Ernst Niekisch – Sobre ‘O Trabalhador’ de Ernst Jünger:

«A ideia do Estado para o trabalhador deve emergir. Isso não significa, é claro, que todos deve, a partir de então, trabalhar em uma fábrica, ou que apenas os trabalhadores fabris devem ser considerados como possuidores de valor. Sua característica essencial seria a seguinte: a lei fundamental deste Estado decidiria que o trabalho, a realização de uma tarefa (Leistung), deve ser sagrada, mas sagrada apenas na medida em que tende a servir ao Estado e lhe confere significado. O trabalho que, de uma maneira ou de outra, seria fundamentalmente realizado desde a perspectiva do Estado, seria a pedra fundamental da sociedade e do Estado operário».

(Ernst Niekisch, Gedanken über deutsche Politik, Widerstand, Dresden 1929).

I

Desde 1918, a Alemanha tem estado amordaçada pelo mundo burguês e imperialista: sua servidão resulta diretamente da lógica deste mesmo mundo burguês e capitalista. E ainda assim, a Alemanha sente que faz parte desse mundo – e pretende continuar a fazer parte dele. Mais do que isso: ela parece responsável pela sobrevivência desse mundo, limitando, deste modo, a possibilidade de escolha dos meios disponíveis para a lutar por sua libertação. Em verdade, ela se furta de lutar por uma ordem na qual a lógica do mundo burguês e imperialista – que forçosamente estrangula a Alemanha – não germine, porque isso significaria a destruição total deste mundo.

Enquanto a Alemanha estiver a serviço do mundo burguês e imperialista, bem como de sua manutenção, ela reforçará sua própria condição de escravidão. Ademais, sua participação na Liga das Nações já é significativa, uma vez que, nesta instância, ela demonstra para si mesma a intangibilidade das relações de força criadas pelo Tratado de Versalhes.

O combate da Alemanha por sua libertação, assim, carece de uma dimensão absoluta. Mas ele não possui essa profundidade, que lhe permitiria perscrutar as grandes profundezas da existência humana. Uma situação sem esperanças, que esquarteja a Alemanha em todos os horizontes: carecendo de oposição ao mundo burguês e imperialista (e a sua lógica), a Alemanha dá razão a este mundo (e sua lógica), equivocadamente se entregando.

II

Em seu mais recente livro, O Trabalhador, Ernst Jünger mostra de maneira magistral como, sob um plano fundamental, podemos eliminar e liquidar o espírito do mundo burguês.

Jünger não teme olhar para as coisas de frente e não cede à tentação de as embelezar: nos conta o que vê, pondo às claras as implicações derivativas dos fatos que afirma, permanecendo firme e exigente em relação a si mesmo: não tenta deformar as imagens que pulam diante de seus olhos, permitindo-se falar a respeito de esperanças que poderia nutrir secretamente em seu coração. 

Aquele que quer interpretar uma época não deve ser um covarde que só é capaz de se colocar ali onde deseja estar! Ele deve, ao contrário, penetrar nos segredos desta época e descrevê-los com objetividade radical – ainda que o que ele descubra seja anormal, horrível, e desafie todo cálculo. Inúmeros são aqueles que descem ao âmago de uma época e só emergem com seus fantasmas. Poucos podem extrair a realidade. Jünger é um desses raros poucos.

III

Jünger sempre se interessou pela tecnologia e pelas leis que a governam. A tecnologia transforma o mundo e lhe confere bases inteiramente novas, cujo resultado é o estabelecimento de um novo de tipo de relação entre o homem e a natureza – que ele submete e domina. A máquina, não obstante, sempre, e tão somente, orientou forças naturais, sendo a forma a condição de possibilidade de seu uso.

O homem se apossou das energias do cosmo e, desde então, seu espaço vital perdeu sua dimensão infinita e se tornou transparente, calculável, limitado. A tecnologia, por outro lado, é a mestra do mundo externo: quanto mais ela concerne a ele, mais a atenção dedicada ao mundo interno parece extemporânea e estéril. Afinal, comparada ao labor da tecnologia, a especulação metafísica se torna uma distração inoportuna.

Um novo tipo de homem aparece, destarte, para o qual o domínio da maquinaria técnica é mais importante que a “flor azul” da introspecção. Um novo tipo de homem que clama por novas formas de vida – elas mesmas marcadas pela atmosfera da tecnologia que impregna todas as coisas. O novo homem, porém, não é um indivíduo inexaurível, nem uma personalidade ricamente plena: ele é um tipo e, enquanto tal, está ligado aos seus semelhantes por uma similaridade, uma conformidade, que é, em substância, a expressão de um certo primitivismo ligeiramente insosso. Tal comunidade de traços, com seus elementos essenciais, produz laços permanentes entre todos os representantes do tipo – laços fundados sobre um “pertencimento existencial”. E são esses laços que demonstram para o mundo exterior que o tipo, situado no centro de uma dada existência, está em perfeita harmonia com seus semelhantes. Não é uma comunidade mecanicamente fundada, do exterior, por pessoas incomensuráveis, mas um coletivo que nasce dos simples fato de que todos os representantes do tipo são talhados segundo uma figura uniforme.

IV

O tipo que atua aqui é o homem da era tecnológica – sua face já esteve perfilada nos traços duros e simples do soldado nos últimos anos da guerra, em meio às máquinas e ao combate “material”. Foi ele quem deixou para trás o que já pertence, hoje, ao “romantismo rural”, juntamente com todas as atitudes burguesas contidas nessas vastidões imaginárias.

Não obstante, “não, o alemão não é um bom burguês, e é onde ele é menos burguês que ele é mais forte”. Era necessário que os alemães desconfiassem da vontade de se tornarem burgueses exatamente agora! A roupagem burguesa começou a “parecer ridícula, como todo o exercício de direitos cívicos, notavelmente o direito ao voto”. A roupagem burguesa, acima de tudo, deu ao alemão uma “sedução infeliz”. Já esquecemos o lado cômico que abarca um brilho tão incomum quanto a apologia sincera que Hans Grimm faz da “honra burguesa”? Podemos rir-nos disso, ainda que tal causa não diga respeito ao homem alemão.

V

Jünger é consciente de todas as consequências de sua posição: a tecnologia implica em um assalto contra todas as afiliações, incluindo aquelas “do burguês, do cristão, do nacionalista”, consideradas as mais naturais. Estas consistem no o fronte da reação, cujos esforços para se restabelecer “estão necessariamente ligados a tudo o que é o mundo poeirento e trivial: romantismo, liberalismo, conservadorismo, a igreja, a burguesia”. E ele acrescenta, também, a ideia do “estado” (Stand). Neste sentido, o advento do homem que corresponde ao tipo é, para ele, cada vez menos compatível com a ordem dos velhos dias. “O besteirol em que se acredita nos domingos e velhos feriados públicos” parece cada vez mais espantoso.

Nisso, ao ouvir esta “onerosa mistura de desprezo e presunção dos discursos oficiais feitos pelo governo, patentemente nacional e cristão, que jamais carece de um apelo à cultura”, nós podemos nos perguntar como “tal verniz de idealismo inconsistente, pintado de romantismo, ainda pode ser possível”. E é aí que, defrontado com a fofoca de ateístas alemães, Jünger, que se declara filho, neto e bisneto de gerações inteiras de ateus, e em cujos olhos a própria dúvida já é suspeita por si mesma, afirma: “O declínio do indivíduo anuncia ao mesmo tempo o último espasmo da alma cristã. E quanto a nós, devemos compreender que, considerando a Figura do Trabalhador e a alma cristã, já não é mais possível manter a relação entre esta alma e as antigas imagens de deus”

Mas onde encontraremos a ponte que reunifica Jünger com a cultura burguesa, a civilização ocidental e a tradição cristã? Até este dia, os pobres nacionalistas e patriotas burgueses ainda não entenderam o quão ridículo eles parecem sempre reivindicam laços amistosos com Jünger!

VI

O tipo corporifica a si mesmo, afirma Jünger, na Figura do Trabalhador. E esta, porém, não corresponde ao “Quarto Estado”. Pensar assim implicaria em “uma visão burguesa, que considera a qualidade do trabalhador um ‘estado’. Além disso, essa interpretação é inconscientemente falaciosa, porque volta a aprisionar as novas aspirações em um velho quadro, levando, assim, ao prolongar de um estado de submissão”.

A Figura do Trabalhador está apta para dominar o mundo: fundada na tecnicalidade do mundo, ela porta em si a semente da totalidade. Além do mais, todos os outros tipos humanos parecem obsoletos, retrógrados, românticos, e devem se dissolver até que não tenham mais terra, raízes ou ar para respirar.

Procurar um significado para o tipo na Figura do Trabalhador, assim, é um caso efetivamente justificado – esta interpretação não é nem arbitrária, nem forçada. Ela trai, ao contrário, uma vontade política guerreira e tem uma essência antiburguesa. O burguês é simplesmente posto de lado enquanto forma de existência. Incapaz de resistir à veemência com a qual negamos seu direito de existir, ele está acabado e declara-se perdido! O advento da Figura do Trabalhador, no nível de um tipo planetário, remove o burguês de seus últimos refúgios na terra. De resto, mesmo sua ideia já está um tanto exterminada – o que pouco importa, já que, na prática, nós esfomeamos seu corpo, seu resíduo lamentável, nós o penduramos na parede: nós o exterminamos, de uma maneira ou de outra!

Encarado pela Figura do Trabalhador, não há mais qualquer lugar para o burguês, pois, na maneira pela qual o tipo descarta o burguês, há algo de implacável. A superioridade da Figura do Trabalhador resulta de suas relações com a tecnologia: “o papel que a tecnologia desempenha nesses processos é comparável com a vantagem que os primeiros missionários cristãos, formados nas escolas do Império Romano, possuíam quando confrontados com os antigos duques germânicos”. E é esta superioridade que constitui a base do nível imperial da Figura do Trabalhador.

“A soberania, isto é, a tomada de espaços anárquicos por uma nova ordem, só é possível, hoje, como representação da Figura do Trabalhador, que professa uma validade planetária”, de modo que “se torna possível novamente levar na terra uma vida em grande estilo, segundo padrões elevados”.  O novo sentimento-do-mundo (Erdgefühl) que anima a Figura do Trabalhador, neste sentido, concebe o globo terrestre como uma unidade – trata-se de “um sentimento do mundo suficientemente audaz para realizar grandes obras, e suficientemente profundo para compreender tensões orgânicas”.

VII

As teses jüngerianas apresentam uma similaridade perturbadora com os fundamentos da doutrina marxista. O advento da Figura do Trabalhador, como Figura dominante, relembra incontestavelmente, profundamente, a Prolekult. As pretensões planetárias dessa Figura constituem uma justificativa filosófica para a ditadura do proletariado, e a intransigência com qual a burguesia se verá privada de seu direito de existir é reminiscente da luta de classes. Finalmente, o sentimento-de-mundo planetário que caracteriza o tipo ecoa de certa forma do espírito do internacionalismo proletário, chamado a liderar a totalidade da humanidade. Porém, a trincheira que separa Jünger das posições fundamentais que o marxismo sustenta é impossível de ser ultrapassada: em Jünger, o que aparece claramente como coragem diante da realidade, e como uma descrição audaciosa do que virá, é em sua contraparte marxista uma imagem inventada, fantasiosa, de sentimentalismo humanitário, embebido de amargura. Para todos os fins, esta vizinhança ideológica da qual falamos não vem de Jünger ter se submetido aos postulados marxista – é suficiente dizer que o marxismo, também, constitui uma cosmovisão específica ligada a uma existência acompanhada pela essência da tecnologia. Mas o marxismo ainda fornece uma resposta sentimental à tecnologização da existência. A resposta de Jünger, por outro lado, está exclusivamente impressa num “realismo heroico”.

VIII

Nós podemos traçar paralelos categoricamente similares entre a perspectiva que Jünger mantém sobre sua época e a realidade russa. Em nenhuma parte a Figura do Trabalhador foi imposta de maneira mais definitiva que na Rússia bolchevique. Em nenhum outro lugar o caráter do trabalho abarca a existência mais sensivelmente, e em nenhuma parte a Figura do Trabalhador é um elemento mais determinado do que a mobilização total.

As teses de Jünger são às vezes percebidas como abstrações conceituais, como transfigurações filosóficas do mundo e da realidade russa, mas, em verdade, elas não são nada disso. Jünger apenas mantém uma relação interior viva com a tendência irresistível do mundo na direção da tecnologia, que já sublevou as estruturas da Rússia e se prepara para transformar igualmente outros povos. Se tentarmos redesenhar as rotas impressas por esta tendência global e fazer uma descrição geral precisa, estaremos sempre surpresos ao constatar que as realizações específicas e concretas do espaço bolchevique provam que Jünger está certo. Ele não é um bolchevique, mas testemunha, apesar de si mesmo, o quanto a Rússia bolchevique está em acordo com a tendência dominante do mundo.

A Figura do Trabalhador evolui num nível totalmente diferente do que o proletário no sentido corrente. O espírito da tecnologia muito simplesmente se tornou sua segunda natureza – ela domina com mão leve, com uma certeza inteiramente natural, sua coleção de ferramentas técnicas. A precisão do técnico, a imaginação realista do engenheiro, a coragem do grande construtor, tais são as virtudes que ela anima. Mas seu mais poderoso motor é uma vontade de dominação que objetiva organizar o mundo em seu alcance global e lhe dar um novo equilíbrio. Para ela, a ideia de planejamento não está ligada a qualquer aspiração nostálgica por uma felicidade radiante, mas deriva do espírito construtivo da tecnologia, graças ao qual o universo será remodelado.

IX

A obra de Jünger é um boletim, um relatório preliminar sobre um mundo que ainda está em processo de devir. Na medida em que compreendemos seu dialeto,  já partilhamos desse mundo. Além de tudo, este é certamente um livro no qual o espírito das grandes cidades respira. E é, ao mesmo tempo, em suas ramificações mas estringentes, um livro protestante. A mais moderna racionalidade, secularização e tecnicalidade da vida são consequências do protestantismo, e ninguém pode contestar sua paternidade – ainda que o protestantismo bem quisesse deserdar sua prole, virando-lhe hipocritamente suas costas. Roma sempre soube disso e Roma sempre afirmou isso. No final das contas, o bolchevismo é Lutero na Rússia.

X

Nessa altura, não há outra escolha: na linha traçada por Jünger, a Alemanha deve trabalhar contra o Ocidente, contra Versalhes. Mesmo que isso nos cause repulsa, mesmo que isso atinja nossa “substância”. Contra Versalhes, todos os meios são válidos – se um deles se provar eficaz, então deve ser usado, ainda que isso nos faça adoecer. Porque há uma “coragem diante do abismo” que nos permite saber com certeza que não cairemos ao chão, e que apenas o salto no abismo permite a conquista de um espaço no qual possamos operar historicamente. Se o reino da Figura do Trabalhador alcançar o espaço alemão, então ele abrirá para nós um terreno que se estende de Vlissingen a Vladivostok – e essa não deveria ser, para nós, a garantia do ponto em que o alemão poderá abrir sua porta para o ar livre?

Existe uma preguiça e uma suavidade alemães que sempre tendem a aparece antes da derradeira data da decisão. Com sua precisão metálica, suas visões afiadas, o livro de Jünger demanda a decisão mais uma vez. É necessário não dar à lassidão e ao torpor alemães uma última trégua.

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