A verdadeira face da Abolição da Escravatura

Por Hugo Maas

Não existe História do “se…”. Todos sabemos disso. A História é um estudo sobre o que ocorreu, o Passado, mas é também a ciência do Presente. Do Presente porque se propõe a compreendê-lo, olhando o Passado, suas determinações e tendências, para assim tentar vislumbrar o Futuro.

Todavia a História do “se” tem seu papel. Ao imaginar como poderia ter sido, podemos entender porque é assim, e não de outro modo. A chamada História comparada, em que buscamos fenômenos semelhantes em outros lugares e tempos, nos permite lançar uma luz sobre a nossa própria realidade. Vê-la com olhos de estrangeiro.

No mês de maio sempre se celebra a Abolição. E discussões sobre o papel do Quilombo dos Palmares sempre vem à tona. E se o Quilombo tivesse sobrevivido? O que teria acontecido? Enfim, era um movimento Abolicionista?

A História da Jamaica fornece um paralelo interessante. Aqui, a guerra contra a invasão holandesa, que desorganizou a administração pública, permitiu o estabelecimento, o crescimento e a consolidação de uma sociedade quilombola. Na Jamaica, a invasão inglesa da ilha, então sob controle espanhol, parte do amplo estabelecimento, pelas potências europeias mercantilistas, de uma “civilização do açúcar” no Caribe, movimento propiciado pela expulsão dos holandeses do Brasil, provocou o mesmo efeito.

Na confusão causada pelo confronto, os escravos, sob controle espanhol, ganharam a liberdade. Estes contingentes se refugiaram nas montanhas do interior inóspito formando enormes comunidades. Recebem a denominação de Maroons, derivado da palavra castelhana “cimarrone” – que também deu origem à palavra “chimarrão” em português, que, conforme algumas teorias, deriva da expressão “em-cima-de-morrones”, local de homizio comum, e que tomou o sentido de algo que era doméstico e se tornou selvagem.

Ao longo do tempo estas comunidades continuaram a combater as forças britânicas, que sem poderem contar com valorosos sertanistas Bandeirantes, se viram incapazes de derrotá-las. Criou-se o impasse: nenhum dos lados podia prevalecer, então buscou-se um acordo. Os Maroons, em troca de reconhecimento, autonomia e paz, aceitaram não mais darem abrigo aos escravos fugitivos e, com o tempo, se tornaram os capitães-do-mato, os sertanistas, dos colonizadores ingleses. No fim, um elemento valioso na preservação da ordem escravocrata. Até hoje formam uma comunidade apartada da sociedade jamaicana.

Seria diferente com Palmares?

Nestes tempos de divisionismo Liberal, de agendas particularistas, devemos homenagear e recordar sempre, e a todo tempo, nossa singularidade. Fomos a única sociedade que extinguiu a instituição escravocrata moderna por moto próprio. Não foram determinações políticas exógenas que fizeram a Abolição, mas uma vontade própria.

Desprestigiar Isabel, a Redentora, que pagou com o Trono a ousadia. Esquecer a luta de intelectuais, a pressão popular, as “Camélias do Leblon”, é ceder a discursos debilitantes.

Deixar de entender que as razões econômicas apontavam o tempo todo para a manutenção da ordem e que se conseguiu fazer a passagem com rara habilidade política é desmerecer toda uma luta vitoriosa, travada nos limites do possível; é ceder às fantasias românticas construídas em outras sociedades. É ser cego de si.

Nossa História é essa…e não precisa ser outra.

Deixe uma resposta