Os BRICS+ se mostram uma alternativa ao atual sistema financeiro internacional, mas ainda com cautela

A cúpula dos BRICS revela um caminho promissor na superação dos entraves hegemônicos do sistema liberal ocidental, mas seus líderes ainda adotam cautela e focam seus discursos no incentivo à cooperação na busca por soluções.

Por Guilherme Wilbert

Desde o início da Operação Z na Ucrânia, infelizmente interpretada como invasão ou uma ocupação do território ucraniano pelos russos, a política real (realpolitik) tem acelerado a integração entre blocos econômicos de países emergentes, com diversos discursos das lideranças regionais do BRICS falando abertamente sobre o peso das economias emergentes no desenvolvimento econômico global.

O último encontro dos BRICS no dia 23/06, com críticas abertas às sanções ocidentais por parte da China e da Rússia, mostrou bem o que as economias emergentes estão discutindo nesse momento: como fugir da dívida dolarizada? Ou melhor: como implementar um sistema alternativo ao firmado de Bretton Woods?

Vladimir Putin, o mandatário russo que do dia para noite se tornou “persona non grata” na Europa, já está falando abertamente sobre uma possível cesta de moedas próprias do BRICS como alternativa para fortalecimento das economias nacionais, com os países mais avançados, por exemplo a própria Rússia ou a China, trabalhando abertamente com uma economia de produção real baseada em lastro recursal para suas moedas nacionais, no caso russo o Gaso-Rublo se torna um personagem, no caso Chinês, o PetroYuan surge como alternativa de fortalecimento da moeda chinesa.

A cautela está andando lado a lado com a pressa para os emergentes

Ao passo em que os países emergentes surgem tentando um protagonismo internacional por meio dos blocos econômicos que podem se mostrar alternativos ao atual sistema financeiro internacional, os membros desses, em especial a China, apesar de atuar como uma espécie de liderança dessa guinada global para tentativa de desdolarização, não se mostra com intentos imperialistas como vistos nos EUA dentro de seus blocos de atuação geopolítica. Por exemplo a OTAN, onde é claramente uma aliança militar agressiva liderada pelos EUA para imposição das suas políticas e interesses de Estado. Do outro lado, não é visto isso dentro dos BRICS ou do Mercosul por exemplo com uma aliança militar liderada pela China ou com grupelhos apoiados pelo establishment chinês para revoluções coloridas em países não-alinhados.

Por isso a cautela: os BRICS não podem surgir como uma alternativa para fazerem as mesmas coisas das mesmas formas cometendo os mesmos erros Ocidentais, na verdade o contrário, se negociando com os ocidentais você estaria disposto a, um dia, ter que lidar com o Tio Sam realizando uma lawfare em seu território para derrubada de um governo legítimo, com a China a preocupação é muito mais diplomática no que compete a Taiwan por exemplo, com críticas muito mais voltadas aos aspectos humanitários por parte de alguns analistas.

A diplomacia brasileira mostrou preocupação com as intenções políticas do BRICS, querendo que a parceria estratégica continue no sistema ganho-ganho e não misture acepções geopolíticas para fazer frente ao antigo sistema, mas isso muito se deve ao fato do Brasil ainda ser fortemente influenciado por Washington, apesar de contar nos últimos tempos com uma política externa independente.

Estamos assistindo uma mudança de paradigma em todos os sentidos com essa operação policial russa na Ucrânia, o qual revelou a face dos líderes fracos ocidentais irresponsáveis que machucaram a economia global fazendo com que 1. As sanções tiveram o efeito reverso ao desejado (de quebrar a economia russa) e 2. Muitos países que realizam ofensivas militares em seus vizinhos (como a Arábia Saudita no Iémen) ainda que amparados pelo direito internacional e ratificando as convenções humanitárias no campo de batalha viram que os Ocidentais, infelizmente, ainda podem simplesmente saquear a riqueza de alguns países que consideram não alinhados como a Rússia, Irã, Venezuela… E dado isso, os países emergentes logicamente buscam uma alternativa, com a diferença de que para os ocidentais fazerem o que foi realizado na Líbia quando Kaddafi tentou o mesmo, agora terão que lidar com um urso sentado em cima de pouco mais de 5 mil ogivas nucleares. A conversa agora é essencialmente outra.

Referências

https://investogist.com/president-putin-says-that-brics-are-developing-global-reserve-currency/

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2022/06/23/brasil-ve-com-preocupacao-ambicao-da-china-para-expandir-brics.html

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Nova Resistência

Organização nacional-revolucionária que, com base na Quarta Teoria Política, busca restaurar a dignidade imperial do povo brasileiro.

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