Mais um ataque químico na Síria: mas por que a mídia está ignorando detalhes cruciais?

Duma, Siria – o último reduto terrorista na cidade de Ghouta Oriental, foi devastado por um ataque quimico causando pelo menos 70 mortes, em sua maioria mulheres e crianças.
No entanto, como de costume, a mídia global rapidamente atribuiu esse terrível ataque ao governo sírio, antes de qualquer investigação.
Suas fontes? Os Capacetes Brancos e o grupo Jaish al Islam.

Primeiramente, um esclarecimento a respeito do Jaish al Islam, o qual a mídia tem usado como fonte de informações sobre ataques.
Como um grupo que, aberta e orgulhosamente publica fotos de mulheres enjauladas para servirem de escudos humanos enquanto lançam foguetes e morteiros contra civis em Damasco, pode ser confiável?
Ou ainda, como a mídia dá crédito a um grupo terrorista no qual o fundador e ex-líder abertamente exalta a figura de Osama Bin Laden, responsável pelo famoso ataque que vitimou aproximadamente 3000 cidadãos norte-americanos (11/09/2001)?

Então, como já sabemos que Jaish al-Islam é um grupo terrorista radical, admiradores de Bin Laden e sem escrúpulos em usar mulheres como escudos humanos, por que a possibilidade de que eles poderiam ter sido responsáveis ​​por este último ataque químico é ignorada?

Relatos da jornalista Sharmine Narwani, que esteve em Ghouta Oriental no mês passado, apontam que o Exército sírio liberou fazendas do leste de Ghouta entre Shifouniyeh e Duma, onde foi descoberto um laboratório químico bem equipado, administrado por terroristas islâmicos apoiados por sauditas. Nenhum repórter ocidental apareceu para investigar a instalação.
Narwani forneceu detalhes profundos, inclusive fotos do laboratório. Ainda assim, para a mídia global parece muito improvável que esses grupos terroristas possam ter conduzido esta mais recente atrocidade contra o povo sírio.

O outro grupo citado são os Capacetes Brancos. Não há necessidade de explicar por quais razões estes não devem ser levados em consideração como fonte de informações, já que isso já foi comprovado com riqueza de detalhes por outros jornalistas, como Vanessa Beeley.
No entanto, deve ser questionado o motivo pelo qual os Capacetes Brancos, que tanto afirmam sua posição neutra, agem apenas em áreas controladas por grupos terroristas como Jaish al Islam ou Al Nusra (filiado à Al Qaeda), ou o porquê dos membros frequentemente alternarem seus uniformes entre Capacetes Brancos e militantes.

Dessa forma chegamos à terrível conclusão de que a mídia confia em duas organizações ideologicamente inspiradas e/ou aliadas à Al Qaeda. Sim, repetimos, as duas maiores fontes de informações da mídia global estão aliadas à Al Qaeda.

Isto prova que os ataques não foram cometidos pelo governo sirio? É claro que não; mas devemos questionar por que o exército sírio recorreria a medidas tão drásticas. Não haveria nenhuma vantagem na estratégia de empregar tais armas químicas.
O exército sírio há pouco mais de um mês liberou mais de 90% do bolsão de Ghouta Oriental com facilidade, então por que no último obstáculo com todas as vantagens a seu favor, eles recorreriam a armas químicas?
A mídia corporativa retrata as autoridades sírias como irracionais, que não pensam nas consequências, mas há muitos exemplos em que a Síria poderia ter usado tais armas para preservar seus próprios soldados, mas optou por não arriscar mais vidas e garantir que os civis enfrentassem o mínimo de danos em qualquer operação.

Também devemos questionar por que a força aérea síria não usaria alerta vermelho se eles tivessem conduzido tal ataque. O presidente dos EUA, Donald Trump, provou que está disposto a utilizar mísseis contra as forças armadas sírias baseado em meras acusações de ataques químicos ocorridos anteriormente, como da Base Aérea Shayrat em 6 de abril de 2017, dias após o incidente com Khan Sheikhoun. Este seria um movimento descuidado do governo sírio, especialmente poucos dias depois de Trump anunciar que ele quer retirar as tropas norte-americanas da Síria.

É óbvio que o Estado Profundo dos EUA não quer a retirada militar da Síria; e o último incidente poderia forçar Trump a ficar na Síria, apesar de o presidente insistir que não quer isso.
Além disso, devemos também questionar por que esses ataques sempre atingem mulheres e crianças e nunca terroristas. Os soldados sírios tomam todas as precauções para que os civis não sejam mortos, tanto que o governo sírio há semanas tem tentado chegar a uma solução pacífica para Duma, permitindo até mesmo que os terroristas se retirem com repercussões zero em seus crimes ou sejam transportados para outra parte da Síria com segurança garantida, assim como seus aliados em Harasta e outras partes de Ghouta Oriental recuperadas.

Estes mesmos grupos terroristas sequestraram civis na cidade vizinha de Adra, enjaulou mulheres para serem usadas como escudos humanos, abertamente aplaudiram Bin Laden, e impediram civis de deixarem Duma; mas de repente, não podemos pensar na possibilidade de eles matarem crianças e mulheres para forçar uma intervenção internacional na Síria, especialmente depois que autoridades norte-americanas declararam abertamente que não toleram tais ataques e estão dispostos a intervir antes mesmo de as investigações terem sido conduzidas, como o ataque contra a base aérea de Shayrat demonstrou.

Também devemos lembrar que os governos russo e sírio recentemente disseram que os terroristas em East Ghouta estavam preparando um ataque químico. Isso, obviamente, foi omitido do relatório da mídia global sobre este último incidente.

Portanto, antes de apontar os culpados, todos nós devemos esperar que as investigações sejam feitas. Isto é, se os investigadores estão dispostos a entrar em Duma sob o controle de Jaish al-Islam para fazer o seu relatório. Sabemos que depois de Khan Sheikhoun, apesar de toda a culpa do governo sírio, os investigadores se recusaram a ir, pois era controlado por terroristas salafistas, assim como Duma.

Tradução do artigo: Another Chemical Attack In Syria: But Why Is The Corporate Media Missing Crucial Points?

Paul Antonopoulos

Ativista político de origem grega, colaborador independente da NR e analista político do jornal Fort Russ e do Center for Syncretic Studies.

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