Virilidade Olímpica, Virilidade Titânica e a Ignorância Feminina sobre o “Homem de Verdade”

Essa semana discutiu-se na internet sobre “homem de verdade”, com uma moça “antifeminista” defendendo que “mulher não gosta de homem bonzinho”, fazendo a descrição do “homem de verdade” como sendo aquele que está sempre disposto a entrar em brigas diante de qualquer problema ou situação desconfortável, bem como apelando a arquétipos ficcionais como os d'”A Bela e a Fera”.

A maioria dos homens, rapidamente, percebeu a armadilha aí. A lógica é a de mulheres que parecem ter uma fixação ou tara, que poderíamos até considerar algo como uma “tanatofilia”, que torna atraente para elas homens em situações perigosas e que, por isso, incentivam namorados a agirem de maneira temerária em público – diante de uma possível resistência masculina, a ferramenta usada é o insulto à virilidade.

Muitas mulheres querem que seus namorados entrem em brigas por elas porque isso aumenta sua autoestima, além de mexer com o tipo de tara que eu descrevi acima. Esse é o mesmo tipo de mulher que, certamente, arrumaria rapidamente outro homem no caso em que o seu namorado idiota morresse numa briga inútil de bar, e muito provavelmente arrumaria outro homem caso seu namorado perdesse uma briga. Não por acaso, esse também parece ser um dos tipos de mulher mais propensos a sofrerem violência doméstica.

O pano de fundo disso tudo parece ser uma dificuldade de compreensão, por parte da mulher, do que seria a masculinidade, quais seriam seus contornos, limites e marcadores.

A mulher, aparentemente, identifica a masculinidade ou virilidade através de arroubos de agressividade e da aplicação ou ameaça de brutalidade. Interessantemente, isso não transparece apenas em mulheres que pretendem, supostamente, reforçar identidades de gênero, mas também na crítica feminista e pós-gênero à “masculinidade” que toma como base a violência doméstica. Em ambos casos, as mesmas características são identificadas como traços e expressões típicos da masculinidade “tradicional”. É possível que alguns influenciadores, coaches, etc., supostamente “masculinistas” também reforcem esse tipo de percepção.

Felizmente, as reflexões sobre “crise da masculinidade” não começaram ano passado, e há autores do início do século XX que, ao identificarem uma crise em algo outrora tomado como garantido, ensinaram a distinguir bem as várias possíveis expressões da masculinidade e hierarquizá-las entre tipos superiores e inferiores, ou autênticos e inautênticos.

Aqui podemos remeter a Julius Evola que escreveu bastante sobre este tema. De fato, em toda reflexão sobre masculinidade ele deve ser tomado como ponto de referência conceitual.

Em Revolta Contra o Mundo Moderno, ele comenta o seguinte:

“A primeira possibilidade é precisamente a titânica em sentido negativo, com referência ao espírito de uma raça materializada e violenta, que já não reconhece a autoridade do princípio espiritual correspondente ao símbolo sacerdotal, ou seja, ao «irmão» espiritualmente feminino (por exemplo, Abel diante de Caim), e se afirma, se bem que não se aposse, por assim dizer de surpresa, e para um uso inferior, de conhecimentos aptos a assegurar um domínio sobre certas forças invisíveis das coisas e do homem. Trata-se, portanto, de uma sublevação prevaricadora, de uma contrafação daquilo que poderia ser o direito próprio aos precedentes «homens gloriosos», isto é, à espiritualidade viril ligada à função de ordem e de domínio de cima. É Prometeu que usurpa o fogo celeste em favor das raças meramente humanas, mas que não é tal que saiba suportá-lo, pelo que ele se torna para ele fonte de tormento e de danação até que um outro herói, mais digno, reconciliado com o princípio olímpico – com Zeus – e aliado com ele na luta contra os Gigantes – Héracles – vai libertá-lo.

É a raça «em muito inferior» tanto por natureza, φυή, quanto por mente, νόημα, a qual, segundo Hesíodo, já após a primeira idade recusa em relação aos deuses, abre-se às forças telúricas (no final do seu ciclo, ela se torna – segundo Hesíodo – a raça dos demônios subterrâneos, υποχθόνιοι), onde preludia uma geração sucessiva agora mortal, caracterizada apenas pela pertinácia, pela força material, pelo prazer selvagem pela violência, a guerra e a superpotência (a idade do bronze de Hesíodo, a idade do aço segundo os iranianos, dos gigantes – Nephelin – bíblicos). […] Mas «por mais espantosos, colhe-os a morte negra» e eles desaparecem na úmida (εύρώεντα) morada de Hades. […]

De qualquer modo, e em geral, segundo a tradição nórdica os «tempos de machado» teriam aberto a via ao desencadeamento das forças elementares, as quais terminam por arrasar a raça divina dos Aesires – que aqui pode corresponder àquela das forças residuais da estirpe áurea – e por infringir as barreiras da «fortaleza no centro do mundo», expressando figuradamente os limites criadores postos pela espiritualidade «polar» primordial. O aparecimento de mulheres – viu-se já – com o significado de uma espiritualidade não mais viril, tinha preanunciado o «crepúsculo dos Aesires», o fim do ciclo de ouro. E eis que a força obscura que os próprios Aesires tinham nutrido, mas que eles antes mantinham acorrentada – o lobo Fenrir, aliás: os dois lobos – vem a «crescer desmedidamente». É a prevaricação titânica, à qual se segue imediatamente a revolta e a emergência de todas as potências elementares, do Fogo infernal do Sul, dos seres da terra – hrímthursen – antes mantidos fora dos muros de Asgard. O vínculo está quebrado. Após o «tempo de machado» (idade do bronze) não apenas o Sol, «que perdeu a sua força», mas com ele também a Lua é devorada pelos dois Lobos: isto é, não apenas a espiritualidade solar mas também aquela lunar, demetérica, tem fim. Odin, rei dos Aesires, cai – e o próprio Thor, que tinha conseguido matar o lobo Fenrir, sucumbe ao seu veneno, termina isto é por ter corroído a própria natureza divina de Aesires pelo princípio letal que lhe é transmitido por tal criatura selvagem. O destino ou ocaso – rök – se cumpre com o desabamento do arco Bifrost que une céu e terra: é – após a revolta titânica – a Terra deixada a si mesma, privada de toda conexão com o divino. É a «idade escura» ou «do ferro», depois daquela do «bronze».”

Esta longa passagem serve para expressar a oposição que existe entre uma virilidade solar, luminosa, celestial, e uma virilidade telúrica, ctônica, elementar. Esta última se ergueria em revolta contra uma espiritualidade feminina, lunar, mas não em nome de uma restauração da virilidade tradicional.

Agora, o que distingue essa virilidade tradicional da selvageria primitiva dos gigantes e titãs? A natureza dessa virilidade tradicional, segundo Evola, é claramente apolínea. Ou seja, ela é ditada por um certo pathos de distância, frieza, controle e impassividade, traços que são expressões emocionais e ativas da referência interior ao princípio transcendente, cuja representação simbólica é o Sol – não o Sol material que “nasce” e “se põe”, mas o Sol eterno e imóvel, o Sol que É.

A selvageria e a brutalidade, o mergulho no turbilhão elemental, o ser tomado pelas emoções de modo a não ser mais capaz de se controlar, seja sexualmente ou violentamente (ou ambos!), traços que aparecem nas descrições antropológicas de tipos humanos primitivos, como os neanderthais, mas também de raças míticas decaídas, como os atlantes dos tempos finais, representam uma decadência do princípio viril. Mesmo quando essa masculinidade selvagem se “revolta” contra a ginecocracia, não se trata de uma revolta que aponta para a substituição da ordem ginecocrática por um princípio superior, e sim uma mera agitação violenta contra todo senso de ordem.

Em Metafísica do Sexo, obra fundamental de referência, Evola, apoiando-se principalmente em Bachofen, constrói uma escala morfológica de expressões da virilidade, associando-as simbolicamente às representações mítico-populares de determinados Deuses. No nível mais baixo da masculinidade, por exemplo, encontrar-se-ia o tipo telúrico-poseidônico tal como aparece nos mitos de Dioniso ou de Poseidon (ou outros Deuses) em que eles aparecem simplesmente como princípio da fecundação. É a virilidade como exacerbação da sexualidade fálica e também como a brutalidade associada a essa sexualidade. Por mais contraditório que possa parecer, para a mentalidade simplória, o homem fálico é, fundamentalmente, um homem subordinado ao feminino. Na medida em que o homem é fundamentalmente fecundador, o seu centro de referência é a mulher que recebe a sua semente e, portanto, ele é escravo da mulher. Logo acima estaria o simbolismo masculino de Hefesto, Deus de um fogo que ainda é uma chama meramente material e selvagem, do homem como produtor, homem-econômico, provedor, e que tem sua contraparte na feminilidade afrodítica em sua face evitativa (o que é expresso, no mito, pelas constantes traições conjugais de Afrodite, esposa de Hefesto, com seu amante Ares). Mais acima temos já outro Dioniso, o Dioniso dos mistérios, associado ao Sol, mas um Sol que nasce, morre e ressuscita e que, por isso, permanece pareado com uma Deusa Mãe, ainda que não já numa função subordinada. Acima do dionisíaco solar, está a virilidade heroica de Ares e de Héracles, como uma virilidade que não é mais guiada pela mulher, mas que toma e domina o feminino, subjugando-o com naturalidade, nunca se dobrando a ele, o que é simbolizado pelos vários desafios de Héracles que lhe permitem ascender à divindade e tomar como esposa a própria Deusa da juventude após conquistar o Jardim das Hespérides, símbolo do triunfo alquímico e espiritual. E no cume, está a virilidade ascética de Apolo, a masculinidade quase inatingível das afirmações e negações absolutas, do Sol puramente transcendente, e que só é emulada pelos grandes santos, sábios, gurus e líderes. Nesses espaços, a mulher ou aparece como o grande ausente ou como expressão da entrega e da devoção absolutas, do amor que é dado por devoção ao homem superior sem esperar recompensa.

Aqui fica bastante claro que estamos lidando com um refinamento conceitual que está infinitas léguas de distância de todo o conteúdo “masculinista” (inclusive o das mulheres), bem como da misandria feminista.

Agora, por que a mulher tem uma certa dificuldade de ver para além das expressões inferiores da masculinidade? Um motivo possível pode ser a própria decadência social geral. Na medida em que as próprias expressões superiores de virilidade se tornaram mais raras, e na medida, também, em que o tipo do homem-eunuco ou do homem-feminizado se espalhou, e conforme a própria ginecocracia passou a tentar impor este tipo do homem-eunuco como homem ideal, qualquer contraste aparente a este tipo talvez apareça como solução e superação. Diante do homem-eunuco, o homem-fálico. Mas o homem-fálico não é nem a negação, nem a superação do homem-eunuco, tão somente uma outra forma de desvio.

O homem-eunuco é o homem visto a partir da perspectiva da ginecocracia e da hegemonia da Grande Mãe, em seu destino como castrado, se não fisicamente, pelo menos espiritualmente e psicologicamente. O homem-fálico, na melhor das hipóteses, não passa de um zangão, mas segue existindo sob a lógica da ginecocracia e da Grande Mãe. Ele não é a negação do homem-eunuco, apenas um tipo mais alto na hierarquia da Grande Mãe. Colocando em termos vulgares contemporâneos, o homem-eunuco é o destino do homem visto como sexualmente indesejável na ginecocracia, mas o homem-fálico não passa do destino do homem desejável na ginecocracia. Ele pode não perceber, mas ele ainda serve ao Feminino. Talvez muitas mulheres só consigam pensar nesses termos por estarem elas próprias presas à lógica férrea do Logos de Cibele e da sociedade ginecocrática.

A título de conclusão é interessante perceber essa incompreensão feminina da masculinidade como uma das causas de incontáveis outros problemas nas relações homem/mulher. Simbolicamente, se quando pensa no homem, seja como objeto de desejo ou objeto de ódio, ela só consegue pensar nos caracteres exacerbados, histéricos e desproporcionais dos gigantes e titãs, ela se torna cega para a virilidade fria, até mesmo tranquila, dos deuses e heróis olímpicos.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 58

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