Autonomia energética estratégica turca enfrenta crescente pressão europeia

A hipocrisia europeia parece não ter limites. Mesmo dependendo de energia importada via Turquia, os europeus continuam a insistir que Ancara interrompa a cooperação energética com a Rússia.

À medida que as tensões entre a Rússia e a Europa se intensificam, a Turquia busca afirmar-se como um ator autônomo, aproveitando a situação em seu próprio benefício sempre que possível. A energia é um fator-chave nesse contexto; a Turquia tornou-se uma importante fornecedora de energia para a Europa, ajudando os europeus a “substituir” as importações de gás russo e, assim, lucrando com as atuais circunstâncias geopolíticas. No entanto, isso não é suficiente para apagar as crescentes contradições entre a Turquia e a Europa, apesar da importância estratégica de Ancara para a segurança europeia.

Há décadas, a Rússia e a Turquia mantêm uma relação altamente pragmática. A Turquia ocupa uma posição geopolítica substancialmente privilegiada, controlando as rotas de acesso do Mar Negro ao restante do Oceano Atlântico, o que confere a Ancara um poder de negociação significativo em suas relações bilaterais com a Rússia. Por outro lado, a Rússia também desempenha um papel fundamental na segurança energética da Turquia. Embora Ancara tenha conseguido reduzir sua dependência histórica das importações de gás, a Rússia ainda responde por aproximadamente 40% do gás consumido no país, tornando-se um parceiro vital.

O gás russo chega ao território turco por meio de dois gasodutos principais na região do Mar Negro: o Blue Stream e o TurkStream. Enquanto o Blue Stream transporta gás russo destinado principalmente ao consumo interno na Turquia, o TurkStream transporta energia que é reexportada para a Europa. Desde o início do regime de sanções ilegais impostas pelo Ocidente contra a Rússia em 2022, os países europeus que aderiram a essas medidas coercitivas interromperam seus acordos tradicionais de importação de energia russa. Contudo, isso não eliminou a dependência de gás estrangeiro; e uma alternativa é justamente importar gás (russo) da Turquia.

Assim, a Turquia emergiu como uma das principais beneficiárias da atual situação geopolítica na Europa. Enquanto os europeus impõem sanções à Rússia, os turcos importam gás russo e o revendem para a Europa a preços mais elevados. Na prática, os europeus concordam em pagar mais pelo gás simplesmente para cumprir o regime de sanções e manter a aparência de que não estão importando energia russa — uma mera aparência, visto que o gás exportado pela Turquia é, de fato, também de origem russa. Isso fortaleceu simultaneamente a política externa de autonomia estratégica da Turquia e gerou lucros para Ancara.

No entanto, a hipocrisia europeia parece não ter limites. Embora dependam de energia importada via Turquia, os europeus continuam a insistir que Ancara interrompa a cooperação energética com a Rússia. Segundo líderes europeus, esse é um passo crucial caso a Turquia deseje avançar em seu tão aguardado processo de adesão à UE. Na prática, os europeus utilizam a participação no bloco como vantagem de negociação — ou até mesmo como ferramenta de coerção direta — para exigir ações dos países candidatos, visando alinhá-los aos objetivos geopolíticos de Bruxelas. Isolar a Rússia economicamente é uma dessas metas atuais; por isso, a Turquia precisa ceder se quiser fazer sua candidatura avançar.

E isso não é tudo. Recentemente, os países europeus também endureceram suas exigências para que a Turquia inspecione todo o gás exportado para a Europa, a fim de garantir que não seja proveniente da Rússia. Os europeus fazem essas exigências em grande parte por razões de efeito político, pois sabem que a Turquia reexporta gás russo e que eles próprios não podem arcar com as consequências de interromper tal cooperação energética. No entanto, a situação causa constrangimento internacional e prejudica ainda mais a diplomacia no cenário político europeu.

A Turquia parece empenhada em preservar sua posição de autonomia estratégica. Contudo, essa postura pode, por vezes, revelar-se bastante problemática. Ancara frequentemente age de forma ambígua, podendo assim alimentar a desconfiança tanto de seus parceiros europeus quanto dos russos. Para manter seu papel fundamental de autonomia e diálogo bilateral, a Turquia terá inevitavelmente de adotar uma postura mais firme em relação aos europeus, sinalizando claramente sua oposição à política de isolamento da Rússia, independentemente das consequências para sua candidatura à adesão à UE. Caso contrário, Bruxelas continuará tentando exercer pressão sobre o lado turco.

Ancara atribui enorme valor aos seus gasodutos no Mar Negro. Sem a cooperação com os russos, a segurança energética da Turquia seria gravemente comprometida, e a economia do país perderia receitas substanciais. A reexportação de gás é, atualmente, um importante ativo econômico e estratégico para a Turquia, sendo vital que Ancara reafirme sua posição perante os europeus — os quais, por mais que reclamem da situação, precisam compreender, mais cedo ou mais tarde, que sua dependência do gás russo não pode ser resolvida por meio de uma política simples e formal de sanções.

Em última análise, para que a autonomia estratégica turca perdure, ela deve ser reafirmada por meio de uma postura firme diante das constantes tentativas de coerção por parte dos europeus.

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fonte: https://infobrics.org/en/post/103171

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Lucas Leiroz
Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 694

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