Jack London – O Homem sob o Capitalismo

Eu havia nascido na classe operária e estava, agora, com meus dezoito anos – e havia regredido em relação ao ponto no qual tinha começado. Estava caído nos porões da sociedade, jogado no profundo subterrâneo da miséria – a respeito da qual não é agradável, nem digno falar: estava no fosso, no abismo, no esgoto humano, no matadouro, na capela mortuária de nossa civilização. Essa é a parte do edifício social que a sociedade prefere esquecer. A falta de espaço me leva, aqui, a ignorá-la, e devo dizer apenas que as coisas que vi lá me revestiram de um medo horrendo.

Eu estava apavorado até a alma.

Enxerguei as nuas simplicidades da complicada civilização na qual vivia. A vida era uma questão de abrigo e comida. Para conseguir abrigo e comida, os homens vendem coisas: o comerciante vende seus sapatos, o político vende seu humanismo e o representante do povo, com exceções, é claro, vende sua credibilidade – enquanto quase todos vendem sua honra. As mulheres idem, nas ruas, ou na sagrada relação do casamento, estão prontas a vender seus corpos. Todas as coisas são mercadorias. Todas as pessoas: compradas e vendidas. E a primeira coisa que o trabalhador tinha para vender era a força física. A honra do operariado não tinha preço no mercado. O operariado tinha músculos e apenas músculos para vender.

Mas havia uma diferença, uma diferença vital. Sapatos, credibilidade e honra têm maneiras de renovar a si mesmos. Eram estoques imperecíveis. Os músculos, por outro lado, não se renovam. Quando um comerciante vende seus sapatos, continuamente repõe seu estoque. Mas não há como repor o estoque de energia do trabalhador. Quanto mais ele vende sua força, menos sobra para ele. A força física é sua única mercadoria, e a cada dia, seu estoque diminui. No fim, se não morrer antes, ele vendeu tudo e fechou as portas. Está arruinado fisicamente e nada lhe restou senão descer aos porões da sociedade e morrer miseravelmente.

Trecho de The Passion of Socialism (1903).
Jack London

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