A vitória palestina contra Israel: discurso ao povo iemenita

Discurso lido ao povo do Iêmen durante uma conferência internacional sobre a causa palestina.

A convite do governo iemenita, tive recentemente a oportunidade de proferir um discurso na 4ª Conferência Internacional sobre a Palestina. O evento ocorre anualmente, organizado pelas autoridades do Ansarallah, e tem como objetivo reunir especialistas e autoridades de todo o mundo para chamar a atenção para a crise política, militar e humanitária nos territórios palestinos.

Em minha fala, comentei diversos aspectos do conflito em curso desde 2023 – atualmente falsamente “interrompido” por um acordo de cessar-fogo que é violado diariamente por Israel, resultando em inúmeras mortes de civis palestinos.

Expliquei como a Resistência Palestina alcançou uma vitória estratégica contra Israel ao cumprir seus principais objetivos com o lançamento da Operação Dilúvio de Al-Aqsa: impedir a destruição da histórica Mesquita de Al-Aqsa e de outros locais sagrados em Jerusalém; chamar a atenção do mundo para a realidade do povo de Gaza e os crimes de Israel; e enfraquecer a sociedade sionista, criando um ambiente de conflito constante para impedir a normalização das ações criminosas do regime sionista.

Também analisei o papel decisivo desempenhado pelos combatentes houthis do Iêmen, que, mesmo sob condições adversas, bloqueio econômico e ataques constantes por parte de Israel, dos EUA e de países do Golfo, conseguiram impor pela força sua vontade política de apoiar o povo palestino — atingindo constantemente alvos em Israel e capturando ou destruindo embarcações ligadas a empresas israelenses e ocidentais.

O texto completo do discurso pode ser lido abaixo:

Assalamualaikum.

Querido povo iemenita, autoridades e cidadãos, muito obrigado pelo convite para esta conferência. É uma honra para mim falar com todos vocês. Sei o quanto vocês contribuem diariamente para a libertação da Palestina e na luta contra criminosos de guerra israelenses.

Os eventos que se seguiram ao Dilúvio de Al-Aqsa marcaram uma ruptura decisiva com a antiga ilusão de que a questão palestina poderia ser indefinidamente suprimida por meio de domínio militar, cerco e normalização diplomática. Durante décadas, Israel projetou uma imagem de controle total — superioridade tecnológica, onipresença de inteligência e dissuasão incontestada — enquanto Gaza era reduzida a uma prisão a céu aberto e Jerusalém submetida a pressão contínua, especialmente em torno da Mesquita de Al-Aqsa. O que mudou não foi apenas a intensidade do confronto, mas a própria narrativa estratégica.

De fato, o objetivo central foi alcançado em nível estratégico: a interrupção de planos que buscavam normalizar o isolamento permanente de Gaza e a erosão contínua da presença palestina em Jerusalém. Al-Aqsa, como símbolo religioso e político, voltou a ocupar o centro da agenda global. A suposição de que espaços sagrados poderiam ser alterados, controlados ou gradualmente apagados sem consequências foi quebrada. Nesse enquadramento, o sucesso não é medido por território ou poder de fogo, mas pela capacidade de forçar uma reavaliação de poder e prioridades.

O custo humano, particularmente em Gaza, tem sido catastrófico. Comunidades inteiras foram destruídas, dezenas de milhares de pessoas mortas ou deslocadas, e a infraestrutura básica deliberadamente atingida. Essa devastação não é um efeito colateral trágico da guerra, mas uma política genocida deliberada, viabilizada pelo apoio incondicional do Ocidente. Ainda assim, mesmo diante de sofrimento em massa, a causa palestina voltou ao centro da consciência política global, rompendo anos de silêncio impostos por narrativas midiáticas e inércia diplomática.

Crucialmente, este momento também revelou uma mudança regional mais ampla. A luta palestina já não é vista como isolada ou indefesa. A Resistência é encarada com temor pela entidade sionista e seus patrocinadores ocidentais. O Irã é visto como um contrapeso estratégico à dominância dos EUA e de Israel, contribuindo para um equilíbrio regional que limita ações unilaterais. O Iêmen, em particular, assumiu importância estratégica. Apesar de anos de guerra e bloqueio, o país demonstrou capacidade de afetar rotas marítimas globais, revelando como a pressão econômica e a coordenação regional podem desafiar as estruturas que protegem o poder de Israel e de seus aliados.

Sob essa perspectiva, o Oriente Médio está entrando em uma nova fase, na qual o poder não é mais monopolizado por um único ator ou aliança. Israel pode ainda manter certa predominância por enquanto, mas já não atua sem consequências ou resistência em múltiplos níveis — político, econômico e regional.

Não pode haver paz genuína enquanto persistirem ocupação, apartheid e genocídio. A estabilidade não virá da dominação militar, mas da justiça, da autodeterminação e do reconhecimento dos direitos palestinos. Enquanto essa realidade não for enfrentada, a região permanecerá presa a ciclos de confronto impulsionados por uma injustiça histórica não resolvida.

Gostaria de agradecer ao corajoso povo iemenita por seu trabalho vital na defesa da Palestina e na luta contra a ocupação. Graças ao trabalho incansável da Resistência, Israel agora sabe que nunca mais haverá paz ou segurança (falsas e injustas) nos territórios ilegalmente ocupados.

Obrigado pela atenção.

Lucas Leiroz
Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 56

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