Se o passado queimar, que futuro teremos?

O incêndio da Catedral de Notre-Dame é um evento simbólico, e não um mero problema material, a ser examinado desde o ponto de vista burocrático-contábil.

Símbolo da Catolicidade Francesa e da própria França, a Catedral é também um dos símbolos maiores da milenar civilização europeia, que é um dos troncos de nossa civilização latino-americana.

Com Napoleão, (auto)coroado nela ao invés de na Catedral de Reims, que havia sido o local de coroação dos reis franceses, Notre Dame se tornou também símbolo do Império, máxima instituição política do mundo tradicional. 

Notre Dame é, ademais, conforme aprendemos com Fulcanelli, a culminação de milênios de desenvolvimento subterrâneo das Ciências da Tradição, repleto de simbolismo alquímico e hermético.

Ela resistiu à Revolução Francesa, quando apesar do anticlericalismo não foi destruída, reconsagrada à “Deusa Razão” pelos jacobinos. Ela resistiu à invasão alemã na Segunda Guerra, quando os alemães tiveram todo o cuidado de retirar, catalogar e guardar os vitrais e outras relíquias da Catedral para evitar danos.

Mas ela não resistiu à modernidade. Não adianta nada, ainda, especularmos sobre causas, até porque em toda tragédia começam a emergir mil especulações conspiratórias.

Mas podemos, por exemplo, recordar que o presidente francês, Emmanuel Macron, disse recentemente que “não existe cultura francesa, apenas cultura na França”, em uma clara demonstração de desprezo pelas raízes e identidade do país que o elegeu e de adesão ao globalismo.

Independentemente das causas imediatas possíveis (pane elétrica, incêndio criminoso, etc) Macron e a elite francesa são responsáveis.

Por que um monumento como este recebe mais de 10 milhões de turistas por ano? O ano de 2019 bateu recorde nos atos de vandalismo e de incêndio criminoso cometidos contra igrejas, o que o governo tem feito para combater isso? Em 2017 a administração da Catedral implorou ao governo francês por maiores verbas, já que ela já começava a mostrar os sinais do tempo, por que o governo desprezou o pedido?

O doentio laicismo francês também deve ser responsabilizado. Para o Estado francês a Catedral de Notre-Dame é apenas “um prédio velho” entre outros. Não existe consideração espiritual, simbólica ou identitária que hierarquize prioridades, já que o Estado francês acha que o “correto” é tratar tudo isso com a típica neutralidade liberal da burguesia.

O que importa é a contagem contabilística de moedas. Catedral é um “gasto estatal” que a França sob a austeridade do neoliberalismo progressista e laicista de Macron simplesmente não pode tolerar. O que vemos na França tem muito de semelhante com o que vimos no Brasil com a destruição de nosso Museu Nacional. É o apagamento da História pelas chamas.

Mas sem História, quem somos?

Nada. Se beneficia quem quer fazer tábula rasa dos povos do mundo para impôr este ou aquele projeto de engenharia social do globalismo.

A destruição da Catedral de Notre-Dame é mais uma vitória do niilismo, da Tirania do Nada.

Contra ela, nós almejamos oferecer o Império do Ser.

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