Voltando-se para o Leste

O Sol e o Espírito sempre nascem no Leste… Parece que o Ocidente, em breve, mergulhará no caos e na escuridão, e a Rússia continuará a se voltar para o Leste.

A Rússia é a terra do sol nascente, disse o presidente russo Vladimir Putin no dia 5 de setembro, durante uma reunião com ativistas do fórum ambiental em Kamchatka. No mesmo dia, o governo russo decidiu retirar-se do acordo com o Japão sobre o procedimento de visitas mútuas e facilitadas de cidadãos japoneses a seus familiares radicados nas ilhas de Kunashir, Iturup e Cadeia Menor de Kuril. Esse acordo estava em vigor desde 1999.

No mesmo dia, o Fórum Econômico Oriental foi aberto em Vladivostok, contando com a presença de muitos delegados não apenas da Rússia, mas também de outros países, incluindo altos funcionários. Ao mesmo tempo, os exercícios militares Vostok-2022, que abrangem cinco campos de treinamento e as águas de dois mares – o Mar de Okhotsk e o Mar do Japão – já estavam em andamento. Dois antagonistas de longa data, China e Índia, estavam envolvidos.

Mesmo de forma isolada, esses eventos parecem bastante impressionantes. E as decisões tomadas terão consequências de longo alcance. Embora seja assim que se fale de alguma ação confrontante, ainda nesse contexto é possível falar dos aspectos positivos da política da Rússia. A perspectiva de criar outra cidade no Extremo Oriente com uma zona econômica livre está se abrindo. Estão a ser implementadas medidas de estímulo financeiro e econômico. Perspectivas adicionais também estão se abrindo na atividade econômica externa.

Myanmar (cuja liderança esteve presente no fórum de Vladivostok) vai comprar petróleo russo. No contexto da diversificação do fornecimento de energia, o novo acordo entre Rússia e China sobre a transição completa para o rublo e o yuan em acordos mútuos é uma notícia importante. A quantidade total de gás natural fornecida aumentará para 48 bilhões de metros cúbicos por anos. Para efeito de comparação, a capacidade de duas cadeias do Nord Stream é de 55 milhões de metros cúbicos por ano, embora o volume total de fornecimentos para a Europa e Turquia juntos tenha sido de 135,75 bilhões de metros cúbicos (dados de 2020).

Assim, só a China poderá comprar mais de 30% do volume europeu de gás. Isso indica uma verdadeira virada para o Oriente. Mais especificamente, para o Sudeste Asiático, que está se tornando o motor da economia mundial.

Deve-se notar que o conceito de recorrer aos países asiáticos remonta à era do Império Russo. A doutrina do “orientalismo” foi proposta pelo príncipe Esper Ukhtomsky. Em seu pequeno mas perspicaz livro, “To the Events in China: On the Relations of the West and Russia to the East“ (Para os eventos na China: Sobre as relações do Ocidente e da Rússia com o Oriente), Ukhtomsky observou a importância da interação com os países desta região, as tentativas das potências ocidentais de semear desconfiança em relação à Rússia e o mau entendimento geral do seu potencial por parte dos políticos europeus. Mesmo assim, Esper Ukhtomsky notou que a China não estava dormindo, como acreditam os imperialistas da Europa Ocidental, mas antes despertando para o movimento; o país era “tão poderoso e enorme que é difícil imaginar no que se transformará em algumas décadas.”

Como podemos ver, as previsões de Ukhtomsky se tornaram realidade. Assim como o eurasianismo, outro movimento ideológico que nasceu há um século, durante a emigração branca, está se tornando uma realidade. Os eurasianos criticaram a cultura e a política decadentes da Europa por sua natureza explicitamente racista, e propuseram o conceito de Rússia-Eurásia como uma unidade cultural e histórica distinta da Europa e das culturas asiáticas únicas e com suas próprias identidades.

O fortalecimento da soberania da Rússia, como observado por Vladimir Putin no Fórum Econômico Oriental, se encaixa perfeitamente no conceito de eurasianismo, especialmente pelo fato de a Rússia ser o carro-chefe da União Econômica Eurasiática, voltada para a reintegração do espaço pós-soviético. E, como um estado soberano, a Rússia está interessada em fortalecer as relações com estados igualmente soberanos com base no princípio do respeito mútuo. Os vassalos e satélites dos Estados Unidos não querem tal cenário, porque se contentam com o status e o papel de cliente que lhes é imposto. Portanto, eles continuarão perdendo sua soberania, ainda que sob o pretexto de fortalecer a defesa coletiva contra a Rússia (ou a China).

Sobre isso, o Presidente Putin disse que “a pandemia foi substituída por outros desafios, também de natureza global, que ameaçam o mundo inteiro. Refiro-me à febre das sanções do Ocidente, suas tentativas flagrantes e agressivas de impor padrões de comportamento a outros países, privá-los de sua soberania e submetê-los à sua vontade. Não há nada de incomum nisso; é uma política que vem sendo seguida pelo Ocidente coletivo há décadas. O catalisador para esses processos se tornou o declínio do domínio mundial dos EUA na política e na economia, acompanhado da teimosa, relutância e incapacidade das elites ocidentais em ver e reconhecer a realidade objetiva. Irreversíveis, pode-se dizer, mudanças tectônicas aconteceram recentemente no sistema das relações internacionais… Não perdemos nada e não vamos perder nada. Em relação ao que conquistamos, posso dizer que o principal ganho foi o fortalecimento de nossa soberania, e esse é o resultado inevitável do que está acontecendo agora. É claro que está ocorrendo uma certa polarização, tanto no mundo quanto dentro do país, mas acredito que isso só será benéfico, porque tudo o que for desnecessário, prejudicial e que nos impede de avançar será rejeitado. Vamos acelerar o desenvolvimento porque o desenvolvimento moderno só pode ser baseado na soberania. Todos os nossos passos visam fortalecer a soberania.”

Finalmente, tudo isso está acontecendo no contexto de um agravamento da crise energética na Europa e debum aumento significativo da inflação nos Estados Unidos. Já é óbvio que se o confronto geopolítico do Ocidente coletivo com a Rússia continuar, eles não poderão obter recursos energéticos baratos como faziam antes. A falta de reservas suficientes de gás natural destruirá importantes setores econômicos como os de metalurgia, máquinas operatrizes, processamento, petroquímica… e reduzirá significativamente o setor agrícola devido aos altos preços da eletricidade e fertilizantes, afetando diretamente o bem-estar das famílias. Parece que o Ocidente, em breve, mergulhará no caos e na escuridão, e que a Rússia continuará a se voltar para o Leste no sentido amplo da palavra.

Fonte: Katehon

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Leonid Savin

Leonid Savin é escritor e analista geopolítico, sendo editor-chefe do Geopolitica.ru, editor-chefe do Journal of Eurasian Affairs, diretor administrativo do Movimento Eurasiano e membro da sociedade científico-militar do Ministério da Defesa da Rússia.

Artigos: 593

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