Dugin – Os Cavaleiros Templários do Proletariado

Todos tem vez na política russa: engenheiros, intelectuais, burocratas, sem-teto, esquizofrênicos, mulheres, espiões, e muitos outros tipos. Mas posso dizer com segurança que não existe representantes para apenas uma classe: os trabalhadores.

Levando a demagogia marxista ao pé da letra, os defensores fanáticos da Perestroika  incutiram um dogma na consciência das massas: se os trabalhadores foram a classe hegemônica durante todo o período soviético, então agora eles devem ser esquecidos, marginalizados e arrancados da política. E a sociedade ocidental, que muitos políticos russos tentam dolorosamente copiar, foi bem sucedida ao operar deste modo: a classe trabalhadora foi removida da arena política e, quando a dominação do Capital se tornou total, isto é, quando o capitalismo passou de sua fase industrial para uma sociedade informacional (pós-industrial), a coletividade fundamental do Trabalha, o Produtor, o criador de toda a realidade objetiva da existência humana, foi completamente apagado diante de telas brilhantes de computadores e da luz enganosa da propaganda.

Os trabalhadores desapareceram da nossa vida. Desapareceram do nosso campo de visão. Se transformaram em algo diferente. O trabalho do Trabalhador, na época do gerenciamento e do know-how, perdeu seu valor. Aquela classe de homens brutos, sujos de óleo, ásperos, vestidos em uniformes, com ferramentas feitas de ferro, foi dissolvida na inexistência social. No entanto, essa dissolução  não passa de uma ilusão ótica; uma miragem social habilmente fabricada.

Nos fizeram acreditar que o mundo a nossa volta veio diretamente do Dinheiro e de seu poder ilimitado; que foi manufaturado por máquinas “que pensam”, controladas por tecnocratas onipotentes de colarinho branco.

Não é bem assim.

Como sempre, nas profundezas das fábricas, centenas de milhares de organismos vivos se ocupam de transfigurar matéria bruta em formas sensíveis. Como antes, nas profundezas da terra, idealistas empunhando picaretas lutam com a casca dura da substância inercial, violando o conforto passivo e mórbido das rochas pedregosas: sangue negro das veias subterrâneas jorra nas faces desses verdadeiro cirurgiões dos poços de petróleo — gigantes de ombros quadrados, com faces de pedra, que manejam o aço fervente.

Na realidade, o Trabalhador não foi a lugar algum: ele simplesmente retornou ao subterrâneo. Traído pelo socialismo soviético degenerado e esmagado pelo laço estrangulador do Capital (cuja dominação, hoje, não é formal e externa, mas absoluta e interna), ele olha taciturnamente para essa realidade odiosa, sendo avidamente importunado por charlatães de todos os tipos, raças e classes. Transformado de escravo a funcionário de um partido e, em seguida, em escravo de uma “nova” Rússia, o Trabalhador é humilhado e sobrepujado como antes (mais do que antes!).

Conduzido ao subsolo obscuro da vida social, envenenado por simulacros eletrônicos de emoções e pseudo-erotismos onipresentes, ele luta em uma jaula estreita, manejando, com a energia de sua agonia, uma Grande-Máquina (com um verniz computadorizado) que, na ausência dele, desmontaria como uma pirâmide de areia.

O mundo purificado dos “novos” gerentes empurra o Titã a um estado sub-humano, jogando migalhas para ele (“Aqui está seu meio litro de vodka Kremlyovskaya!”, dizem).

Mas vejamos: é de fato possível que todas as expectativas místicas conectadas à emancipação do Trabalho tenham sido desgraçadamente atropeladas, devoradas pelo verme gordo do experimento soviético? Pode realmente ser verdade que os ideais da coincidência de sujeito e objeto plasmados no Trabalhador (que abalam as teses a respeito dos fundamentos do ser) se mostrem meramente metáforas moralizantes sem importância, que ocultam em si uma Vontade de Poder prosaica guardada para a próxima gangue de funcionários gananciosos por poder?

Não pode ser assim.

A lamentável queda do Soviete Supremo (e de seus líderes profanos) é apenas uma pausa, uma síncope no terrível despertar do Titã. Porque o proletariado ainda não cumpriu sua missão histórica: ainda não deu seu ultimato. Ainda não fez a Revolução.

Hoje é a época dos parasitas – velhos e novos; nossos e estrangeiros. Gente usando e se apropriando daquilo que não criou. Centristas se vendendo como radicais. Chefes de empresas e seus subordinados: os governantes. As riquezas de um grande país. A mídia de massa. A consciência. Todos na disputa: guinchos e explosões, tiros vindos pelas costas e mentiras sutis.

Das profundezas do Ser, o Trabalhador russo contemporâneo soturnamente observa essa insanidade. Desajustado, mas vivo, tenaz como uma máquina e lento como um pensador, ele não crê e jamais crerá na demagogia social dos “vermelhos”. “Eles de novo? Não, chega”. E para os capitalistas, o ajuste de contas também será brusco. Somente a potência densa e apaixonadamente melancólica do nacionalismo em ascensão pode tocar reviver essa coletividade pulsante. No entanto, quando até esses se ocupam em falar sobre “dinastia reinante”, “restauração dos privilégios da nobreza”, bandeiristas, cossacos, ou o “empresariado nacional”, os patriotas olham com desprezo e indiferença: “Máscaras!”.

Cada manhã, com o nascer do sol (ninguém, a não ser eles, tem pensado no sol por tanto tempo), eles saem de suas jaulas-apartamento, deixam suas esposas gordas e estúpidas e seus bebês ranhosos, e se movem em passo ritmado para dentro do útero de concreto da Produção, de modo que, labutando sem inspiração, persistentemente, ritmicamente, travam de modo ininterrupto uma batalha cósmica com a Matéria — sempre tão inflexível, crua, dura e venenosa.

Os trabalhadores sorumbáticos sabem: o demônio maligno da substância fez da frágil e delicada vida sua Donzela do Sol, sua refém. É a forma roubada por uma bruta usurpação da matéria – e ela só pode ser salva pelo ato heroico, uma guerra obstinada, horripilante, impiedosa contra o gelo basilar da realidade.

Por muitos séculos e eras, os Titãs tem travado uma luta contra a entropia do Universo. O proletariado. A Fraternidade Proletária. A Ordem Proletária.

Após engolir Dionísio, depois de longas eras, eles ficaram saturados com sua carne. É por isso que têm tanto estima e reverência pela santa-intoxicação do Baco ressuscitado.

Mas em algum lugar acima deles, inconscientes do drama subterrâneo, ingênuos ou desonestos, “aristocratas”, intelectuais, comerciantes, cinicamente, usufruem dos frutos dessa sangrenta batalha. Eles não confrontam a Matéria; deste fardo foram livres pelo sacrifício voluntário dos Cavaleiros Templários do Proletariado. Eles engolem e profanam os troféus conquistados pelos vikings subterrâneos em um poço pavoroso, envolto na escuridão das maiores profundezas.

Mas a letargia não durará muito.

Os trabalhadores estão reunindo determinação intelectual e de espírito. Ninguém pode garantir que a escória delirante da política russa contemporânea irá durar. Sim, os olhos do proletariado estão fixos na Terra (sua eterna rival, eterna inimiga). Mas cedo ou tarde, ele olhará para cima e… dará o golpe de misericórdia.

Com um pé de cabra contra a torpe órbita mortal do computador; contra a janela brilhante de um banco; contra a face distorcida de um supervisor.

O proletário despertará. Se rebelará. Matará. Nem a polícia, nem os falsos partidos socialistas serão capazes de detê-lo.

Sua missão histórica ainda não se esgotou, pois o Demiurgo ainda respira. A Alma do Mundo ainda geme. Suas lágrimas erguem um uivo sombrio à consciência escura do criador. Eles têm um chamado. É o apito de uma fábrica. É o soar das Trombetas Angélicas.

Eles – artífices do Tártaro – novamente anseiam por sua Revolução Proletária.

Revolução Real.

Revolução Final.

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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