A Raça Cósmica

Por Hugo Mass

A questão racial sempre foi uma arma de dominação. A invenção do conceito de superioridade racial é uma invenção do colonialismo europeu moderno, de origem anglo-saxônica. O “fardo do homem branco”, a justificativa inglesa, foi sucedida pelo “destino manifesto” ianque. Do racismo explícito se passou ao subtendido sem solução de continuidade.

Estes conceitos pseudocientíficos sempre foram usados para explicar e justificar a exploração. Pretendiam tanto criar um espírito-de-corpo, que garantisse a massa interna necessária para manobrar, quanto um psicologismo de íncubo, de inferioridade, nos dominados, que sustentasse uma submissão infantil, o tal complexo de vira-latas.

Enquanto as forças do Imperialismo eram fracas, o interesse britânico se dirigia mais à Índia e África, as reações não surgiram, não apareceram fortes contestações. Mas no final do século XIX a presença ianque se fez sentir no Continente. E um incômodo nos intelectuais começa a se manifestar.

Em 1925, um político, servidor público e intelectual mexicano, José Vasconcelos (1881-1959), produz uma obra original. No rastro de E. Rodó, mas ainda preso aos conceitos científicos de sua época, desenvolve, em seu livro “La Raza Cósmica”, o conceito de que uma “raça” formada na América Latina, era destinada, pela vantagem da assimilação das diversas origens, a inaugurar a era universal da humanidade. A guiar a humanidade à Humanidade, à plena realização do Homem.

Nascido em um ambiente de forte influência indígena, com estudos básicos nos EUA, político atuante durante a Revolução Mexicana e embaixador nos países do Cone Sul, Brasil incluso, teve a rara oportunidade de vivenciar as realidades da América Latina e da América Anglo-saxônica, e, com seu talento e inteligência, teorizar sobre estas realidades com especial ineditismo. Carregava, ao lado da erudição e da experiência, aquele misticismo típico dos profetas dos povos escolhidos. Ficou conhecido, por este misto de ação e pensamento, como o “Caudilho Cultural” da Revolução Mexicana.

Vislumbrou uma trajetória humana onde os três grandes ramos da espécie humana, separados há milênios, se reencontravam na América Latina. E aqui, e só aqui, pela miscigenação das experiências e culturas particulares, estavam destinadas a estabelecer, deixando para trás a velha condição existencial desordenada, a era universal da humanidade, a criar o protótipo do Homem Novo. Um Homem que teria em si mesmo o espírito de toda História humana.

Como um dos reorganizadores da Universidade do México deixou lá sua marca. O escudo da Universidade ostenta o lema: “Por mi Raza Hablara el Espiritu”. Voltado para o leste/Oceano Pacífico, está um condor, símbolo dos Andes; virado para o oeste/Oceano Atlântico, uma harpia/uiraçu, símbolo das selvas tropicais, completam, como metáfora gráfica, a descrição de sua visão.

Hoje enfrentamos as mesmas ameaças de fragmentarismos políticos. E não só mais apenas divisionismos raciais, mas de todo tipo. Os adversários são muitos.
Diante destes oportunismos táticos, só podemos expor uma estratégia intransigente.
Que não consiste só em palavras, que são necessárias, mas em Poder.

Continuamos sendo uma realidade prometida, mas que ainda não se realizou. Carregamos em nós uma dimensão cósmica e ecumênica que nossos atuais grupos governantes não estão à altura. Não são elites, são uma ralé; não têm o direito de nos liderar. O mundo espera, de respiração suspensa, o advento da Raça Cósmica.

É nosso dever emergir da infantilidade e entrar na História.

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