Nietzsche — Sobre a vulgaridade do burguês

Soldados e comandantes têm uma atitude recíproca bem mais elevada do que trabalhadores e empregadores.

Ao menos por enquanto, toda cultura de fundamento militar se encontra bem acima de toda a chamada cultura industrial: esta, em sua configuração atual, é a mais vulgar forma de existência que jamais houve. Nela vigora simplesmente a lei da necessidade: uma pessoa quer viver e tem de se vender, mas despreza-se aquele que explora essa necessidade, comprando o trabalhador. Estranhamento, a sujeição a pessoas poderosas, que inspiram medo e até terror — a tiranos e comandantes de exércitos — não é vista como tão penosa quanto esta sujeição a pessoas desconhecidas e desinteressantes, como os magnatas da indústria: habitualmente, o trabalhador enxerga no empregador apenas um cão astuto e sanguessuga, um homem que especula com a necessidade alheia, cujo nome, figura, costumes e reputação lhe são totalmente indiferentes. Aos industriais e grandes negociantes faltaram provavelmente, até agora, todas as formas e insígnias da raça mais elevada, que tornam interessantes as pessoas. Tivessem eles, no olhar e nos gestos, a nobreza da aristocracia de berço, talvez não existisse socialismo das massas. Pois estas, no fundo, acham-se prontas para toda espécie de servidão, desde que os mais elevados constantemente se legitimem enquanto tais, enquanto nascidos para mandar — através das maneiras nobres! O homem mais vulgar sente que a nobreza não se improvisa, que nela se reverencia o fruto de longos períodos de tempo: mas a ausência de maneiras elevadas, e a notória vulgaridade dos industriais de mãos vermelhas e gordas, fazem-no pensar que apenas o acaso e a sorte puseram um acima do outro: muito bem — resolve ele consigo — experimentemos nós o acaso e a sorte! Lancemos os dados! — e começa o socialismo.

Friedrich Nietzsche

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