Viva Ahed Tamimi, guerreira palestina!

Em dezembro de 2017, às 3 da manhã, a família Tamimi foi acordada subitamente: era o barulho das forças israelenses, o IDF, batendo em sua porta. O pai de Ahed, Bassem, abriu a porta para os soldados, que o afastaram e invadiram sua casa. Eram pelo menos 30 deles, que adentraram na residência para prender Ahed, uma jovem palestina de então 16 anos, sem dar qualquer explicação: confiscaram os telefones e outros aparelhos eletrônicos da família . Seis soldados agrediram seu irmão, de 14 anos de idade, e apreenderam seu telefone violentamente após ele se recusar a entregá-lo. Eles vasculharam toda a casa, jogando roupas e pertences no chão, deixando tudo completamente revirado.

Por que Ahed foi detida?

Em 15 de dezembro de 2017, Ahed apareceu em uma filmagem feita por sua mãe, Nariman Tamimi. O incidente foi transmitido no Facebook e viralizou. Nas filmagens, Ahed chuta um soldado, golpeando seu rosto em seguida, assim como ameaça outro, depois que eles invadiram sua casa e atiraram em seu primo Mohammed Tamimi, de quinze anos de idade, que foi gravemente ferido por uma bala de borracha que afetou seu cérebro. Mohammed estava em estado crítico de coma medicamente induzido, do qual acordou 72 horas depois, no Hospital Árabe Istishari.

Após o conflito, a aldeia da Cisjordânia se indignou e começou a atirar pedras no exército israelense, que tentou parar o tumulto mantendo-se nos arredores de uma casa onde os manifestantes estavam reunidos. Isso despertou a raiva de Ahed, que correu para fora de sua casa e confrontou dois soldados israelenses, exigindo que eles deixassem a propriedade de sua família. Os oficiais do exército se recusaram. Foi então que Ahed se lançou contra os soldados, tentando golpeá-los e chutá-los. A resignação dos soldados e a recusa em agir despertou raiva entre os israelenses, que viram “seus meninos” sendo estapeados por uma mera menina. Foi humilhante para eles. A coalizão governamental ultra-sionista, então, exigiu uma punição. Como resultado, o exército israelense orquestrou uma invasão à residência de Tamimi, na manhã seguinte. Os soldados tiraram Ahed de sua cama, lhe puseram algemas e a levaram para uma caçamba.

Quem é Ahed Tamimi?

Ahed Tamimi, que completou 17 anos enquanto estava detida, tornou-se um ícone da luta palestina. Os palestinos passaram a saudá-la como uma heroína, por ter desferido um chute em um soldado fortemente armado, que a havia golpeado primeiro, e que estava ilegalmente em sua porta, ocupando seu país ilegalmente. Ela é um emblema da resistência pacífica, uma veterana de muitos protestos contra a ocupação de Israel – ocupação que, gradualmente, foi saqueando as terras e os recursos hídricos de sua região, sitiada próxima ao assentamento judaico de Halamish.

De acordo com o pai de Ahed, na ocasião de sua prisão, sua mãe, Nariman, chorou copiosamente e tentou abraçar sua filha, mas os soldados a jogaram no chão. Ahed foi algemada e levada pelos soldados para um jipe do exército israelense. A família foi impedida de segui-la. Ela foi mantida em uma delegacia perto da aldeia de Jabaa, na Cisjordânia. Naquela manhã, a polícia arrastou Ahed para um tribunal. Seu pai chegou à corte para apoiá-la, mas também foi preso e liberado mais tarde. No período da tarde, Nariman também visitou Ahed, com o objetivo de estar presente quando do interrogatório da filha, que é menor de idade. Foi então que Bassem recebeu um telefonema de seu advogado: Nariman também havia sido presa na chegada à delegacia de polícia, acusada de incitação de tumulto, por ter transmitido o incidente ao vivo no Facebook.

Ahed permanece em uma masmorra. Ela recebeu 12 acusações, incluindo a de atacar as forças de segurança e de incitar à violência, e pode ficar anos na prisão se for condenada.

Em 2012, uma foto amplamente visualizada de Ahed – então com 12 anos – enfrentando um soldado israelense, foi notada até mesmo pelo primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. Outra imagem, de 2015, também se tornou viral, depois que ela foi fotografada chutando e mordendo um soldado israelense que estava sufocando seu irmão Mohammed. Os israelenses, por seu turno, consideraram que ela não passava de uma agitadora violenta em busca de publicidade.

Desde seus primeiros anos, seu rosto aparecia em diversos cartazes internacionais em sua aldeia natal, Nabi Saleh, na Cisjordânia, onde protestos pacíficos palestinos ocorriam contra o colonialismo judaico-sionista na região. Hoje os palestinos celebram Ahed como uma heroína palestina, por meio de cartazes distribuídos massivamente. Em um, ela é aparece levantando uma bandeira palestina, com seu inconfundível cabelo loiro cacheado e com o aspecto de uma Joana d’Arc – a santa camponesa que liderou o exército francês na vitória sobre os ingleses em Orléans. Um outro artista, o irlandês Jim Fitzpatrick, famoso por criar o emblemático cartaz de 1967 de Ernesto Che Guevara, dispôs sua lente sobre Ahed Tamimi, criando uma imagem intitulada A Mulher Maravilha Existe de Verdade.

Ahed Tamimi é um exemplo da construção de uma nova geração dentre as sucessivas gerações da Intifada Palestina. Essa geração declara sua rebelião contra a realidade do apartheid e da intimidação sistemática que sofrem por parte das forças de ocupação da entidade sionista. Milhares de crianças palestinas têm a lembrança vívida de já terem sido acordados por soldados israelenses dentro de suas casas – alguns deles usando máscaras – e Ahed é uma dessas. Já testemunhou a prisão de vários membros de sua família, incluindo seu pai.

A Rebelião de Tamimi:

A luta contra o establishment militar sionista não é estranha à família Tamimi. Eles estão na vanguarda dos protestos regulares em Nabi Saleh, e são presença frequente nas manifestações. Eles dedicaram suas vidas à causa justa e afirmam que uma parte das terras da aldeia foi confiscada e dada a uma colônia israelense nas proximidades. A parte israelense alegou que a família Tamimi deu seu consentimento aos palestinos para lançar pedras sobre os soldados israelenses desde sua casa, e que os soldados na parte de fora apenas para remover os agressores da casa. Os sionistas detiveram a mãe e o pai de Ahed, Bassem e Nariman, por um certo tempo. Seu pai é um proeminente ativista palestino desde 2009, tendo sido bem sucedido em transmitir os protestos pacíficos palestinos nas redes sociais. Ele acredita que a ocupação militar sionista é injusta e desumana: abusa tanto das crianças como a da terra.

“Não podemos viver normalmente sob ocupação. Não temos escolha senão resistir, e porque resistimos, temos de pagar o preço”, afirma Bassem Tamimi. Bassem Tamimi acrescenta que os pais palestinos estão preocupados com seus filhos em meio à violência, à desigualdade e à falta de liberdade oferecida pela ocupação. Ele ilustra sua impotência para fazer qualquer coisa: “[…] isso é uma ocupação […] Eles querem que os palestinos sofram”.

Apesar do silêncio ensurdecedor e dos sofrimentos cruéis, a luta da família Tamimi por justiça está em andamento.

“Juntos, levamos a tocha da liberdade e da igualdade, rumo ao nosso sonho de uma vida melhor para nossos filhos”, diz ele. Ele acredita firmemente que Ahed tem tido seus direitos violados e que seu não deveria ocorrer. “Não temos boas expectativas para com isso, o tribunal é militar porque faz parte da ocupação militar israelense”, afirmou. O pai de Ahed disse que a entidade sionista não tem qualquer respeito pelo direito internacional e age com impunidade porque “pode”. Ele disse: “Não há nada mais aterrador que a ocupação de Israel [da Palestina]… então a reação normal é resistir”.

Referências:

Sondoss, Al Asaad. Save Ahed Tamimi, the Palestinian Veteran. Geopolitica. 23 de fev. 2018.

Hossam, Shaker. Ahed Tamimi: El símbolo de la nueva y desafiante generación palestina. Monitor de Oriente. 26 de dez. 2017.

LIBERDADE PARA AHED TAMIMI!

 

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