A historiografia italiana e francesa costuma aplicar a definição de “invasões bárbaras” àquele vasto fenômeno de deslocamentos em cadeia que ocorreu entre a Ásia e a Europa a partir do século IV d.C., levando populações heterogêneas a se estabelecerem em sedes diferentes das originárias, frequentemente em territórios pertencentes ou que pertenceram ao Império Romano. Os historiadores alemães e húngaros, por razões facilmente compreensíveis, preferiram usar termos mais neutros e anódinos, como Völkerwanderung e népvándorlás (“migração de povos”).
A atual penetração de massas humanas originárias da Ásia e da África dentro das fronteiras europeias é às vezes comparada ao fenômeno que ocorreu na Antiguidade Tardia e no Alto Medievo; e também os termos “migração” e “invasão”, quando aplicados ao caso atual, refletem perspectivas e percepções bastante diversas.
“Migração”, com efeito, é o termo com que se indica comumente o deslocamento que indivíduos, famílias ou grupos mais ou menos numerosos empreendem com a intenção de se estabelecerem em uma nova sede, de maneira provisória ou definitiva.
A teoria geopolítica costuma distinguir os movimentos migratórios, em relação à vontade dos migrantes, em voluntários e forçados[1]. Fala-se de migração voluntária quando os indivíduos decidem livremente ir se estabelecer em um lugar onde esperam melhorar sua condição econômica. Por outro lado, uma migração é considerada forçada quando os migrantes transferem para outro lugar sua residência por efeito de uma coerção exercida pelo poder político (por exemplo, no caso em que sejam vítimas de uma deportação); o movimento migratório é considerado forçado também quando é empreendido com o objetivo de evitar o envolvimento em eventos bélicos ou em catástrofes naturais.
Às duas supracitadas variantes da tipologia migratória é possível acrescentar uma terceira: aquela que, em um estudo recente, Kelly M. Greenhill (ex-assistente do senador John Kerry e consultora do Pentágono) define como coercive engineered migration, ou seja, “migração forçada projetada”. As migrações “criadas artificialmente” (engineered) são, segundo a definição fornecida pela própria estudiosa, “movimentos populacionais transfronteiriços que são deliberadamente criados ou manipulados a fim de extorquir concessões políticas, militares e/ou econômicas de um ou mais Estados visados”[2].
As migrações forçadas projetadas são, por sua vez, distinguidas em expropriadoras, exportadoras e militarizadas. “As migrações projetadas expropriadoras – escreve Greenhill – são aquelas cujo objetivo principal consiste na apropriação do território ou da propriedade de outro grupo ou grupos, ou na eliminação de tal grupo ou grupos na medida em que ameaçam o domínio etnopolítico ou econômico daqueles que projetam a (e)migração; inclui-se neste caso o que é comumente conhecido como limpeza étnica”[3].
Fala-se, por outro lado, de “invasão” quando um grupo militar ou mesmo um grupo de civis penetra em um território, nele se difunde e o ocupa, subtraindo-o, total ou parcialmente, ao controle e à soberania da população autóctone. Não é, portanto, necessário que uma invasão, para ser tal, seja levada a cabo com as armas; ao contrário, uma invasão pode ocorrer de modo pacífico, se a se estabelecer em um determinado território e a modificar sua homogeneidade étnica ou cultural forem massas humanas desarmadas, mas numericamente consistentes.
Há, com efeito, casos em que um fenômeno imigratório se configura como uma invasão verdadeira e própria. A imigração em massa possui, então, a eficácia de uma arma de destruição em massa. Exemplos históricos nesse sentido não faltam: pense-se na imigração que praticamente apagou do território dos atuais Estados Unidos da América a presença da população autóctone, ou naquela que transformou a Palestina no atual “Estado de Israel”. Por sua vez, Kelly M. Greenhill identifica cerca de cinquenta casos de migrações arquitetadas ou de qualquer modo heterodirigidas e utilizadas, todos ocorridos após a entrada em vigor, em 1951, da Convenção das Nações Unidas sobre os Refugiados.
Por isso, a invasão migratória atualmente dirigida à Europa, se se quiser repropor um termo usado pela estudiosa estadunidense, é “uma arma de guerra” (a weapon of war)[4], que se inclui no rol das armas não convencionais empregadas na chamada “guerra assimétrica”. Como o terrorismo, a manipulação dos meios de comunicação, a pirataria informática, as perturbações dos mercados acionários, assim também os fluxos migratórios que atingem a Itália e a região balcânica – fluxos solicitados, atraídos, facilitados e importados – constituem uma arma não convencional utilizada para desestabilizar a Europa.
Está, portanto, em curso algo que, segundo Samar Sen, embaixador da Índia na ONU, assemelha-se muito a uma guerra. “Se agredir um país estrangeiro – argumenta o diplomata – significa atingir sua estrutura social, prejudicar sua economia, obrigá-lo a renunciar a porções de seu território para acolher refugiados (refugees), qual é a diferença entre esse tipo de agressão e o tipo mais clássico, que ocorre quando se declara uma guerra?”
O mesmo conceito foi expresso durante uma conferência sobre o conflito no Kosovo realizada em 11 de dezembro de 2000 na Brandeis University: “A natureza da guerra mudou – disse Martha Minow, da Harvard Law School –; agora a guerra são os refugiados (refugees)”.
Os estrategistas dessa guerra sui generis agem às claras. Um deles, o famigerado especulador estadunidense George Soros, em 20 de setembro de 2016 reivindicou abertamente, nas colunas do “The Wall Street Journal”, seu próprio papel de financiador da invasão. “Decidi – declarou – destinar 500 milhões de dólares para investimentos voltados especificamente às necessidades de migrantes, refugiados e centros de acolhimento. Investirei em novos empreendimentos, empresas já existentes, iniciativas de impacto social fundadas pelos próprios migrantes e refugiados. Embora meu compromisso principal consista em ajudar migrantes e refugiados que chegam à Europa, buscarei projetos de investimento que beneficiem os migrantes em todo o mundo”[5].
Notas
[1] E. Squarcina, Glossario di geografia politica e geopolitica, Società Editrice Barbarossa, Cusano Milanino 1997, p. 97.
[2] “cross-border population movements that are deliberately created or manipulated in order to induce political, military and/or economic concessions from a target state or states” (K. M. Greenhill, Weapons of Mass Migration. Forced Displacement, Coercion, and Foreign Policy, Cornell University Press, Ithaca and London 2010, p. 13).
[3] “Dispossessive engineered migrations are those in which the principal objective is the appropriation of the territory or property of another group or groups, or the elimination of said group(s) as a threat to the ethnopolitical or economic dominance of those engineering the (out-)migration; this includes what is commonly known as ethnic cleansing” (K. M. Greenhill, Weapons of Mass Migration, cit., p. 14).
[4] Strategic Engineered Migration as a Weapon of War (“Civil Wars” 10, no. 1, March 2008, pp. 6-21) è il titolo di un articolo di K. M. Greenhill che ha anticipato Weapons of Mass Migration.
[5] “I have decided to earmark $500 million for investments that specifically address the needs of migrants, refugees and host communities. I will invest in startups, established companies, social-impact initiatives and businesses founded by migrants and refugees themselves. Although my main concern is to help migrants and refugees arriving in Europe, I will be looking for good investment ideas that will benefit migrants all over the world” (“The Wall Street Journal”, Sep 20,2016).








