“Napoleão: O Homem por Trás do Mito” – resenha

Se engana quem acha que apenas as biografias de líderes e homens famosos do século XX estão permeadas da parcialidade partidária de amigos e inimigos do morto. Napoleão não escapa a isso. Daí a dificuldade de encontrar biografias que, sendo completas, sejam também razoavelmente equânimes.

As de língua francesa, até as convictamente “republicanas” e as “reacionárias”, não deixam de conter certa dimensão hagiográfica. As de língua inglesa não raro tratam Bonaparte como o proto-Hitler. Um polonês étnico criado no Reino Unido parece um intérprete equilibrado – esses meus comentários não são despropositados, aliás, e o próprio autor ressalta essa dualidade entre demonologia e hagiografia em torno de Napoleão, e a singularidade de pertencer a uma etnia de simpatias bonapartistas num país hostil ao “Empereur des Français”.

“Napoleão: O Homem por Trás do Mito” é um imenso volume que nos guia partindo de sua história familiar na Córsega até sua derradeira morte na Ilha de Santa Helena. O livro não foca tanto nas batalhas ou nos aspectos táticos de suas campanhas, mas principalmente em elementos pessoais, relações, diplomacia e decisões políticas. Há outros bons livros sobre ele com enfoque militar.

O livro é grande demais para eu resumi-lo aqui, então só comentarei alguns aspectos.

Eu, particularmente, só consigo entender críticas monarquistas a Napoleão como sendo puramente formalistas ou ultramontanas. A monarquia francesa era, já, uma monarquia burguesa desde Luís XIV. A França estava em decadência, no mínimo, desde Luís XV, a aristocracia reduzida a cortesãos, o clero usualmente corrupto, o monarquia totalmente alienado. Guerras ruinosas e sem fim, sistema tributário totalmente irracional, fomento do Iluminismo pela própria monarquia. Infelizmente a bomba estourou nas mãos do seu filho, que simplesmente não estava preparado para lidar com o contexto insólito.

A Revolução foi o nigredo da França, levando o país ao fundo do abismo, num mergulho no inferno que, como ácido, dissolveu uma parte significativa daquilo que havia de podre e supérfluo na França, ainda que não sem atrozes danos colaterais. Bonaparte deu fim à Revolução. Impôs a necessária ditadura para liquidar o jacobinismo remanescente e superou a própria ditadura reerguendo a França como Império e restaurando a simbologia solar da nação de Carlos Magno, inclusive restaurando alguns elementos anteriores aos próprios Bourbon. A maior parte da aristocracia francesa retornou para casa, fundindo-se à aristocracia “do valor” criada no ferro e no fogo sob a liderança de Napoleão, empreendendo uma circulação renovadora da elite francesa. Mesmo a Vendeia foi, majoritariamente, pacificada através da clemência de Napoleão, que ademais também restaurou os direitos e a glória da Igreja francesa.

Seu projeto geopolítico, uma Europa unificada de Portugal até a Rússia, excluindo, porém, a Inglaterra, foi um dos mais ousados projetos telurocráticos da história. Sua noção de uma Europa com reinos e principados aliados num Sistema Continental de monarcas soberanos era superior tanto ao caos do já corroído, esvaziado e semimorto Sacro-Império Romano quanto à tirania burocrática da União Europeia, e sem a dimensão racista do projeto continental hitlerista.

Costuma-se criticar Napoleão por suas invasões terem espalhado as ideias liberais do Estado-nação, as quais levariam às revoluções liberais do século XIX. De fato, o seu Código Civil era repleto de ideias problemáticas, mas tudo isso só aconteceu porque Napoleão apostou algo e fracassou. O jacobinismo francês consagrou o Estado-nação, Napoleão então “trucou” o Estado-nação com uma “Europa das nações”, imperialmente governada a partir da França, superando dialeticamente o nacionalismo estreito.

Retornando à questão da circulação e renovação das elites, Napoleão demonstrou do que é feita, realmente, uma aristocracia – homens valorosos que se impõem pela vontade e pelo vigor e tomam de assalto o Estado, coroando a si mesmos pela força. “Legitimidade” é a capacidade de preservar aquilo que foi conquistado pelas armas. Assim nasceram todas as aristocracias e monarquias. A transformação disso em “direito hereditário” é a raiz da decadência desses tipos de sistemas políticos (vício em relação ao qual nem mesmo Napoleão estava isento, ao pretender que seu filho fosse seu herdeiro, mesmo sendo bebê). Os marechais e generais franceses lutavam na frente e, por isso, sua taxa de mortalidade era muito maior do que de outras nações, de modo que, de fato, eles mereceram ser transformados em condes, marqueses, duques e príncipes (ou, no caso de Murat, rei!).

Enfim, quanto a outros detalhes que transparecem na obra de Adam Zamoyski, a todo momento fica claro que a Inglaterra é o único país em guerra permanente contra Bonaparte e categoricamente contrário a negociar qualquer tipo de paz com os franceses. Outras fontes explicam que a City rolou tanta dívida que o país simplesmente colapsaria se não conquistasse uma vitória compensatória contra os franceses. Na prática, nesse período, o Banco da Inglaterra criou o “financismo” em larga escala com criação de moeda não-lastreada ex nihilo em massa para financiar a guerra.

A pérfida Albion também esteve por trás da inimizade entre França e Rússia. O embaixador britânico na Rússia financiou a conspiração que levaria em 1801 ao assassinato do Imperador Paulo, que havia fechado uma aliança antibritânica com Napoleão e, com ele, planejava uma campanha para libertar a Índia. É interessante como 100 anos depois também serão os britânicos a conspirar para a destruição do Império Russo. Seu sucessor, o Imperador Alexandre, muito influenciado pelas mulheres da corte, principalmente sua mãe, não conduziu sua diplomacia como seu pai, e a guerra com Napoleão foi tornando-se inevitável.

A dimensão pessoal de Napoleão, inclusive em suas falhas, também é bem explorada por Zamoyski. Josefina, de fato, foi uma fraqueza significativa, apesar de considerada por muitos como um “amuleto da sorte”. A decisão de executar o Duque de Enghien foi um erro crasso, a prisão do Papa Paulo VII foi totalmente desnecessária, o tratamento abusivo de Talleyrand um grande desperdício. Suas intervenções constantes nos assuntos internos dos reinos concedidos a seus irmãos, também, prejudicaram o seu projeto geopolítico.

Um outro aspecto digno de nota em Napoleão, também, é como ele foi mudando gradualmente com o tempo passado no poder. À época da guerra derradeira contra a Rússia, Napoleão Bonaparte já não tinha a mesma convicção, a mesma ousadia, a mesma rapidez de decisão. Ele havia se apaixonado e se tornado prisioneiro da pompa imperial e se deixado corromper pelo luxo. Ele não soube, também, tratar os poloneses bem o bastante, dando a eles a sua independência, por esperança de negociar com a Rússia. Ele não havia entendido que Alexandre não queria negociar. Assim, ele tomou a pior decisão possível, empreender uma desnecessária invasão da Rússia enquanto esperava reconquistar a amizade de Alexandre. Em vez disso, ele deveria ter dado à Polônia a sua independência e travado uma guerra defensiva no território polonês, até desgastar o Exército Russo. A insistência em ir penetrando a Rússia, por sua vez, só pode ser considerada húbris.

A fuga de Elba é a prova de que Napoleão ainda guardava algo de sua genialidade. A reconquista da França em poucos dias, a prova de que o povo o amava. Mas Napoleão já não era o mesmo. De novo, ele cometeu o erro de querer conduzir uma campanha preventiva fora do território francês, quando deveria ter atraído a coalizão inimigo para a França para transformar o conflito numa “guerra popular” como a que o alçou à glória no final do século XVIII. O povo francês não queria mais cruzar o mundo em campanha, mas pegaria em armas se ingleses, prussianos, austríacos e russos ameaçassem seus lares. Cansado, hesitante, fragilizado, enferrujado, cometeu erros crassos que levaram à derrota em Waterloo. No fim, ele não tinha mais o apoio da elite francesa, e talvez não tenha também se dado conta de que poderia contar com a população pobre de Paris para uma última resistência.

Enfim, encontrou seu exílio final e morte em Santa Helena. E Zamoyski demonstra muito bem, sem sombra de dúvida, que Napoleão foi propositalmente mal tratado pelos ingleses para provocar seu rápido adoecimento e morte.

Ao longo do amadurecimento de seu governo, Napoleão sempre ela colocado diante da questão da possibilidade de recuar, de insistir na paz a qualquer custo ou de, simplesmente, aceitar derrotas e vexames como parte normal de governar nações. Mas a crença inabalável de Napoleão era que outros governantes estavam mais firmemente seguros em seus tronos, ele não. Tendo conquistado o trono pela força, pelo mérito militar, ele sentia a necessidade de estar constantemente provando esse merecimento através de campanhas vitoriosas, de modo que acreditava que seu Império não resistiria caso ele não pudesse mais vencer. Isso tinha um fundo de razão, mas também o levou a tomar decisões ruinosas (a insistência na guerra com a Rússia, cruzar as fronteiras francesas em 1815) que, simplesmente, aceleraram a sua queda.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 59

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