Russofobia e intolerância à Igreja Ortodoxa no exterior

No dia 23 de maio, o jornalista Lucas Leiroz, secretário de relações internacionais da Nova Resistência, participou da conferência internacional “Religious Factors in Modern International Relations”, organizada pela “Youth Association for International Cooperation and Development”.

Leiroz apresentou um breve relatório sobre ataques à Igreja Ortodoxa ao redor do mundo em meio à atual onda de russofobia incitada pelo Ocidente Coletivo e pelo regime de Kiev como resposta à operação militar especial russa nas fronteiras com a Ucrânia. Seu foco foi sobre ataques ocorridos em países neutros, como Brasil e Argentina.

Também foram feitos alguns apontamentos sobre como a Igreja pode atual diplomaticamente para ajudar a superar a onda russofóbica. Leiroz comenta que a Ortodoxia é, além de uma via religiosa, uma ponte cultural para o conhecimento profundo da Rússia, razão pela qual tanto tentam “cancelá-la”.

Segue a tradução de sua fala, assim como o original em inglês.

Meu nome é Lucas Leiroz, sou um jornalista brasileiro e analista geopolítico que trabalha na mídia russa. Também sou cristão ortodoxo, frequento a Igreja Russa no Brasil desde meu batismo há seis anos.

Como sabemos, desde o início da operação militar especial de Moscou nas fronteiras russas, uma grande onda global de russofobia foi incitada, atingindo não apenas militares e oficiais de Estado, mas também civis, pessoas comuns e todos os tipos de indivíduos e instituições de alguma forma relacionados com a Rússia.

Obviamente, isso inclui a Igreja Ortodoxa, que é a fé da maioria do povo russo e do próprio povo ucraniano, embora o regime de Kiev a tenha banido como resultado de suas políticas racistas de desrussificação cultural. A intenção da Ucrânia parece ser apagar completamente o fator russo de sua história, mesmo que isso signifique apagar a própria existência da Ucrânia. E esse desejo é compartilhado por aqueles que financiam o regime e a máquina de guerra anti-russa.

No entanto, o principal problema é que esta situação de ódio étnico anti-russo não se limita às fronteiras da zona de combate. Há relatos de incidentes de racismo anti-russo em todo o mundo, particularmente em países ocidentais aliados do lado ucraniano no conflito. E, claro, estes mesmos incidentes ocorrem contra a Igreja Ortodoxa.

Não há tempo aqui para comentar sobre cada um desses casos, mas enfatizo que eles também estão ocorrendo fora dos países aliados da Ucrânia (onde há mentalidade anti-russa como hegemonia). A onda russofóbica e anti-ortodoxa já atingiu países neutros, como as nações latino-americanas.

Digo isso como espectador no terreno. Igrejas ortodoxas russas no Brasil e na Argentina têm sido vandalizadas desde o ano passado. Uma prática que já se tornou comum no mundo todo e é bastante replicada por aqui é a pichação da letra “Z” na porta das igrejas russas. Isso funciona como uma espécie de senha para que outros militantes identifiquem aquele local como um centro pró-Rússia a ser danificado e destruído. No Rio de Janeiro, em Brasília e em Buenos Aires, onde está sediada a Diocese Russa na América Latina, isso aconteceu repetidas vezes. Em Brasília, vândalos chegaram a apedrejar a casa de um padre brasileiro ligado ao Patriarcado de Moscou.

Diante de problemas como este, surge a pergunta: como podemos resolvê-lo? Como controlar o frenesi russofóbico e restaurar o amor entre as pessoas?

O Ocidente coletivo defendeu publicamente os valores como democracia e liberdades civis por décadas. Medidas radicais, às vezes até guerras, foram tomadas para supostamente defender a liberdade. O problema é que assim que os interesses ocidentais são “ameaçados” por essas mesmas liberdades, torna-se conveniente oprimi-las. Isso é o que está sendo feito agora no que diz respeito à Rússia.

A tentativa de “cancelar” os russos é um ataque direto a todas as liberdades democráticas. A Igreja está sendo relacionada com a política russa, tornando-se praticamente um crime no Ocidente. E embora esta percepção esteja errada, ela também traz algumas chaves para entender melhor o problema.

Conhecer a Igreja Ortodoxa Russa não é apenas um caminho de conversão espiritual, mas também uma porta de entrada para a profunda cultura russa. Somente conhecendo aspectos elementares da Ortodoxia e do legado Ortodoxo na Rússia é possível entender mais adequadamente a história russa, a cultura russa, a mentalidade russa e fundamentalmente as razões pelas quais a Rússia tem interesses fundamentais na pacificação de seu entorno estratégico – que é historicamente o território canônico russo.

Há um problema complexo porque as razões pelas quais alguns grupos estão tentando cancelar a Igreja Russa são precisamente as razões pelas quais a Igreja pode ajudar a neutralizar a onda russofóbica. A Igreja funciona como um instrumento de diplomacia pública e cultural. Ele conecta as pessoas à Rússia, numa relação muito mais ampla do que o fator meramente religioso. Grupos militantes interessados em cancelar a Igreja querem fazê-lo para evitar que ela se torne uma chave para reverter o frenesi antirrusso, que atende aos interesses geopolíticos do chamado Ocidente Coletivo.

Isso exige que a Igreja atue mais ativamente na diplomacia cultural, especialmente em países neutros, áreas ainda em disputa, onde a mentalidade antirrussa ainda não é hegemônica. Isso também requer que autoridades russas atuem em parceria com a Igreja para alcançar tais objetivos, o que impulsiona o conceito ortodoxo de “sinfonia”, que é uma cooperação mutuamente benéfica entre a Igreja e o Estado, sem sobreposição mútua.

Esta é uma questão existencial para a Rússia e para a liberdade da religião tradicional russa no exterior. Esta é a minha percepção como alguém familiarizado com a Igreja, as relações internacionais da Rússia e com os países neutros.

Original in English:

My name is Lucas Leiroz, I’m a Brazilian journalist and geopolitical analyst working in Russian media. I’m also Orthodox Christian, attending the Russian Church in Brazil since my baptism six years ago.

As we know, since the beginning of Moscow’s special military operation on Russian borders, a great global wave of Russophobia has been incited, reaching not only military and state officials, but also civilians, ordinary people and all sorts of individuals and institutions in some way related to Russia.

Obviously, this includes the Orthodox Church, which is the faith of the majority of the Russian people and the Ukrainian people itself, even though the Kiev regime has banned it as a result of its racist policies of cultural derussification. Ukraine’s intention seems to be to completely erase the Russian factor from its history, even if that means erasing Ukraine’s very existence. And this desire is shared by those who fund the regime and the anti-Russian war machine.

However, the main problem is that this situation of anti-Russian ethnic hate is not limited to the borders of the combat zone. There are reports of incidents of anti-Russian racism across the world, particularly in Western countries allied with the Ukrainian side in the conflict. And, of course, these same incidents occur against the Orthodox Church around the world.

There is not enough time here to comment on each of these cases, but I emphasize that they are also occurring outside the allied countries of Ukraine with anti-Russian mentality as hegemony. The Russophobic and anti-Orthodox wave has already reached neutral countries, such as Latin American nations.

I say this as a viewer on the ground. Russian Orthodox churches in Brazil and Argentina have been vandalized since last year. A practice that has already become common all over the world and is quite replicated here is the graffiti of the letter “Z” on the door of Russian churches. This works as a kind of password for other militants to identify that place as a pro-Russian center to be damaged and destroyed. In Rio de Janeiro, in Brasilia and in Buenos Aires, where the Russian Diocese in Latin America is based, this happened again and again. In Brasilia, vandals even stoned the house of a Brazilian priest linked to the Patriarchate of Moscow.

Faced with problems like this, the question arises: how can we solve it? How to control the Russophobic frenzy and restore love among people?

The collective West has publicly defended the values of democracy and civil freedoms for decades. Radical measures, sometimes even wars, have been taken to supposedly defend liberty. The problem is that as soon as Western interests are “threatened” by these same freedoms, it becomes convenient to oppress them. This is what is being done now as far as Russia is concerned.

The attempt to “cancel” the Russians is a direct attack on all democratic freedoms. Church is being related to Russian politics, thus becoming virtually a crime in the West. And although this perception is wrong, it also brings some keys to better understand the problem.

Knowing the Russian Orthodox Church is not only a path of spiritual conversion, but also a gateway to deep Russian culture. Only by knowing elementary aspects of Orthodoxy and the Orthodox legacy in Russia it’s possible to understand more appropriately Russian history, Russian culture, Russian mentality and fundamentally the reasons why Russia has fundamental interests in the pacification of its strategic environment – which has been historically Russian canonical territory.

There is a complex problem because the reasons why some groups are trying to cancel the Russian Church are precisely the reasons why it can help to neutralize the Russophobic wave. The Church works as an instrument of public and cultural diplomacy. It connects people to Russia, in a much broader relationship than the merely religious factor. Militant groups interested in canceling the Church want to do so in order to avoid it becomes a key to reversing the anti-Russian frenzy, which serves the geopolitical interests of the so-called Collective West.

This calls for the Church to act more actively in cultural diplomacy, especially in neutral countries, which are still disputed areas, where anti-Russian mentality is not hegemonic yet. It also calls on Russian authorities to act in partnership with the Church to achieve such goals, which drives the Orthodox concept of “symphony”, which is mutually beneficial cooperation between Church and State, without overlapping one another.

This is an existential question for Russia and for the freedom of Russian traditional religion abroad. This is my perception as someone familiar with the Church, Russia’s international relations and neutral countries.

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Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 595

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