem importância, nos EUA você pode viver à sua maneira sem problemas nem críticas. E há grupos interessados em qualquer aspecto tradicional ou esotérico. Yoga autêntico e yoga falso. Profetas autênticos e charlatões. Enfim, o mundo inteiro está representado. Há sociedades de interesse e uma produção literária gigantesca. Quem quiser viver isolado ou agrupar-se pode fazê-lo onde e como queira. Ninguém o incomoda! Na zona em que eu vivo há mais de cem mil asiáticos: Hindus, coreanos, taiwaneses, japoneses, chineses e também indochineses. Nas universidades existem cursos de Yoga e muitas outras atividades não clássicas. De fato, em um mundo sem provincianismos você respira melhor. Por outro lado, a pressão dos acontecimentos internacionais é sentida com mais intensidade. Não se pode ter tudo!

Sabemos que depois de Liberazione você está trabalhando em outros livros. Pode nos contar brevemente do que eles tratam?

Recentemente publiquei quatro ensaios sobre o Anuário do C.A.A.I que tem menos leitores, ainda que mais inteligentes, para estudar o nível atual na Itália. Recentemente publiquei Liberazione, para o qual muitos grupos independentes não reagiram mal. Tenho um trabalho bastante avançado, ao qual irei adicionar outros três volumes. Ele já está pronto e se intitula La via delle vie – Il Tao della montagna.

Escrevi trezentas e vinte páginas e preparei uma dezena de ilustrações. Estou em dúvida se vou acrescentar um capítulo final. Os outros três são: La civiltà suicida e la sua rigenerazione. Já tenho uma enorme quantidade de material crítico sobre problemas atuais. La realtà della tradizione primordiale. Não a entendo como fundamento doutrinal, agora as doutrinas não importam muito. Trata-se de averiguar se fomos precedidos por uma civilização superior. Al di là dell’aventura: é um livro de montanha em sentido artístico, quase como minha preparação para a jornada esotérica.

Como você vê o futuro dos círculos tradicionais que hoje tentam constituir pontos de referência para a afirmação de princípios espirituais, considerando as condições cíclicas particulares em que nos encontramos? Qual você acha que deveria ser o elemento fundamental capaz de impedir que sua ação seja frustrada?

Nos encontramos em um ponto histórico fundamental. Para superá-lo é necessário, sobretudo, educar-se em convicções autênticas, profundas e sólidas. As convicções teóricas ajudam pouco. A filosofia sempre se afogou em um mar de palavras. Com ou sem metalinguagens. A ciência já renegou da metafísica. Por sua vez, a ciência pode se tornar uma metafísica mais prudente ou melhor organizada. Porém, é preciso levar em consideração que se ela alcança a realidade quântica, esta fica como uma física provisória. É necessário reconstruir nossas convicções a partir de tudo que é realidade certa de verdade. Quando temos convicções sólidas é possível encontrar uma ação de recuperação e proteção. Se entramos em um ciclo de absoluta renovação é preciso reformar nossa personalidade psíquica, de acordo com os “bardos” do livro tibetano dos mortos, que logo se aproximam dos corpos sutis egípcios ou tibetanos.

Nota do tradutor:
*Expressão de origem anglófona utilizada para descrever uma busca inútil e sem fim. Relaciona-se, geralmente, com o esforço ou competição exaustiva pelo sucesso financeiro no meio social. A expressão compara os seres humanos com ratos tentando ganhar alguma recompensa, como queijo, por exemplo, mas sem obter sucesso.

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