Não é possível ser “liberal” e “conservador” ao mesmo tempo:

Uma das grandes modas políticas brasileiras da nossa época é o “conservadorismo liberal”, uma espécie de categoria que associa um “posicionamento liberal” na economia, e um “posicionamento conservador” na cultura e nos costumes. Este conservadorismo liberal prepondera entre os olavetes, os bolsonaretes e nos projetos aos quais estes estão associados, como a farsa do “Brasil Paralelo” e outras semelhantes.

Estamos lidando com um caso claro e massificado de dissonância cognitiva, aquela condição problemática tipicamente pós-moderna na qual as pessoas sustentam atitudes, crenças e pensamentos fundamentalmente contraditórios.

A base dessa dissonância cognitiva é a ignorância típica de suas vítimas, que acreditam que o liberalismo não passa de uma teoria econômica, completamente desvinculada de crenças, ideias e posicionamentos específicos de cunho filosófico, político, social, cultural, etc.

A realidade é o oposto disso. O liberalismo é, em primeiro lugar, uma cosmovisão, um edifício teórico e filosófico, e as suas ramificações econômicas, apesar de essenciais para essa cosmovisão e de servirem como motores para a concretização dessa cosmovisão, não é o elemento mais importante.

Sob a hegemonia liberal no mundo pós-soviético, todo esse conjunto político-filosófico do liberalismo recuou para as sombras, tornou-se “dado”, “ponto pacífico”, algo que é simplesmente aceito e não é discutido, tornando-se o eixo do debate político mesmo entre os adeptos da Segunda Teoria Política (comunismo) e da Terceira Teoria Política (fascismo). A isso damos o nome de pós-liberalismo.

Apenas o aspecto econômico do liberalismo permaneceu sob a luz, pela necessidade de ainda confrontar os resquícios social-democratas e socialistas das alternativas econômicas ao capitalismo liberal, uma contradição que ainda não foi definitivamente solucionada. Nesse sentido, o liberalismo pós-moderno é como um iceberg. Vemos com facilidade apenas a sua ponta, o seu aspecto econômico, mas este é sustentado por tudo aquilo que se afastou de nossos olhos: filosofia, política, cultura, ética, estética, metafísica, etc.

Por isso é impossível desvincular o liberalismo econômico de toda a cosmovisão liberal, do liberalismo enquanto filosofia e teoria política. E quando acessamos esta verdade tudo fica bastante claro.

O liberalismo possui um direcionamento específico em todas essas áreas, uma teleologia que aponta para um “Fim da História” que, de forma clara e evidente, está em contradição com tudo aquilo que os supostos “conservadores” dizem defender. Isso não fica muito claro nos panfleteiros e propagandistas do liberalismo, mas é tranquilamente evidente nos seus principais filósofos, de Kant a Rawls.

O liberalismo é fundamentalmente globalista. A sua teleologia aponta para a construção de um mundo absolutamente integrado e globalizado, formando um Mercado Global, ausentes quaisquer barreiras para a livre circulação de pessoas, capitais e produtos. Se ainda sobrarem nações neste contexto do capitalismo plenamente globalizado, elas terão uma soberania meramente formal.

O liberalismo é fundamentalmente ateu e antirreligioso. Na mesma medida em que no mundo pré-liberal havia uma associação teológica e filosófica entre a figura do Estado e do governante com a figura de Deus, os liberais compram essa associação com todas as suas consequências. A religião no mundo liberal, SE tiver que existir, será uma atividade meramente privada. A sua presença no espaço público será tão somente tolerada, a não ser que estejamos falando de um “sentimento religioso difuso”, desvinculado de qualquer tradição, como o que encontramos ligado ao movimento New Age.

O liberalismo é fundamentalmente destrutivo para a família tradicional. O surgimento da “família nuclear” burguesa vem no esteio do desaparecimento da família tradicional pré-moderna. Essa “família nuclear”, individualista, pautada na propriedade privada, nas relações do mercado de trabalho e nos padrões de consumo surgiu primeiro na Inglaterra, junto do capitalismo, e se difunde no esteio do avanço do capitalismo. O liberalismo solapa a “família tradicional” aos poucos, na medida em que favorece níveis cada vez mais radicais de individualismo, começando pela escravização da mulher no mercado de trabalho capitalista e culminando na total dissolução da família, propagada pela mídia de massa através de modelos familiares baseados exclusivamente no “afeto” e no “desejo individual”.

Também em todos os outros âmbitos culturais o liberalismo tem apontando exatamente na direção contrária do que os “conservadores” dizem defender, em relação à questão LGBT, à ideologia de gênero, e vários outros temas. Essa não é uma movimentação “oportunista” moderna, como defende a esquerda, mas segue a lógica fundamental do individualismo e do pós-individualismo que jazem na essência do liberalismo.

A consequência desse “conservadorismo liberal” tem sido que o liberalismo tem conseguido aproximar o mundo cada vez mais do seu ideal de “Fim da História”, com todas as suas consequências nefastas, ao mesmo tempo que coloca essas consequências na conta do comunismo. E os “conservadores” (que, na prática, acabam não passando de liberais “light”), idiotas úteis que são, nem percebem o que está acontecendo.

Nesse sentido, tudo que os “liberal-conservadores” defendem é uma farsa. As suas noções axiológicas são construções liberais e modernas. Defendendo o imperialismo eles encaminham o mundo rumo ao globalismo. Defendendo a família burguesa eles sepultam a família tradicional. Defendendo o enfraquecimento do Estado eles enfraquecem toda autoridade tradicional.

É assim que o pós-liberalismo pretende cristalizar sua hegemonia., até que esses liberal-conservadores não sejam mais necessários e possam ser descartados.

Se você conhece alguém vitimizado por essa triste condição patológica do “liberal-conservadorismo”,encaminhe este texto a ele. Talvez você consiga curá-lo.

Só é possível conservar algo, especialmente o que há de valor e de positivo no passado e em nossas raízes, a partir de uma visão comunitarista revolucionária, socialista patriótica, distante de todo liberalismo, que é o que defendemos na Nova Resistência.

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