AVANTE, CAMARADAS!

Por Hugo Maas

Estranhos sempre são os caminhos que as revoltas populares traçam. São mesmo pitorescos. Singulares porque toda aquela energia reprimida, aquela cegueira produzida pela exploração, de repente emerge da mais pesada inércia, do mais empedernido fatalismo, e se torna consciência, encarna a Nação e faz História.

Os produtos desta explosão se transformam, para as gerações seguintes, em uma Tradição. São símbolos, comportamentos, instituições políticas, formas de manifestações culturais etc. que passam a constituir o seu Ser. O pensador russo Lev Gumilev tentou explicar estas explosões como fenômenos físicobiológicos. Como materializações do que chamou de “passionaridade”, um neologismo para dar conta deste alude de energia e paixões na História. A constatação da realidade de uma singularidade talvez seja o real significado, do que é normalmente tomado como mero artifício estilístico, retórico, da famosa citação de que “só se repete como farsa”.

E assim são os cantos de batalha que embalaram, que traduziram estas emoções tão fortes. Aquelas canções que seguem, passados há muito aqueles ambientes e tempos apaixonados, causando sentimentos em quem as escuta, ou as entoa procurando evocar, ressuscitar, as mesmas forças de outrora. A música sempre foi capaz disto. E a permanência, além dos modismos artísticos de cada época, é testemunho maior que ali está bem mais que uma simples melodia. Talvez fragmentos da própria Nação que encarnou.

Assim foi com a “Marselhesa”, de simples canto de uma pequena unidade militar se tornou hino de uma Revolução. Assim foi também com “A Internacional”, de autoria confusa, de temática anarquista, cantada a plenos pulmões pelo Proletariado, senhor de si pela primeira vez na História, nas barricadas da Comuna. Dali se transformou em hino revolucionário dos trabalhadores do mundo. Belas e vibrantes melodias. Letras inspiradoras. Populares. Ficaram.

No início do século XX o Proletariado brasileiro surgia como sujeito histórico. A Greve Geral de São Paulo é sua festa de debutante. Enquanto a burguesia nacionalista do Rio Grande do Sul, ligada ao mercado interno pela pecuária, acolhia os reclamos dos trabalhadores e pressionava os empregadores, a práxis originária do Trabalhismo, em São Paulo era o inverso que ocorria. Ligados aos interesses internacionais pela cafeicultura, pouco interessados em um mercado interno forte, o caminho escolhido era a da pura e aberta repressão.

Em 1924 a cidade de São Paulo é bombardeada. Os revoltosos paulistas se retiram e se unem a coluna rio-grandense, em marcha para o norte, formando a Coluna Prestes. E é partir dali que a Coluna Invicta começa sua epopéia. Liderados por aquele que se tornaria famoso como o Cavaleiro da Esperança, o capitão L. C. Prestes, realizam a maior marcha militar da História do mundo.

Atravessando regiões inóspitas levava alento, uma promessa de mudanças, de justiça e desenvolvimento, àqueles esquecidos dos vastos sertões da Pátria. Um apostolado político. Alimentaram sentimentos, desejos e, sobretudo, a esperança que seu Cavaleiro trazia. Fizeram-se a voz dos que, até então, não tinham voz, nem sequer uma existência reconhecida. Daqueles compatriotas idiotizados pelo isolamento e pela desatenção, esmagados pela tirania caprichosa do latifúndio criminoso. Atiçaram as brasas de uma nacionalidade entorpecida, de um nativismo adormecido. Sacudiram a alienação social e política.

No pequeno povoado de Angical, no sertão baiano, provocou alvoroço a notícia que a Coluna se aproximava. Um humilde maestro, Antonino do Espírito Santo, se pôs a compor um dobrado em homenagem àqueles heróis que tantos, e ele próprio, admiravam: “Avante, Camaradas!”. O dobrado era ensaiado todos os dias no coreto da praça. Todos queriam estar certos da bela e perfeita execução da peça. Mas a Coluna se desviou, tomou outros rumos.

E quem chegou ao povoado, na perseguição aos revoltosos, foram as tropas do governo. Escutam o dobrado. Apaixonam-se. Aprendem letra e melodia. Partem; mas agora marchando, alegres e entusiasmados, cantarolando o dobrado.

Mais tarde, a música chega a Capital Federal. Rapidamente cai no gosto de todos. É-lhe dada partitura e acolhimento oficial no hinário do Exército: se transforma no “Dobrado 220”!

Sim, pitorescos são os caminhos. Inusitados. E até irônicos os episódios. A música revolucionária, de tinturas rebeldes, de metáforas parnasianas, se torna um admirado e inspirador dobrado das forças de repressão. Até hoje, rara a cerimônia em que uma Banda Militar não a execute.

Permitir que os inimigos do Povo se apossem dos símbolos nacionais, que distorçam seus significados e origens, que contem a História, é já admitir derrota. Nós, o Povo, é que somos a Pátria. Não podemos, negligentes e omissos, calar-nos.

O “Avante, Camaradas!” é a nossa “Marselhesa”, a nossa “A Internacional”, o nosso canto de guerra. Composto por artista popular, a partir da cultura popular, por iniciativa popular, para uma força revolucionária popular.

O exemplo da Grande Marcha exige a maior coragem e a mais firme determinação. Resgatemos nosso canto de guerra, os sentimentos de esperança que ele evoca, a força popular que ele carrega. Seu chamamento à luta.

“Aqui não há quem nos detenha
E nem quem turbe a nossa galhardia
Quem nobre missão desempenha
Temer não pode a Tirania, a Tirania.”

“E nunca seremos vencidos
Porque marchamos sob a luz da Crença
Marchemos sempre convencidos
Não há denodo que nos vença.”

LIBERDADE! JUSTIÇA! REVOLUÇÃO!

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