Em primeiro lugar, pela enésima vez é necessário insistir que a questão da identidade (ou seja, o identitarismo) não é um epifenômeno secundário ou acidental que possa ser colocado de volta na “caixa”, através de um retorno às molduras mentais dos séculos XVIII e XIX (positivismo, cientificismo, materialismo, empirismo, etc.).
A erupção do identitarismo é um momento em um processo dialético que se desdobra na tensão entre enraizamento e cosmopolitismo. A identidade, na pré-modernidade, era usualmente um pertencimento implícito na medida em que “dado” (portanto, era mais uma “identitariedade” que um “identitarismo”), e só era tematizada excepcionalmente, quando a identidade era posta em questão e ameaçada por um “Outro”.
Considerando que os processos políticos, econômicos e culturais da modernidade apontam na direção do desenraizamento e, portanto, num universalismo cada vez mais total e abrangente, era uma reação óbvia a erupção da identidade sob a forma do identitarismo, que é a politização da identidade. Sem cosmopolitismo e universalismo não é nem mesmo concebível que haja, como reação, o identitarismo.
Na medida em que há cosmopolitismo e universalismo, o identitarismo é uma reação justa e necessária, já que os processos de desenraizamento inaugurados pelo universalismo ocidental correm em paralelo com as tendências de decadência, ou seja, de queda na inautenticidade, de suplantação da “qualidade” pela “quantidade”, na horizontalização de todas as relações, numa crescente sobreposição do interesse econômico sobre as questões superiores.
O que o identitarismo busca, portanto, é um reenraizamento, uma retomada da lógica dos pertencimentos comunitários que exorcize a ameaça cosmopolita. Pela própria natureza dos processos históricos, o resultado será uma síntese entre o concreto e o abstrato naquilo que pode ser abstratamente concebido como fundamental para alimentar a concretude presente. Traduzindo: noções de identidade nacional, de identidade civilizacional, e até mesmo de alguma perspectiva planetária ou humanitária basilar não podem ser simplesmente descartadas.
Agora, saltando do geral para o particular, ou seja, para o futebol, boa parte do debate atual sobre o futebol é identitário, o que é um ótimo sinal.
Primeiro, há o debate sobre o quão representativos os jogadores da seleção são em relação aos povos de suas nações. Os progressistas tomam a França, a Inglaterra, a Bélgica e a Alemanha como símbolos das benesses do cosmopolitismo e do universalismo. Na contramão, cidadãos desses países não raro se recusam a torcer por suas seleções por uma falta de identificação com jogadores que não são capazes de traçar nem mesmo 3 gerações de nativos do país pelo qual jogam e que usualmente nem cantam o hino nacional. Simultaneamente, independentemente de “raça”, elogia-se certos times ibero-americanos, africanos e asiáticos por sua “paixão”, atrelada a uma maior identificação com a nação.
Em paralelo, debate-se o papel da imigração como motor de uma “fuga de talentos” que priva os países de emigrantes das chances de montarem seleções mais fortes, em prol de artificialmente inflar as seleções europeias.
Mas o debate não é apenas sobre temáticas demográficas e étnicas, ele envolve também questões de “estilo”.
É bastante evidente para leigos e especialistas que o futebol de cada nação (ou pelo menos das nações com história mais longa) possui a sua própria “identidade”. Existe um “ser” do futebol brasileiro, outro do futebol italiano, ainda outro do futebol holandês, e assim por diante, e aí discute-se em que medida cada seleção é uma boa representante de si mesma, ou em que medida cada seleção se desenraizou em prol de uma padronização tecnocrática gestada na Europa.
Este é, uma vez mais, o debate entre cosmopolitismo/universalismo e patriotismo/identitarismo. Na reflexão sobre a decadência do futebol brasileiro, há quase uma unanimidade na crença de uma desconexão geracional com aquilo que seria um “futebol brasileiro”. Os jogadores são exportados cedo demais e são rapidamente domesticados para que joguem em conformidade com o padrão tecnocrático da moda na Europa, preocupado com eficiência quantificável. Quando vestem a camisa da seleção, já não são capazes de jogar “como brasileiros”. Outras seleções debatem o mesmo, aliás, ao mesmo tempo que salta aos olhos o quão “argentina” é a seleção argentina, o “espírito da Libertadores” da seleção paraguaia, etc.
O fato de situarmos a questão do futebol brasileiro nesta chave identitária é interessante em si porque, de fato, o problema do futebol brasileiro passa por uma reflexão sobre o abandono do “futebol-arte” na era da tecnocracia, do VAR e da guardiolização.
Mas talvez também nos eduque para superar a visão retrógrada que se tem em relação ao tema, especialmente no “campo nacionalista”, que insiste em apelar a um retorno do Iluminismo, com seu universalismo cosmopolita, fazendo coro ao ex-ministro Barroso.








