O aborto do feto com síndrome de Down e a espetacularização da vida privada

A única coisa que eu acho digna de comentário nesse caso do casal de Youtubers que decidiu abortar um feto porque descobriram que ele tinha síndrome de Down – para além do ruído superficial gerado pelo debate moral entediante – é quão facilmente as pessoas, em nossa época, se submetem voluntariamente ao tribunal da opinião pública virtual e depois se desesperam quando o “vox populi” diz “ad leones”.

Esses tecnobufões vivem da espetacularização da vida privada para um público de anônimos volúveis e virtualmente antissociais (e Baudrillard já discorreu sobre como os “reality shows” fomentam um certo sadismo anônimo nas massas – a “live” poderia até ser uma hipertrofia disso, com alguns casos de pessoas sendo torturadas até a morte ou se mutilando e agredindo, ao vivo, para gerar engajamento), participando na relativização contemporânea da distinção público/privado. A “atrocidade” de seu comportamento predata o aborto.

Em que medida poderíamos adivinhar que o “Show de Truman”, em vez de ser visto como terror, distopia e “cautionary tale”, passaria a ser reencenado infinitas vezes, numa lógica “do it yourself” por hordas de lumpemburgueses desesperados por seus 15 minutos de fama? Cada átomo social sendo o diretor, roteirista e cinegrafista da exposição pornográfica da própria existência diante de um público que é, na melhor das hipóteses, indiferente, mas que na pior das hipóteses é, realmente, sádico ao ponto do diabolismo.

Para mim, já é aberrante “anunciar ao mundo” (e, na internet, isso pode significar de alguns milhares a dezenas de milhões de pessoas) uma gravidez – algo sempre incerto, cheio de riscos e extremamente pessoal, íntimo. A exposição do milagre da concepção é capaz de transformar até tal momento tão inefável num ato pornográfico, numa vulgaridade indecente. Mas, bem, não esqueçamos que este é o mesmo mundo que concebeu o “ensaio sensual de grávida” para afagar a insegurança de mulheres neuróticas que não compreendem os estágios naturais da vida da mulher, e seus arquétipos (Virgem, Amante, Mãe, Anciã), bem como a naturalidade da passagem de um estágio ao outro, bem como aquilo que é adequado para cada estágio (em trajes, gestos, palavras, etc.).

Mesmo quem vive de internet deveria evitar esse tipo de coisa. A “máscara” é um meio, também, de se defender e de preservar a própria sanidade. Mesmo os que estamos aqui com nome próprio e foto estamos interpretando personagens e precisamos interpretar personagens, completamente alheios à nossa vida privada, se quisermos manter uma clareira de privacidade e liberdade na sociedade de vigilância permanente.

Mas, é claro, para quem já vive na promoção da onipresença do espetáculo, que deixa de estar “lá” para estar em todo lugar – todo homem um ator, um palhaço – nem mesmo consegue perceber seu papel na desconstrução de toda possibilidade de vida digna, inclusive para si.

E se ninguém deveria anunciar publicamente, na internet, sua gravidez, menos ainda anunciar um aborto, que para além de ser algo tão íntimo quanto uma gravidez, ainda é, por si só, trágico, vergonhoso e, em alguma medida, atroz – e isso mesmo quando se possa conceber hipóteses excepcionais de legitimação, como o risco de vida para a mãe. Um aborto, se feito, é algo a ser encarado com luto, e não como mais uma oportunidade para gerar engajamento e coletar simpatia monetizável.

Enfim, em mais de um sentido, muitas vezes o homem constrói para si o próprio inferno ao qual será condenado.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 59

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