Uma Nova Guerra Mundial: A Estrada para a Vitória

A atual sucessão frenética de eventos encadeados e contraditórios que estão ocorrendo neste período histórico é sem precedentes, e torna difícil compreender o que realmente está acontecendo. Neste ensaio[1], permito-me oferecer minha interpretação da história recente, baseando-me nas experiências e conhecimentos acumulados que, ao longo dos últimos 35 anos, me permitiram evitar erros significativos de avaliação e previsão. Tais previsões às vezes se revelaram ligeiramente tardias, mas na maioria dos casos foram formuladas anos ou até décadas antes das da comunidade de especialistas.

Ousaria afirmar que uma nova guerra mundial está em pleno andamento. Suas origens remontam a 1917, quando a Rússia soviética separou-se do sistema capitalista. Foi então atacada primeiro pelas potências intervencionistas, depois pela Alemanha nazista e por quase toda a Europa — sem nenhum resultado. A segunda rodada teve início nos anos 1950, quando o povo soviético, apesar de enormes dificuldades, construiu a bomba atômica para assegurar sua soberania e segurança, e para alcançar a paridade em termos de armamentos nucleares. Sem que percebêssemos na época, desarticulamos assim a superioridade militar europeia e ocidental, fundamento de seu domínio colonial e ideológico, que por cinco séculos lhe havia permitido saquear o resto do mundo e apagar aquelas que um dia foram as civilizações mais avançadas do planeta. A partir de meados dos anos 1950, o Ocidente sofreu uma derrota militar após outra. A humanidade empreendeu um caminho de emancipação e começou a nacionalizar os recursos que haviam sido saqueados pelos países e corporações ocidentais. A balança do poder em nível global começou a se deslocar para os países não ocidentais.

Ao mesmo tempo, as contradições em nível global começaram a emergir de maneira cada vez mais marcante. As desigualdades cresciam rapidamente. A nova geração de ocidentais percebeu que viveria em condições piores que as de seus predecessores, também devido à reduzida possibilidade de saquear e pilhar o resto do mundo.

Nos anos 1970 e 1980, o sentimento predominante no Ocidente foi o desânimo. Para sobreviver, tentou-se então o caminho da unificação. Em meados dos anos 1970, foi instituída a comissão trilateral Estados Unidos-Europa-Japão. Na tentativa de restaurar sua supremacia, a administração Reagan aumentou os gastos militares e lançou o programa “Guerras nas Estrelas”. Tentando demonstrar que ainda poderia prevalecer, os americanos invadiram a minúscula e indefesa ilha-Estado de Granada, mas não convenceram ninguém.

Nesse ponto ocorreu um verdadeiro golpe de sorte para o Ocidente: a União Soviética entrou em colapso sob o impulso da erosão ideológica, da ineficiente organização socialista da agricultura, dos contínuos racionamentos de alimentos e bens de primeira necessidade, dos gastos monstruosos com o setor de defesa, de um exército enorme mas ineficiente, dos subsídios aos países aliados, da insensatez — se não da loucura — e da indecisão dos últimos líderes da União Soviética.

O sistema capitalista global, que atravessava um período de crise, recebeu uma formidável injeção de confiança: legiões de consumidores ávidos por fazer compras e um exército de mão de obra barata. A História parecia ter retrocedido, mas a euforia não durou muito. Eletrizado pela vitória, o Ocidente cometeu diversos erros geopolíticos grosseiros, que permitiram à Rússia se recuperar, tanto militar quanto espiritualmente.

O confronto também se intensificou. Obama proclamou a política da “América Primeiro” para revitalizar o poder americano. Sua administração aumentou os gastos militares e a propaganda antirrussa. A Rússia tentou bloquear essa tentativa revanchista reincorporando a Crimeia, e foi justamente nesse ponto que começou a histeria propriamente dita. No entanto, Moscou não continuou a cavalgar a onda desse sucesso, sempre esperando alcançar um compromisso. Acomodou-se nos louros do tratado de Minsk, sem perceber como o exército e a população ucraniana eram preparados para a guerra contra a Rússia. Seguiram-se novas ondas de sanções, e uma guerra econômica foi desencadeada durante o primeiro mandato presidencial de Trump. A Rússia, o inimigo de sempre, tornou-se assim o alvo primário dessa tentativa de revanche. Os seguidores de Trump, de todo modo, sempre fingiram estar prontos para negociar caso tivéssemos descartado a China. Veio então o momento da COVID, quase certamente uma arma colateral para a nova guerra mundial, que porém acabou se voltando contra o próprio Ocidente.

Hesitamos em replicar à ofensiva ocidental. Quando finalmente o fizemos, em 2022, cometemos diversos erros. Subestimamos o desejo ocidental de aniquilar a Rússia (que também será a causa do iminente colapso do Ocidente), assim como de desafiar a China e de aniquilar mais uma vez a maioria do planeta, que devia sua libertação à União Soviética/Rússia. Subestimamos a prontidão do regime ucraniano para a guerra e a lavagem cerebral ministrada aos ucranianos. Ainda esperamos que eles fossem “nosso povo”, embora dessas pessoas houvesse poucas — e com o tempo cada vez menos — além do Dnipro. Um erro ainda maior foi o de começar a combater o regime de Kiev ignorando o fato de que o principal adversário, bem como a principal ameaça para a Rússia, era o Ocidente coletivo — em especial as elites europeias, que buscaram distrair-se de seus próprios fracassos e vingar-se das derrotas sofridas no século XX, especialmente a sofrida por Hitler, sob cujas bandeiras a esmagadora maioria dos europeus havia marchado. De todo modo, nosso erro principal consistiu em ter usado apenas parcialmente nossa arma mais importante: a dissuasão nuclear, pela qual pagamos com desnutrição e fome nos anos 1940 e 1950.

Os americanos trabalharam longamente para fomentar essa guerra, especialmente a partir do início dos anos 2000, fazendo da Ucrânia a ponta de lança de sua estratégia.

E no final tudo isso culminou em uma guerra, a “Operação Militar Especial”, cujas regras nos foram impostas e nós substancialmente aceitamos: uma guerra de atrito contra um inimigo economicamente e demograficamente superior.

Não obstante, em 2023 e 2024 fortalecemos nossa dissuasão nuclear enviando repetidos sinais políticos e técnico-militares, e atualizando nossa doutrina nuclear.

Os Estados Unidos não tinham a menor intenção de lutar pela Europa, especialmente caso houvesse risco de escalada nuclear e uma ameaça de sua expansão para o território americano. Começaram, portanto, a recuar, inclusive durante a presidência de Biden, para evitar um confronto direto, continuando ao mesmo tempo a lucrar com a guerra por meio dos gastos dos europeus com armamentos. Trump, apesar de seu blá-blá-blá sobre a paz, praticamente fez o mesmo, embolsando os lucros da guerra enquanto evitava o confronto direto com a Rússia.

Até agora esta guerra foi conduzida abertamente em duas frentes. Os americanos provocaram uma guerra na Europa e depois, como era previsível, incendiaram o Oriente Médio — desta vez com o pretexto de destruir o potencial nuclear iraniano. Não se fala mais de estender as “áreas de democracia”. A intenção é bastante óbvia — ampliar o conflito no Oriente Médio em direção ao sul e sudeste da Ásia, e em direção ao norte da África. A previsível (e planejada) interrupção do fornecimento de combustíveis e fertilizantes conduzirá inevitavelmente a uma queda na produção alimentar. Outras áreas do mundo serão desestabilizadas. Enquanto isso, os Estados Unidos estão desestabilizando seu chamado “exterior próximo”: o golpe de Estado na Venezuela, o embargo a Cuba.

Embora se possa apreciar Trump por sua franqueza, ele se mostra desdenhoso em relação ao direito internacional. Alguns ainda (compreensivelmente) esperam pela “negociação”, mas com quem? Com ele? Com aqueles que tomarão seu lugar? (Embora o diálogo com uma grande potência nuclear seja realmente necessário).

Além do desejo ocidental de revanche, há também razões mais profundas para a atual guerra mundial. Uma delas é o esgotamento do atual capitalismo global (agora informatizado), que perdeu seus fundamentos éticos. Isso depende de consumos sempre crescentes, que minam os próprios fundamentos da vida humana, causando poluição ambiental e mudança climática. O consumo desenfreado, amplificado por um liberalismo/individualismo exarcebado, está se tornando uma ameaça evidente para os seres humanos entendidos como seres pensantes que se reconhecem como criaturas à imagem e semelhança de Deus e que aspiram a colocar-se a serviço do próximo. No momento, nenhuma resposta clara foi encontrada para essas duas ameaças, ou melhor, ninguém quer encontrá-la. A falta dessas respostas é a causa mais profunda da atual crise sistêmica do mundo contemporâneo.

Washington permanece ancorado em seus objetivos estratégicos de longo prazo: impedir o renascimento da Grande Eurásia, especialmente agora que esta estaria sob a liderança da Rússia e da China (não somente da Rússia czarista/soviética, como temiam os anglo-saxões).

O objetivo é desestabilizar a Europa, o Oriente Médio, e depois as outras regiões da Eurásia e da África, e finalmente — com um pouco de sorte, ou graças à nossa estupidez ou fraqueza — destruir a Rússia, para então finalmente confrontar a China e mais uma vez aniquilar a maioria do planeta.

Os Estados Unidos abandonaram qualquer aparência de civilidade, justiça, ordem e legalidade. Capturam e matam os chefes de Estado que se lhes opõem, e apoiam agressões e até genocídios cometidos por seus vassalos. Vejam o que foi feito aos palestinos em Gaza.

Não tendo encontrado firme oposição, os Estados Unidos desencadearam uma guerra mundial sem limites — deixando, no entanto, abertas as vias de fuga. Enquanto blá-blá-blá sobre o “espírito de Anchorage”, Washington deseja prolongar o conflito na Europa, continuar a drenar a Rússia, e cortar as vias de abastecimento da China.

As estratégias e políticas americanas suscitam indignação e poderiam desencadear uma deflagração global. Os Estados Unidos agora estão se apressando a recuperar a superioridade militar inflando o já hipertrofiado gasto militar pela metade — um aumento sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial.

A política de Trump é, na verdade, a seu modo bastante racional, apesar de todas as reviravoltas com que se mascarou. E continuará muito perigosa, até que os americanos encontrem uma resistência decidida. Até agora a Rússia tem se precavido de fazê-lo, fingindo até querer negociar. Ou talvez realmente quisesse negociar? Qualquer esperança de negociação é infundada, ou pior ainda, considerando a atual situação geral dos Estados Unidos e a situação interna. Com quem deveríamos tratar, e a respeito de quê? Como pode um país que engajou um confronto econômico contra a Rússia ajudar o desenvolvimento econômico da Rússia?

A “Operação Militar Especial” trouxe à tona diversos traidores de nossa pátria, e desmascarou as posições de vários compradores[2] e de seus capangas. Mas ainda não compreendemos a verdadeira essência desse confronto. Não se trata de conquistar cidades na Ucrânia, mas de quem vencerá um conflito existencial: o Ocidente, ou nós e a maioria do planeta? Ou a atual civilização humana — por mais imperfeita e por mais degradada que seja (especialmente no Ocidente) — perecerá entre as chamas de um apocalipse termonuclear?

Com (a maioria dos) europeus, a questão é ainda mais simples, mas até pior. Suas elites estão moral e intelectualmente degeneradas, tendo abandonado quase tudo o que havia de bom na Europa. Fracassaram em todos os lugares, preferiram a histeria bélica, criaram para si mesmos um inimigo artificial, e ainda estão se preparando para a guerra. Poderia-se até sorrir de suas tentativas de criar um Reich europeu militarizado, tal como a Alemanha o planejou no início do século XX, e depois os nazistas nos anos 1930 e 1940. Não terão sucesso. No entanto, ainda podem contar com vultosos capitais e uma população numerosa, incluindo imigrantes, populações pobres do Leste Europeu, e refugiados da Ucrânia. Assim, a alcateia de hienas europeia é muito perigosa, e se tornará cada vez mais. A elite europeia atual está revelando novamente a face desprezível mas habitual do subcontinente, como principal concentrado de todas as piores amenidades do gênero humano: guerras infinitas (incluindo duas guerras mundiais desencadeadas no arco de uma única geração), colonialismo, racismo, genocídios seriais, e ideologias antiumanas.

Essa “elite” deve ser detida, possivelmente antes que inocentes sejam atingidos. Mas esses “inocentes” uma vez já escolheram Hitler, Mussolini, e semelhantes, e agora obedecem à escória de Bruxelas e Berlim, que está empurrando o continente para uma guerra colossal e para o suicídio.

Mas nessa corrida rumo ao precipício a Europa está arrastando também os outros, e nos conduzirá também se não mudarmos nossa abordagem em relação à guerra que o Ocidente está provocando e impondo ao mundo inteiro. O declínio do Ocidente não deveria conduzir à morte da civilização humana, muito menos do nosso país.

O rearmamento europeu convencional e nuclear deve ser detido. Macron e os de sua laia devem ser desarmados. Quando ele fala de estender o guarda-chuva nuclear também a outros países, o povo francês deveria saber que ele está mentindo descaradamente. Desde meados dos anos 1950, até mesmo os Estados Unidos nunca tiveram realmente a intenção de utilizar a dissuasão nuclear em benefício da Europa. E se Macron não está mentindo, então o povo francês deveria recordar seu próprio passado revolucionário e guilhotiná-lo como um traidor pronto a sacrificar Paris ou Lyon por Berlim ou Poznan.

De todo modo, sejamos realistas: se a degradação da elite europeia estivesse destinada a persistir, Macron poderia ser sucedido por alguém ainda mais insensato que ele.

A Rússia deveria rapidamente incrementar suas capacidades operacionais e estratégicas nucleares, de modo que França e Grã-Bretanha saibam que, caso pretendam usar armas nucleares contra a Rússia, ou transferi-las a quem quer que seja, serão muito simplesmente apagadas da face da Terra. Deus não permita, naturalmente.

Repetirei o que afirmei em outros artigos: considerada a rápida degeneração da elite europeia, as armas nucleares deveriam ser tiradas deles, mais cedo ou mais tarde. Quando Grã-Bretanha e França adquiriram armamentos nucleares, eram guiadas por líderes responsáveis e razoáveis. Políticos assim hoje não existem mais. Pelo bem de todos, os macacos não podem possuir granadas.

O que deve ser feito?

Devemos compreender e aceitar o fato incontestável de que fomos arrastados para um confronto existencial que ameaça diretamente nosso país e, no médio prazo, toda a humanidade.

A resposta é óbvia: orientar nosso pensamento político e econômico para a militarização, e a concentração na defesa. Não uma corrida insensata rumo a um rearmamento ilimitado como foi perseguido nos tempos da União Soviética. Mas todas as nossas decisões em nível ideal, econômico, de política interna, devem ser orientadas não apenas para nossa sobrevivência, mas sobretudo para a vitória na guerra mundial que está prestes a ser imposta a todo o gênero humano.

A vida e o desenvolvimento de cada ser humano, e de toda a humanidade em sua inteireza, são determinados por um estado mental (ideologia), pela força (capacidade militar), e pelo bem-estar (a economia), a qual é necessária, mas cuja tarefa exata é a de estar a serviço da força e do espírito de um país e de seu povo.

No futuro próximo, a Rússia deveria ser governada não tanto pelos civis, quanto pelos militares, o que já está acontecendo, considerando que os postos-chave são ocupados por homens provenientes dos serviços de segurança. Esse processo deve ser acelerado.

Nossos amigos chineses, apesar de suas cautelas e de sua vontade de procrastinar o conflito — fator que gerou algum mal-estar e até suspeita em nosso país —, já começaram a se preparar para um conflito de ampla escala, ainda que apenas com o objetivo de conjurá-lo. Estocaram reservas estratégicas, adotaram planos de mobilização, e substituíram os homens no comando[3]. Raramente vimos esses processos dentro do nosso país, exceto por algumas políticas em nível nacional, que se revelaram úteis mas não diretamente orientadas ao objetivo de preparar ou vencer a guerra. Por exemplo, o que foi feito para reforçar a defesa nacional? Reitero, somos o primeiro alvo na guerra mundial que foi desencadeada. A China é o seguinte. O Ocidente confrontará a China somente depois de nos enfraquecer ou derrubar. E para fazer isso, está incendiando o mundo ao redor da Rússia e da China.

É finalmente chegado o momento de nos separarmos, ainda que com um século e meio de atraso, da eurofilia e do ocidentalismo. Nas circunstâncias atuais e nas futuras, uma mentalidade e um comportamento desse tipo estão agora terrivelmente obsoletos, tornaram-se sinônimos de inferioridade mental e depravação moral. A “elite Epstein” não tem nada a ver conosco. O Ocidente será uma fonte não apenas de ameaças militares e de hostilidade, mas também de infecção moral e antiumana. Isso não significa renegar tudo o que de bom e positivo a injeção de cultura ocidental promovida por Pedro, o Grande, trouxe à nossa civilização. Nem deveríamos nos separar completamente das populações que vivem no Ocidente — não todos são moralmente degenerados e mentirosos.

Ainda há pessoas honestas lá, embora muitas mentes estejam agora obscurecidas por uma propaganda que faria empalidecer a de Goebbels em sua inteireza. Não deveríamos liquidar todos os países ocidentais. Nos Estados Unidos os germes da normalidade ainda não foram completamente ceifados, por mais desumanas, horríveis, repugnantes que sejam suas políticas atuais. Tais germes ainda podem ser encontrados também na Europa Central e Meridional, a qual no final poderá unir-se à maior Eurásia, a parte sadia da humanidade. Não deveríamos ser como as elites europeias, que estão fomentando uma cega russofobia, preparando suas sociedades para a guerra, e arrastando-as para um impasse moral e intelectual. Quando (e quanto antes, melhor) formos forçados a destruir a velha — especialmente noroeste, calvinista — Europa, não deveremos jogar fora o bebê junto com a água suja. Deveremos preservar e encorajar as boas práticas europeias. Mas no final deveremos compreender que nós não somos originalmente um Estado europeu, mas um grande Estado-civilização eurasiático.

As origens externas de nossa histórica cultura espiritual descendem do Sul — da esplendorosa Bizâncio, da Palestina, e das civilizações muçulmanas e budistas. E nossas origens políticas externas derivam do grande Império Mongol. Há muito tempo compreendemos a nós mesmos e começamos a viver à nossa maneira, assim como fomos destinados pela História e pela geografia, observando o mundo do centro e do norte da Eurásia, não de sua extremidade ocidental.

Uma instância difícil mas urgente é restaurar nossas melhores características: a fé e a tensão para um espírito mais elevado e para o amor. A civilização europeia matou Deus. Tal circunstância ocorreu também na Rússia, quando nos foi imposta a ideologia comunista europeia, ateia e sem Deus. Mas o mais importante é que sem confiança e esperança no melhor, sem considerar-se como parte da História e de uma Nação e de uma Cultura, uma pessoa não é mais um ser humano, mas um animal inferior, assim como a moderna civilização ocidental está empurrando-a a se tornar.

Cansados da tendência à uniformidade do modelo comunista, a sociedade e parte da elite dominante aboliram a palavra “ideologia”. Pareceu também que uma parte da elite não queria uma ideologia que não fosse a liberal ou ocidental. Mas os grandes países não podem ser criados sem um núcleo espiritual e sem uma plataforma ideológica, e desapareceriam se as perdessem. A história é um cemitério de potências que perderam seu núcleo originário.

Por duas vezes quase desaparecemos, perdemos a fé em Deus, no Czar, e na Mãe-Pátria no início do século XX, e depois perdemos a confiança no comunismo ao final deste.

Não é necessário que uma ideologia seja explicitamente definida como tal, nem que tenha caráter vinculante. Um cidadão russo deveria ter liberdade de opinião e de escolha — na medida em que não cause dano ao próximo. O ideal russo[4] deveria ser obrigatório apenas para aqueles que aspirem a um reconhecimento público ou ao direito de governar. Mas esse ideal deve ser instilado desde a infância, assim como o ideal de estar a serviço da família, da sociedade e de Deus. (A fé em Deus não pode ser imposta, mas deveria ser encorajada. A fé em Deus, ou em qualquer modo que O chamem, é a característica mais humana em um ser humano).

Devemos, portanto, nos livrar das ilusões do economicismo, sejam elas de matriz marxista ou liberal. Definir uma pessoa como “animal econômico”, e reivindicar a absoluta prioridade de seu interesse econômico, reduz-a de fato ao nível de animal.

Devemos desenvolver e implementar um novo modelo econômico — um modelo pós-capitalista, baseado na iniciativa e no interesse pessoal, mas que desenvolva o que de melhor há no ser humano, preservando sua natureza, e unificando esses dois fatores naquilo que admiráveis pensadores russos definiram como a “noosfera”. A economia, incluindo os negócios, deveria estar a serviço do homem e da Terra, não suprimi-los, como acontece atualmente com o capitalismo, que perdeu completamente suas raízes éticas.

A China se aproximou muito desse modelo. Mas nós não deveríamos emular sua experiência, por mais útil que possa ser. Há muitos elementos, em nossas experiências imperiais passadas primeiro e soviéticas depois, que podem ser modificados e adaptados.

Em um mundo onde os conflitos geopolíticos estão se intensificando, em um mundo que foi empurrado para uma guerra mundial, é impossível sobreviver, para não dizer vencer, sem um planejamento de longo prazo e uma estrita observância deste.

Precisamos não apenas de uma plataforma ideológica orientada para o futuro — um Ideal russo — mas também de uma série de macroprojetos abrangentes realizados para inflamar o país com uma energia criadora.

Primeiro entre todos é a “Siberização da Rússia”, a transferência do centro do desenvolvimento ideológico, econômico e político para a Rússia asiática, por exemplo para a Sibéria. O futuro está lá. Deveríamos concluir nossa “viagem” ao Ocidente o quanto antes, pois as únicas coisas que ainda nos retêm lá são as ameaças e os miasmas da decadência. Desde o momento em que a Europa voltou à sua vocação primígena, a de ser a fonte de todas as guerras e de todos os problemas, um reforço militar e um deslocamento para o Oriente são também necessários por razões estratégicas e militares.

O deslocamento para a Sibéria é um deslocamento para nós mesmos, para o que é realmente nosso caráter nacional mais autêntico, para um futuro não ocidental. Devemos imediatamente iniciar a busca de um lugar onde estabelecer uma terceira capital na Sibéria, e onde transferir algumas das funções capitais para as cidades siberianas.

A política externa e de defesa precisa de uma séria modernização
Primeiro. Devemos compreender que as profundas contradições inerentes ao atual sistema econômico global, que estão destruindo a verdadeira essência do homem, põem em perigo toda a civilização humana. Perseverar com essas meias-medidas na Ucrânia arrisca esgotar nosso país, e minar o crescente ressurgimento de seu poder e de seu espírito.

Segundo. Em nome do “espírito de Anchorage”, poderíamos discutir uma trégua. Mas devemos compreender que, fundamentalmente, uma paz de longo prazo e uma perspectiva de desenvolvimento — para o nosso país e para todo o gênero humano — são impossíveis de alcançar sem antes ter suprimido a sanha de revanche da Europa Ocidental. Para alcançar esse objetivo, deveremos destruir o regime de Kiev, e libertar as regiões orientais e meridionais do pseudo-Estado ucraniano, das quais Moscou necessita por razões de segurança. Nossos corajosos soldados e comandantes no campo podem e devem continuar a avançar. Mas devemos compreender que uma guerra mundial não pode ser vencida por meio de uma moderna guerra de trincheiras. Este é um caminho que leva à derrota, ou de todo modo à perda de centenas de milhares de nossos melhores homens, dos quais precisamos para combater, vencer, e construir um mundo melhor no futuro próximo, que será extremamente perigoso e difícil mesmo sem a guerra na Ucrânia.

Terceiro. É impossível concluir vitoriosamente o atual conflito na Ucrânia, para não dizer prevenir sua escalada para uma guerra termonuclear global, sem contar com um incremento qualitativo da dissuasão nuclear. Para fazer isso, devemos parar de blá-blá-blá sobre “limitação de armamentos”, embora acordos sobre uma gestão conjunta da dissuasão nuclear e de uma estabilidade estratégica sejam úteis e até necessários. Devemos acelerar a produção de mísseis e outros sistemas balísticos de médio alcance e estratégicos, como dissuasão contra a tentativa ocidental de recuperar uma superioridade em relação a nós. Nossos inimigos devem saber que superioridade e impunidade são incompatíveis. Os armamentos nucleares, em boa quantidade e com uma correta doutrina de uso, reduzindo o gasto militar convencional, tornam impossível o alcance da superioridade não nuclear. Nossos Burevestnik, Oreshnik, e outros vetores hipersônicos deveriam convencê-los de que suas esperanças de vitória são vãs além de suicidas. Uma nova geração de armamentos deve ser predisposta para dissuadir os americanos de suas fantasias a respeito de recuperar uma superioridade e impor sua vontade pela força.

Incrementar a flexibilidade de nosso arsenal nuclear deveria lembrar a todos que é impossível derrotar uma grande potência dotada de armamentos nucleares por meio de armamentos convencionais ou mesmo por meio de uma guerra conduzida com drones. Mas devemos de todo modo evitar a dispendiosa e perigosa insensata idiotice dos americanos e soviéticos no acúmulo de armamentos nucleares dos anos 1960. Nossos potenciais inimigos devem saber que uma corrida armamentista é insensata e até suicida. Um diálogo sobre essa questão, ao menos com os americanos, deveria ser instaurado.

É preciso prevenir uma guerra conduzida com drones, uma guerra biológica, ou mesmo uma guerra informático-digital, contando cada vez mais com armas que podem estrangular no nascedouro qualquer instigador de tais tipologias de conflito. No estado atual, somente os armamentos nucleares podem fazer isso, desde que estejamos prontos a usá-los e a gerar novamente o temor de que isso aconteça.

Além disso, para frear Washington, que perdeu qualquer senso do limite, deveríamos rever nossa doutrina militar na ótica de certificar nossa real prontidão a atingir os interesses externos americanos e europeus caso o Ocidente persista em sua tentativa de desencadear um conflito mundial.

O Ocidente é muito mais dependente do que nós de atividades externas, bases, e portanto vulnerável de um ponto de vista logístico e de comunicações. O inimigo deveria reconhecer sua própria vulnerabilidade e compreender que nós estamos a par dela.

Deveríamos tirar proveito da experiência do Irã na defesa contra a atual agressão israelo-americana. Teerã atingiu os pontos fracos do inimigo, que caiu no pânico e deu um passo atrás. As mudanças na doutrina e na estrutura militar, a crescente capacidade de atingir de maneira assimétrica, terão como efeito a dissuasão e a redução a mais brandos conselhos do adversário, que perdeu o controle e se lançou ou está prestes a se lançar em riscos aventureirismos.

Deveríamos rever os objetivos prioritários para os ataques preventivos (primeiro com armamentos convencionais e depois, se absolutamente necessário, com os nucleares). Estes deveriam incluir os centros de comunicação, controle e logística, as bases militares e — ponto crucial — os lugares onde a elite se abriga. Essas elites deveriam ser privadas de seu senso de impunidade, e saber que, se continuarem a guerra contra a Rússia — ou pior ainda se a fomentarem, horizontal ou verticalmente — golpes letais serão desferidos contra elas e contra aqueles que as cercam. Para reforçar essa dissuasão, deveríamos acelerar a criação e a experimentação de armamentos nucleares e convencionais capazes de penetrar grandes profundidades. Os líderes desequilibrados — especialmente os europeus — deveriam saber que não estão seguros em seus bunkers ou em alguma ilha. Nosso Ministério da Defesa publicou recentemente uma lista de empresas europeias que produzem armas para o regime de Kiev; isso poderia ser um pequeno passo à frente na direção correta.

Agora a elite ocidental finge que a Rússia está ameaçando fazer isso, mas na realidade não o teme, segura como está de que a Rússia nunca os punirá com armas nucleares. Devemos instilar neles esse medo ancestral. Talvez eles deem um passo atrás, ou talvez seus senhores do deep State os expulsem. Talvez a sociedade se rebele. Reforçar a credibilidade nuclear da Rússia é também necessário para despertar as sociedades europeias de seu “parasitismo estratégico” — ou seja, a convicção de que não haverá nenhuma guerra e que tudo se resolverá para o melhor. Devemos instilar novamente um espírito de autoconservação naqueles que esqueceram suas guerras passadas e seus crimes.

Claramente, uma tal política é absolutamente necessária em relação à Alemanha. Um país que iniciou duas guerras mundiais e é culpado de vários genocídios não tem direito de ter “o mais forte exército da Europa”, nem muito menos de possuir armas de destruição em massa. Caso tente obtê-las, deveria ser destruído junto com estas, de modo tal que a Alemanha não possa representar mais nenhuma ameaça para a paz. Os cidadãos alemães deveriam compreender isso.

Quarto. Para reforçar a credibilidade da ameaça, deveríamos emendar nossa doutrina nuclear e especificar que, em caso de agressão (ou de agressão continuada) por parte de um ou mais Estados cujo potencial econômico, demográfico e tecnológico supera o nosso, o comando militar russo deverá ter não apenas o direito, mas também o dever de utilizar armas nucleares. Deveríamos começar, naturalmente, com uma série de testes. (Não compreendo por que estamos esperando que sejam os americanos a começar. Estamos mais uma vez tentando agradá-los?). Esses testes deveriam ser seguidos por ataques convencionais a centros logísticos, centros de controle, e objetivos simbólicos. Caso os adversários continuem com sua conduta hostil ou caso atinjam por sua vez, deveríamos reagir com uma série de ataques nucleares concentrados, com uma potência superior à das armas táticas, contra bases militares e instalações industriais estratégicas. Caso o inimigo não capitulasse, devemos estar prontos a passar ao nível seguinte. Isso deveria ser evitado se possível, mas evitá-lo requer que a elite enlouquecida fuja sob ameaça de uma destruição física, ou que seja removida do poder.

Contar com o poder nuclear é necessário para bloquear no nascedouro uma guerra de drones. Nossa resposta deve ser destrutiva. Se, por exemplo, mísseis ou drones fossem lançados da Ucrânia ou dos países limítrofes após um acordo de paz ou uma capitulação, aqueles que estão por trás dessas operações deveriam saber que a retaliação — inclusive nuclear — os alcançaria. Saber isso deveria colocá-los em guarda contra encenar possíveis provocações.

Quinto. Além das mudanças na doutrina militar e nas estruturas de força, vale a pena aconselhar o supremo Comandante-em-Chefe a nomear imediatamente um Comandante para as Operações Militares no teatro bélico europeu. Esse cargo deveria ser conferido a um general de combate com o direito e o dever de usar armas nucleares (após testes e ataques de advertência com armas convencionais) se necessário. Essa pessoa (e sua equipe, que deveria ser composta principalmente por combatentes veteranos) deveria possuir e demonstrar total prontidão para tal eventualidade. A Rússia tem urgente necessidade de heróis como Kutuzov ou Paskevich. O supremo Comandante-em-Chefe deveria obter o controle estratégico sobre as operações militares estratégicas, quando necessário.

Sexto. É chegado o momento de abandonar a visão idiota, da qual se beneficiam principalmente os americanos, de que não pode haver um vencedor em uma guerra nuclear, e de que o uso de armamentos nucleares deverá inevitavelmente conduzir a uma escalada em nível global. Essa visão destoa fortemente da mais elementar lógica e do real planejamento militar. Deus nos livre do uso de armas nucleares: morreriam inocentes, e cairia por terra a convicção de que seu uso conduz inevitavelmente a uma catástrofe nuclear global (convicção que salvou a humanidade). No entanto, uma guerra nuclear — Deus não permita — pode ser (facilmente) vencida, especialmente contra uma Europa superpovoada e moralmente fraca.

O uso de armamentos nucleares é uma verdadeira desgraça. Mas a recusa de usá-las de facto é uma desgraça imperdoável, mortal e criminosa, porque daria lugar à ampliação e ao engrandecimento da guerra mundial desencadeada pelo Ocidente. Se não for detida, conduzirá à definitiva destruição da humanidade, incluindo o nosso país. A pergunta feita por Vladimir Putin “E o que seria de um mundo sem a Rússia?” permanece relevante.

Sétimo. Além da necessária e agora tão esperada modernização de nossas forças nucleares, e em particular da doutrina nuclear, são urgentemente necessárias diversas intervenções paralelas. Junto com a China, deveríamos ajudar o Irã a resistir e a vencer. Deveríamos convidar os países do Oriente Médio, incluindo Israel (que zerou sua própria legitimidade), a criar um sistema de segurança regional, sob a égide de Rússia, China, e se possível Índia e Paquistão. Essas potências, diferentemente dos Estados Unidos e de seus vassalos, estão extremamente interessadas na estabilidade eurasiática.

Oitavo. Por fim, considerados os enormes perigos corridos durante o último vintênio, caracterizado por muitos conflitos e pelas tentativas de revanche ocidentais, uma temporária (por exemplo, dez anos, renováveis) aliança defensiva com a China deveria ser considerada. Isso seria útil para bloquear no nascedouro qualquer tentativa de revanche, e também para fazer amigavelmente compreender à China que não há necessidade de alcançar Estados Unidos e Rússia na potencialidade nuclear estratégica. A China já está avantajada em outros setores, e se suas capacidades nucleares alcançassem as russas, isso poderia gerar medos e suspeitas nos futuros líderes russos, dos quais nem russos nem chineses têm necessidade.

Naturalmente, há muitas outras providências que não mencionei mas que podem de todo modo ser consideradas e tomadas no intuito de prevenir a difusão de uma nova guerra mundial e sua escalada para uma guerra termonuclear global. Mas a maioria — e que sejam imediatos — dos passos necessários aqui propostos provavelmente será suficiente para vencer a guerra que está sangrando nosso país, repelir o revanchismo europeu, e (o mais importante) deter o escorregamento para uma catástrofe global. Esta é uma tarefa historicamente e globalmente urgente. Se não a levarmos a cabo, nossos descendentes (se alguém sobreviver) e Deus Onipotente nunca nos perdoarão por nossa covardia e nossa fraqueza mental.

À Rússia foram concedidos vinte anos sem uma guerra, mas agora estamos prestes a atravessar décadas de conflitos impostos pelas dinâmicas da História. Devemos vencê-las, para salvar a nós mesmos e à humanidade.

E ainda, enquanto detemos o revanchismo ocidental e a escalada de uma guerra mundial para uma catástrofe global, não devemos esquecer as causas profundas da atual crise do sistema global, a maior na história da humanidade. Essas causas incluem o esgotamento do capitalismo hodierno, e sua ameaça à sobrevivência do Homo Sapiens, uma ameaça acentuada pela hiperinformatização e outras características da civilização contemporânea. Direi mais a respeito disso em outros artigos.

Os próximos artigos tratarão dos contornos do sistema internacional que deverá ser perseguido após a vitória e de como evitar a escalada para uma catástrofe termonuclear global.

Mas o ponto principal agora é compreender a dimensão dos desafios aqui elencados, reunir-nos, concentrar-nos, e jogar de maneira decisiva pela vitória. Se tivermos sucesso, prosperaremos como um grande país, e mais uma vez teremos salvado a humanidade.

Notas

[1] Uma versão resumida em russo deste artigo foi publicada na revista “Profil” em 30 de abril de 2026. https://profile.ru/politics/kak-rossii-pobedit-v-novoj-mirovoj-vojne-1853262/
[2] Desde o século XVI, os portugueses usavam o termo “comprador” para se referir aos comerciantes e seus servos.
[3] Conforme relatado por diversos relatórios nos últimos um ou dois anos. Consulte a excelente análise elaborada pelos especialistas do Centro Integral de Estudos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia: Kashin, V.B., Smirnova, V.A. e Yankova, A.D., 2026. The New Great Wall: On the Logic of Chinese Foreign Policy Behavior. Russia in Global Affairs, 24(2), pp. 79-95. https://eng.globalaffairs.ru/articles/china-kashin-smirnova-yankova/
[4] cf. Karaganov, S.A. A Living Dream-Idea of Russia, a Code of the Russian Citizen in the 21st Century [Ideological Foundation of the Russian Civilization State], ed. Lukyanov, F.A., Malyutin, P.N. M.: SWAP, FMEiMP NRU HSE, 2025, p. 46.).

Fonte: Eurasia Rivista

Serguei Karaganov
Serguei Karaganov
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