O Espelho de Próspero

Por Hugo Maas

Há obras que, de modo simples e direto, nos permitem tomar consciência da realidade. Fazem o papel do choque freudiano. Uma epifania. “O Espelho de Próspero” é uma dessas obras.

Um livro pequeno, de leitura fácil, escrito em 1988, por R. Morse, historiador nascido em New Jersey, EUA, e falecido no Haiti. Segue uma linha, que se fez quase norma ensaística, de estudos comparativos entre a América Latina e a Anglo-saxônica.

Aproveitando a metáfora inaugurada por J. E. Rodó em “Ariel”, retirada da peça shakespeariana “A Tempestade”, convida, como em um espelho, a cultura latino-americana a deixar de se ver como a imagem invertida, como uma civilização que não se realizou, um fracasso, mas como uma alternativa histórica legítima. Sim, diferente; mas jamais inferior.

Em uma passagem elucidativa comenta o fato de que muitos em seu país viam os latino-americanos como detentores do “segredo da vida”. Assim, tenta explicar a misteriosa felicidade deste Continente. Este Ser tão pouco “racional”, tão pouco calculista. Um primado da Vida sobre o “econômico”. Do Homem sobre a Coisa.

Nestes tempos de “liberalismo cultural”, esse travesti político parece ser algo maravilhoso, mas é exatamente seu contrário: um aparato ideológico que se apossou da fraseologia de uma vulgata marxista europeia. Distorção de um pensamento revolucionário já posto em um beco-sem-saída, dividido entre A. Bordiga e A. Gramsci, e relegado às práticas políticas conciliatórias.

São nesses tempos que a obra de Morse segue atual, elucidativa. Aparece como um alento, como um despertador para nos tirar das ilusões, da falsa consciência, do derrotismo, do torpor, do niilismo.

O nosso Ser não está em um futuro que o progresso econômico fará surgir. Nas promessas de um Paraíso Liberal. Mas, ao avesso, em um passado que esse progresso nos permitirá resgatar. É disso que Morse fala.

Se as revoluções anteriores, em suas lutas de libertação do Ser classista, ou nacional e popular, pretendiam, com acerto ou não, fazer tábula rasa do passado o nosso desafio é outro. É resgatar o “segredo da vida” que vive em nós. É fazer politicamente o que Heidegger pretendeu fazer filosoficamente: desconstruir os encrosta mentos provocados pela sedimentação dos conceitos fundamentais. Uma faxina. Debaixo desse entulho Liberal está nosso Ser. Nossa dádiva para a Humanidade.

O desafio é único. Nossa luta é a luta mais difícil travada na História. E isso não deve nos afligir: é um privilégio. E o erro não tem direitos.

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