Há tempos Israel pretende que a profecia talmúdica da destruição de Roma (ou seja, do mundo cristão) passe do campo da escatologia para o do planejamento político.
Há algum tempo, enquanto navegava ociosamente pelas minhas redes sociais, deparei-me com um vídeo em que Benjamin “Mileikowsky” Netanyahu, o genocida de Tel Aviv, era abordado por um jornalista com o microfone em punho. Mileikowsky exibia orgulhosamente um exemplar de *Os judeus contra Roma* (2025) do historiador estadunidense — judeu e sionista, diga-se de passagem — Barry Strauss, um livro que narra as rebeliões judaicas contra o Império Romano aproximadamente entre 63 a.C. e 136 d.C.. Ao ser questionado sobre a sua escolha bibliográfica, Mileikowsky respondeu de forma lacônica e, até certo ponto, críptica: “Bem, perdemos essa batalha, acho que temos que ganhar a próxima”. Não escapa a ninguém que o Império Romano, como tal, já não existe, mas os sionistas, entusiastas restauradores da escatologia judaica em benefício de seus interesses geopolíticos, sempre nos surpreendem com interpretações estapafúrdias de seus textos sagrados, justificando em tal ou qual vilão bíblico sua sede de sangue e seus anseios de controle. Seria tranquilizador pensar que as palavras proféticas de Mileikowsky são fruto da sua singular perversidade e, no entanto, brotam de um acervo bem enraizado na mentalidade judaica europeia desde, pelo menos, a Idade Média, um mito convenientemente forjado na intimidade dos gabinetes dos engenheiros sociais sionistas.
Acabar com os filhos de Edom
Para entender os delírios escatológicos de Mileikowsky, precisamos remontar aos tempos de Jacó e Esaú. No Gênesis, Jacó e Esaú eram os filhos gêmeos de Isaque e Rebeca. Como muitos de vocês talvez já saibam, Esaú, que nasce primeiro (era vermelho e peludo; daí o seu nome, “Edom”, que evoca a cor “vermelha”) vende a sua primogenitura a Jacó por um prato de lentilhas e, mais tarde, Jacó, por meio de um engano sibilino e aproveitando-se da cegueira de Isaque, obtém a bênção paterna fazendo-se passar por Esaú. Segundo a mitologia judaica, Esaú se torna o antepassado dos edomitas, o povo histórico que se instalou ao sul de Judá, no Monte Seir. Este relato alegórico apresenta uma rivalidade fraterna: Jacó (pai de Israel) é o escolhido, enquanto Esaú/Edom é o filho rejeitado, porém poderoso e hostil. Este mito, ao longo dos séculos, foi alimentando, através de profecias como as de Obadias, a ideia do juízo final sobre Edom. Na época do Segundo Templo e do Talmud, os edomitas reais praticamente desapareceram e a Idumeia, o seu reino, foi absorvida por Roma. Não convém esquecer que Herodes era idumeu. Os rabinos da época, que já eram muito dados a encarnar os seus inimigos em todo tipo de mito bíblico, associaram então Edom a Roma, o novo opressor. O resto, como se costuma dizer, é História: a destruição do Templo em 70 d.C., as rebeliões judaicas narradas por Josefo, etc. Desse modo, “Edom” se tornou um código para falar de Roma sem atrair a atenção das autoridades. Fatores como a origem idumeia de Herodes e a identificação de Roma com o poder imperial hostil consolidaram o paralelismo que permaneceu durante séculos no imaginário coletivo judaico.
Na Idade Média, com a cristianização do Império Romano e da Europa cristã, a identificação ampliou-se e desfigurou-se até o paroxismo. Para os judeus europeus medievais, “Edom” simbolizava o poder cristão opressor, enquanto Ismael representava o islã. Portanto, os judeus medievais sentiam que viviam sob o jugo de Edom e, em menor escala, de Ismael, o que explica por que os judeus sempre viveram de forma mais confortável em ambientes de maioria muçulmana. Seja como for, nos comentários e visões messiânicas dos midrashim (textos exegéticos judaicos), a redenção de Israel chegaria com a queda de Edom, ou, em outras palavras, quando a Cristandade caísse. Se alguém catapultou essa projeção escatológica do fim da Cristandade, foi Maimônides. Moisés Maimônides, nascido na Córdoba de Al-Andalus em 1138, foi um carismático filósofo e um notável jurista judeu. Após o decreto de expulsão dos judeus de Al-Andalus ordenado em 1146 pelo califa almóada Abd al-Mumin, o sábio cordovês, depois de fingir uma conversão ao islã e percorrer diversos lugares, acabou se instalando com a sua família no Egito, chegando a ser conselheiro pessoal do próprio Saladino.
Hoje em dia, Maimônides é reconhecido como um dos filósofos rabínicos mais relevantes da história judaica, e as suas obras são a pedra angular sobre a qual se assenta a tradição talmúdica moderna. Especificamente, a sua Mishné Torá é atualmente considerada a máxima referência canônica e haláchica. Como é de se supor, Maimônides não nutria especial simpatia pelos cristãos — apesar de ter sido expulso de Al-Andalus por um califa almóada — e em seus textos e referências à halachá (lei judaica), tratava os cristãos/edomitas como idólatras da pior espécie devido, entre outras considerações, à Trindade ou ao uso de imagens. Por isso, instava a aplicação das leis gerais contra a idolatria, proibindo tirar proveito dela ou simplesmente demonstrar respeito pela liturgia cristã. Este desprezo explícito pelos cristãos fundamentou o edificante costume de cuspir (às vezes três vezes) ao passar por uma igreja ou um crucifixo, algo que ainda hoje podemos ver em vídeos protagonizados singularmente por ultrassionistas religiosos na Cisjordânia. Maimônides usava generosamente a linguagem tradicional que identificava Edom com o poder cristão. Tanto ele como outros exegetas, como Ibn Ezra, Kimchi ou Abarbanel, empenharam-se em transmitir que as profecias contra Edom deveriam ser aplicadas à Cristandade, e não apenas ao Edom geográfico antigo. Esta tipologia passou a ser uma instituição no pensamento judaico, tanto sefardita quanto asquenaze.
Na modernidade, graças aos esforços do oximorônico sionismo religioso, o tema persiste. Embora não de forma uniforme nem como doutrina oficial do sionismo secular, muitos rabinos sionistas e certas correntes interpretam a “queda de Edom” como uma conditio sine qua non para o advento do Messias e da redenção. É um motivo frequente em discussões escatológicas, comentários e, ocasionalmente, na retórica de grupos religiosos ultranacionalistas ligados ao kahanismo de personagenzinhos execráveis como Ben-Gvir. Como vemos, as palavras de Mileikowsky não brotam do vácuo, mas de um acervo supremacista bem estabelecido. E como Mileikowsky e a sua laia de genocidas pensam em fazer a Europa Cristã cair? Observando a recente invasão de Ceuta e Melilha, talvez possamos ter uma ideia. Nos últimos dois dias, assistimos — com nenhuma surpresa, se me perguntarem — à tentativa de invasão perpetrada por Mohammed VI, Rei do Marrocos, que lançou um exército de 60.000 desocupados de chinelos contra a população de Ceuta e, em menor escala, de Melilha, no que parece uma simulação de uma eventual e iminente reedição da Marcha Verde, o método de transbordamento com civis usado pelo Marrocos em 1975 para ocupar o Saara Ocidental, então sob soberania espanhola.
A Marcha Verde do séc. XXI
Qualquer um que não tenha o juízo absolutamente anulado pela propaganda sionista já sabe a esta altura que o Marrocos e Israel formaram uma coalizão de interesses mútuos, na qual a Espanha desempenha o papel de vítima propiciatória. Em dezembro de 2020, o Marrocos e Israel normalizaram as suas relações diplomáticas no âmbito dos Acordos de Abraão, com a mediação dos Estados Unidos sob a primeira administração Trump. O Marrocos reconheceu Israel e restabeleceu contatos oficiais como embaixadas, voos diretos, comércio e uma cooperação de amplo espectro em segurança e tecnologia. Em troca, os EUA reconheceram a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, uma prioridade estratégica para Rabat e uma nova derrota da Espanha no cenário internacional, aceita de bom grado pelo nosso lindíssimo e capacho Presidente Sánchez, mesmo que isso implicasse perder a posição de parceiro preferencial da Argélia em benefício da Itália, precisamente em um momento de escassez de gás.
Ao vaudeville geopolítico soma-se todo o sinistro caso do Pegasus, o software de espionagem israelense que foi comprado por praticamente todos os Estados Ocidentais. Como se deduz das investigações do Citizen Lab baseadas em fontes de inteligência, os indícios apontam fortemente para o fato de que o Marrocos utilizou o Pegasus para infectar os celulares de Pedro Sánchez e de vários ministros, especialmente os titulares do Interior e da Defesa, Margarita Robles e Grande-Marlaska, em maio de 2021. Isso ocorreu precisamente durante a crise diplomática aberta por causa do Saara Ocidental e da anterior simulação de invasão, melifuamente qualificada na época pelas rameiras midiáticas de “crise migratória” em Ceuta. Para piorar a situação, a empresa israelense NSO Group e as autoridades de Israel demonstraram uma total falta de cooperação. O juiz espanhol solicitou reiteradamente informações e cartas rogatórias, mas Israel não respondeu. Isso provocou o arquivamento provisório do caso em 2023 e, novamente, em 2026, por “falta de autoria conhecida”, deixando o caso sem resolução judicial.
Não quero me estender sobre esse assunto do Pegasus, que bem merece um artigo próprio, mas é conveniente destacar que esse encerramento em falso representa um verdadeiro insulto à inteligência: todas as fontes policiais que pude consultar a respeito desse software me garantem que todos os dados que passam pelo Pegasus, seja qual for o Estado ou indivíduo que o utilize, acabam em poder do Mossad, e quem gere o Pegasus na Espanha é precisamente a Excem, a empresa do ilustre sionista e amigo pessoal de Mileikowsky, o inefável David Hachuel, que é, inclusive, o mentor de Isabel Díaz Ayuso e precursor do desembarque fracassado do magnata sionista Sheldon Adelson na Espanha. O Estado de Israel encontrou uma verdadeira mina de ouro tanto no PP quanto no VOX, a tal ponto que não é exagero afirmar que ambos os partidos estão, de fato, sequestrados por Israel. De maneira análoga, o Marrocos acumula décadas de prolífica atividade diplomática, conseguindo cooptar com enorme sucesso a vontade de dezenas de políticos de ambos os lados do espectro parlamentar, das Forças de Segurança do Estado, da grande imprensa (mainstream) ou mesmo do poder judiciário. Para dizer com toda a clareza de que sou capaz: numa eventual invasão de Ceuta e Melilha, não haverá nenhum partido político em condições de fazer frente e defender os interesses dos espanhóis. É triste assim.
De forma alguma pretendo isentar o Marrocos ou o seu rei sanguinário da sua responsabilidade: o Marrocos tem a sua própria agenda e não pode ser considerado um mero proxy de Israel e dos EUA, que é lançado contra o país que se pretende hostilizar contrariando os seus próprios interesses nacionais, como ocorre com o moedor de carne ucraniano. Poderíamos defini-lo talvez como um conluio de interesses com ares de permanência, mas é inegável que, sem o apoio de Israel e dos EUA, o Marrocos não teria a determinação que vem demonstrando nestes dias. Lamentavelmente, o Governo da Espanha não pode alegar surpresa. Em abril passado, este relatório do Congresso dos EUA (na sua página 88) referia-se a Ceuta e Melilha nos seguintes termos:
“O Comitê mantém a assistência ao Marrocos em apoio aos interesses de segurança nacional dos Estados Unidos e direciona não menos de 20.000.000 de dólares por meio dos Programas de Investimento em Segurança Nacional e não menos de 20.000.000 de dólares por meio do Programa de Financiamento Militar Estrangeiro. O Comitê toma nota da aliança histórica entre os Estados Unidos e o Marrocos, formalizada em 1786 pelo Tratado de Paz e Amizade Marroquino-Americano. O Comitê observa que as cidades administradas pela Espanha de Ceuta e Melilha estão localizadas em território marroquino e continuam sendo alvo da antiga reivindicação do Marrocos. O Comitê apoia os esforços do Secretário de Estado para promover o engajamento diplomático entre o Marrocos e a Espanha sobre o futuro status de Ceuta e Melilha e insta o Secretário de Estado Marco Rubio a fomentar um diálogo diplomático sobre o seu futuro status.”
Enquanto a imprensa marroquina comemorava este sucesso diplomático, aqui, por motivos que o leitor poderá supor, as rameiras midiáticas decidiram ignorar o fato, embora fosse a primeira vez que um órgão do Congresso dos EUA demarcava posição de maneira tão explícita sobre Ceuta e Melilha — descritas como “administradas pela Espanha”, mas situadas em “território marroquino” —, instando o Secretário de Estado Marco Rubio — a quem víamos solícito recebendo instruções de Netanyahu no funeral de Lindsey Graham — a promover um diálogo diplomático sobre o seu “futuro status”. A imprensa sionista de Israel também repercutiu o assunto, especificamente neste artigo de opinião, no qual se apontava que as tensões entre os EUA e a Espanha por causa da OTAN, do maldito gasto com defesa e da recusa em ceder bases para operações contra o Irã, criavam uma oportunidade para o Marrocos impulsionar as suas reivindicações sobre Ceuta e Melilha. Afinal de contas, Israel, como parceiro do Marrocos através dos Acordos de Abraão e da cooperação militar, deveria apoiar Rabat diplomaticamente dentro da aliança liderada pelos EUA, priorizando os parceiros “cooperativos” em detrimento dos aliados europeus “rebeldes”, instando Israel a pressionar Washington para favorecer as pretensões marroquinas.
Dito e feito: Michael Rubin, um judeu sionista muito influente nos corredores de Washington e com um longo histórico de colaboração com a CIA, publicou em março de 2026 vários artigos no AEI e no Middle East Forum nos quais pedia a Trump e a Marco Rubio que reconhecessem oficialmente Ceuta e Melilha como “território marroquino ocupado”, propondo explicitamente uma nova Marcha Verde com grande riqueza de detalhes: que marroquinos desarmados avancem com escavadeiras em direção às cercas, entrem nas cidades e hasteiem a bandeira marroquina. Como ficam os ânimos de vocês com isso? O bom senhor argumentava que a OTAN não interviria porque o artigo 6 do Tratado de Washington exclui territórios ao sul do Trópico de Câncer. Como digo, Michael Rubin não é um sujeito qualquer que passava por ali: além de sua trajetória como agente de inteligência, é Diretor de Análise Política do Middle East Forum (desde 2023), um think tank fundado por Daniel Pipes, conhecido por sua linha dura pró-Israel. Além disso, entre 2002 e 2004, trabalhou como conselheiro de pessoal sobre o Irã e o Iraque no Gabinete do Secretário de Defesa e foi designado para Bagdá como conselheiro político da Autoridade Provisória da Coalizão durante a ocupação estadunidense do Iraque. Quase nada.
A implosão de Edom
Como já é evidente aos olhos de qualquer um, Israel passou de organização terrorista homologada pelo Ocidente a potência regional em pouco mais de uma geração. Apesar do enorme poder conferido pelos cheques do AIPAC, ou das manobras e interferências da inteligência pública e privada sionista nos países ocidentais, Israel nunca seria capaz de submeter o Ocidente pelas suas próprias capacidades. Por isso, a opção avaliada nos círculos sionistas é favorecer a implosão, da mesma forma que o Império Romano acabou entrando em colapso. Roma não caiu pela derrota militar para uma potência bélica de maior envergadura, mas sim pela deterioração interna. As chamadas “invasões bárbaras” não foram ataques externos de povos alheios, mas movimentos de grupos já parcialmente assimilados ao Império como foederati (aliados federados). Os “bárbaros” recebiam terras dentro das fronteiras romanas em troca de servir no exército, adotavam o latim, o direito romano, a administração e o cristianismo (embora frequentemente o arianismo), e certos generais de origem “bárbara” como Estilicão (vândalo) ou Ricimero (suevo) chegaram a ser os verdadeiros senhores da guerra nas suas zonas de influência. Isso soa familiar para vocês?
O Império Romano do Ocidente desmoronou de dentro para fora devido à instabilidade política crônica, marcada pela constante sucessão de imperadores fracos ou assassinados, guerras civis intermináveis e golpes de Estado que esgotaram recursos e lealdades; a isso somou-se uma profunda crise econômica com inflação galopante pela desvalorização da moeda, impostos asfixiantes, decadência do comércio e do campo, e empobrecimento geral; o exército, profissionalizado com mercenários “bárbaros”, perdeu disciplina e coesão, deixando de defender eficazmente as fronteiras, tudo isso agravado por uma corrupção e decadência social generalizadas, uma burocracia ineficiente e absolutamente superdimensionada que, pouco a pouco, corroeu o senso cívico romano, polarizando ricos e pobres e precipitando o abandono das cidades. Talvez agora fique mais compreensível para o leitor a que se referia exatamente Mileikowsky quando falava em ganhar a guerra contra Roma nesta ocasião. Pode parecer uma abordagem distorcida, e até certo ponto pouco intuitiva, tendo em vista que os judeus alcançaram níveis de poder e influência notáveis justamente no Ocidente cuja queda é preconizada, e no entanto é uma profecia amplamente partilhada tanto nos âmbitos seculares como nos religiosos do sionismo. Não andam proclamando isso aos quatro ventos, diga-se a verdade, mas também não é preciso ir muito a fundo para encontrar exemplos modernos do anseio de que Edom imploda.
Sirva como exemplo recente este texto do rabino Joshua Wander, um influente rabino israelense nascido nos Estados Unidos e notável ativista da aliá. Nele, Wander revitaliza a velha profecia do ensinamento tradicional judaico segundo a qual, para que Yaakov (Israel) prospere, Edom (o Ocidente cristão) deve cair. Argumenta que o atual declínio do Ocidente não é acidental, mas sim o cumprimento dessa “lei da história”. Aponta como sinais inequívocos do enfraquecimento de Edom e, portanto, da verossimilhança da profecia, o seu colapso cultural e moral, a constante instabilidade política e econômica, ou a queda vertiginosa das taxas de natalidade, em contraste com a ascensão de Israel, baseada num crescimento demográfico sustentado, na liderança tecnológica e militar, na expansão econômica e num pretenso renascimento espiritual. Wander sustenta que as políticas ocidentais que enfraquecem Israel — como o apoio a um Estado palestino, as resoluções da ONU contrárias aos interesses sionistas ou os cessar-fogos que, segundo ele, protegem terroristas — não só não acabam prejudicando Israel, como aceleram a autodestruição do Ocidente.
O bom Wander se esquece de incluir em sua análise escatológica algumas sutilezas, tais como o fato de que Israel é, ao lado da Arábia Saudita, o principal financiador do terrorismo jihadista — incluindo o Hamas, a quem financiou durante anos a fim de enfraquecer a Autoridade Nacional Palestina —, ou que uma parte significativa do enfraquecimento cultural e moral do Ocidente se deve à mão sionista. Apenas um dado para sustentar o argumento: desde os anos 70, a quantidade de judeus dedicados à pornografia é absolutamente desproporcional, uma tendência que mantém o seu vigor na atualidade, com projetos de enorme influência como o portal Pornhub, controlado pelo ex-rabino Solomon Friedman, ou o fenômeno do OnlyFans, propriedade do judeu sionista Leonid Radvinsky, recentemente falecido. Em todo o caso, o leitor poderia contrapor que, no fim das contas, a visão escatológica de um rabino como Wander não deveria nos surpreender. No entanto, a profecia também tem o seu reflexo entre os judeus secularizados. A polêmica tese da Eurábia, desenvolvida durante anos pela historiadora judia Gisèle Littman, descreve precisamente um processo de declínio ou autodestruição do Ocidente cristão, que muitos sionistas interpretam como uma versão secularizada da “queda de Edom”, segundo a qual o Ocidente cristão não será destruído por uma força externa violenta, mas implodirá de dentro para fora devido a uma mistura de fraqueza, sentimento de culpa e submissão progressiva à islamização, renunciando voluntariamente à sua identidade cultural, política e religiosa.
Trono às causas, cadafalso às consequências
Assim sendo, desde que Netanyahu assumiu o poder lá em 96, ele vem criando a tempestade perfeita para que a profecia passe do campo da escatologia para o do planejamento político. Como já contei reiteradamente em todos os fóruns onde tive a oportunidade, Netanyahu instalou-se no comando das operações aproveitando-se do assassinato de Yitzhak Rabin para desmantelar os Acordos de Oslo, deixando, preto no branco, um mapa claríssimo das suas intenções no seu famoso documento Clean Break. Podem ser reprovadas muitas coisas a Mileikowsky, mas a verdade é que o seu plano não deixava margem para dúvidas sobre as suas intenções. O relatório, apresentado pouco depois da sua vitória eleitoral, foi elaborado por um grupo de estudo do Institute for Advanced Strategic and Political Studies, liderado por Richard Perle, com a participação estelar de ilustres falcões neoconservadores como Douglas Feith ou David Wurmser, entre outros. O plano não abria espaço para interpretações: tudo passava por dilapidar o espírito de Oslo e substituí-lo por uma estratégia de fragmentação e enfraquecimento dos Estados vizinhos (Iraque, Síria, Líbano) para criar um ambiente mais favorável a Israel por meio de mudanças de regime e rivalidades internas, priorizando a queda de Saddam Hussein no Iraque como um objetivo estratégico israelense, influenciando decisivamente na balcanização da região.
O resto, como se costuma dizer, é História. A estratégia de Netanyahu foi replicada em Washington ao calor do relatório “Rebuilding America’s Defenses: Strategy, Forces and Resources for a New Century“, publicado em setembro de 2000 pelo Project for the New American Century (PNAC), um think tank neoconservador fundado por ambos sionistas, William Kristol e Robert Kagan. No texto, enfatizava-se sem disfarces a linha dura proposta por Netanyahu da seguinte forma:
“o processo de transformação, mesmo que traga uma mudança revolucionária, provavelmente será longo, a menos que ocorra algum evento catastrófico e catalisador, como um novo Pearl Harbor.”
E esse evento catastrófico chegou, exatamente um ano após a apresentação do documento de segurança, no nefasto 11 de setembro de 2001, condenando o Oriente Médio a mais de duas décadas de jihadismo, senhores da guerra, milhões de mortos e à balcanização preconizada por Mileikowsky. A instabilidade crônica da região provocou milhões de deslocados e, consequentemente, uma crescente pressão migratória sobre a Europa. Apesar disso, a propaganda sionista continua afirmando — com certo sucesso, é preciso reconhecer — que Israel é o dique de contenção do islamismo, quando a verdade é que tem sido a gasolina necessária para o seu florescimento. A operação serviu para cumprir parte da visão escatológica do fim de Edom: por um lado, estimulava a culpa pós-colonial dos Estados europeus, para que os seus sofridos cidadãos aceitassem um fluxo torrencial de imigrantes, ao mesmo tempo em que comprávamos a panóplia de medidas liberticidas associadas à famosa “guerra ao terror”. Hoje em dia, com o aplauso acrítico e vergonhoso da maioria do arco parlamentar europeu, temos o “degolador” moderado Al Jolani, que também é líder da Frente Al Nusra (Al Qaeda na Síria), à frente do governo sírio. É um jihadista, mas é o nosso jihadista. A narrativa não poderia ser mais precária e, no entanto, os líderes capachos europeus continuam comprando isso como se fosse do mais elementar bom senso. É cada coisa que se vê…
Assim sendo, a situação na Europa beira a esquizofrenia. Enquanto brotam como cogumelos as opções políticas pretensamente soberanistas, convenientemente pastoreadas por serviços de inteligência próprios e alheios para combater a desafeição eleitoral, os causadores desse estado de coisas continuam se pavoneando na esfera internacional. Vejam, se não, a ridícula posição do VOX, atacando com histrionismo reiterativo a pretensa islamização da Espanha, enquanto permitem que os seus quadros sejam ocupados pelas hostes de David Hachuel e demais estômagos agradecidos ao sionismo. É tal o nível de sequestro da direita podre espanhola que um dos argumentos esgrimidos com recorrência nestes dias pelos seus “analistas” de aluguel televisivos é o de que a situação de fraqueza da Espanha frente ao Marrocos se deve ao fato de não estarmos bajulando o suficiente a Israel e aos seus amigos. É possível acaso ser mais capacho? Trono às causas, cadafalso às consequências.
No entanto, não posso deixar de negar essa visão escatológica do fim dos tempos. Embora eu considere que o declínio do Ocidente é uma realidade incontestável favorecida histericamente pelo sionismo, isso não implica de forma alguma o florescimento de Israel. Apesar das aparências, Israel se encaminha com enorme determinação para o seu desaparecimento como projeto político. Um Estado artificial, criado sobre a base do supremacismo asquenaze e da submissão dos países da região, um Estado que carece totalmente de incentivos para a paz, e cuja economia depende quase que exclusivamente de sua condição de base de operações militares do Ocidente no Oriente Médio, mais cedo ou mais tarde, acabará por sucumbir ante a nova correlação de forças multipolar que se desenha no horizonte. Se Edom cair, Yaakov cairá com ele.








