Para além do “esquerdismo”: a chaga “trotskista” nos movimentos contra hegemônicos

É possível afirmar com bastante convicção que o século XX representou o cenário de maior polaridade ideológica da história da humanidade. Apesar de entendermos que outras questões geopolíticas fundamentais tenham ditado os rumos dessa polaridade, é inegável o peso das ideias em choque naquele período. Neste sentido, é também notável que tais paradigmas ideológicos do passado ainda refletem o modus operandi de muitas organizações políticas dos nossos tempos, tornando necessário entender os problemas pertinentes às organizações contra hegemônicas no mundo.

A esquerda comunista, de herança bolchevique, instituiu um forte marco no século XX dentro dos paradigmas políticos contra hegemônicos. Apesar de constituir um polo hegemônico dentro de sua esfera de influência, a União Soviética representava para a grande maioria dos movimentos dissidentes e revolucionários ao redor do mundo um pilar contra hegemônico. Isso ocorria por questões obvias. A linha stalinista estabeleceu uma URSS terrestre, que facilmente poderia ser entendida como um contraponto ao polo marítimo liderado pelos Estados Unidos, muito mais sentido pelos povos do terceiro mundo do que o seu rival vermelho. Dentro dessa lógica, é possível observar na história dos movimentos dissidentes do pós-segunda guerra uma clara tendência à “sovietização”, à aceitação dos paradigmas soviéticos como forma de se estabelecer como organização contra hegemônica dentro do espaço de poder estadunidense. Esse comportamento evidenciava uma questão fundamental para a luta contra hegemônica: a necessidade de se fortalecer outros polos de poder como forma de dispersar o poder centralizado da potência hegemônica inimiga. Nesse sentido, é notável que boa parte dos mais relevantes levantes populares e dissidentes da segunda metade do século XX se apoiaram na leitura da geopolítica soviética, mesmo possuindo raízes tradicionais diferentes. É possível se recordar da Coreia Popular, de Cuba, do Vietnã, da luta pela independência de diversos países africanos e da resistência latino-americana. Na grande maioria desses processos, a questão nacional foi a chama inicial da revolução, que buscou se abrasar nos pilares globais que permitiam estabelecer a sua resistência contra o seu inimigo mais imediato: os Estados Unidos da América e as potências coloniais da Europa ocidental.

Apesar desse entendimento acertado que levou ao êxito diversos grupos dissidentes ao redor do globo em sua luta contra o imperialismo estadunidense, ainda sim surgiram constantemente grupos fragmentários que se ancoravam em um ideal de purismo ideológico, ignorando as condições reais da geopolítica dissidente. Mais notadamente no seio dos movimentos comunistas surgiram os chamados trotskistas. Leon Trotsky foi um revolucionário marxista que, dentre outras contribuições teóricas para o marxismo, representou a primeira grande oposição no seio do partido bolchevique no período pós-Lenin. Leon Trotsky apresentava uma linha “mais marxista” em detrimento de uma linha “mais nacional” adotada por Josef Stalin como forma de buscar preservar os logros da revolução russa, fortificando o seu próprio estado ao invés de aplicar a compreensão marxista de uma pretensa revolução global. Trotsky, contudo, não peca apenas pelas ideias. O seu problema central se deu na forma de se estabelecer como oposição. É principio do modo de organização Leninista o centralismo democrático, que estabelece unidade da maioria dentro do partido. Trotsky por sua vez recusa suas derrotas no seio do Partido Comunista e funda um movimento internacional de teor antissoviético, aquilo que viria se estabelecer até os dias de hoje com os defensores da “Quarta Internacional”. Na prática, o trotskismo buscava transformar a dissidência antiliberal em uma dissidência também antissoviética, buscava descentralizar os movimentos comunistas na era das centralidades, ignorando um complexo nível de relações geopolíticas estabelecidas na época.

Pois bem, é importante se perguntar: Como seria razoável imaginar um Vietnã, uma Cuba, uma Coreia se baseando em ideias trotskistas? Seria realista o suficiente imaginar Fidel Castro negando a ajuda soviética por simplesmente não ser um comunista em seus anos iniciais de revolução? É obvio que não! O trotskismo, como dissidência da dissidência, no fundo servia aos interesses ocidentais de fragmentar e enfraquecer a esquerda, tirando dela o seu principal aliado na geopolítica das ideias do século XX: a URSS! O trotskismo (como movimento) era ingênuo, acreditava na superada fatalidade do materialismo histórico. Acreditava em ser dissidente e não se situar de maneira estratégica dentro do contexto geopolítico da época. O reflexo desse comportamento é apenas um: os trotskistas nunca conseguiram chegar ao poder, diferentemente dos movimentos nacionais que entendiam o papel central da URSS no contrabalanço de poder internacional.

Mas afinal, o que tudo isso ainda significa nos dias de hoje? É curioso meditar sobre a ideia de que hoje no Brasil, por exemplo, existem mais partidos “Comunistas” do que no século do comunismo. Quanto mais se afastaram do poder, mais os comunistas se fragmentaram em ideais puristas (no sentido marxista) e mais distantes ficaram da geopolítica. Foi e ainda é muito difícil para os movimentos de esquerda entenderem o devido balanço de poder no mundo. É de difícil compreensão desses movimentos a ideia de que ser contra hegemônico também é ser pró-surgimento de novas hegemonias com capacidade de dissuadir o poder centralizador de uma hegemonia unipolar. Tal problema central não é exclusividade da esquerda comunista, já imersa há muito nessa lógica. Isso tem afetado a grande maioria dos movimentos contra hegemônicos no geral. Nota-se como exemplo a dificuldade da “direita” contra hegemônica em reconhecer a relevância da China, bem como a da “esquerda” de reconhecer o papel da Rússia. O papel dessas duas superpotências nos dias de hoje não difere muito do papel soviético para os países do terceiro mundo durante a guerra fria: o potencial do inimigo em comum. Havia como ser um brasileiro contra a hegemonia estadunidense sem defender o papel da URSS (aqui não se trata de comunismo, mas de geopolítica!)? Há como ser brasileiro, dissidente e contra hegemônico sem defender o papel da Rússia em um novo reequilíbrio de poder no mundo? Para os trotskistas, de teoria e de espírito, supostamente é. Tais grupos acreditam fielmente que é possível lograr uma luta dissidente de maneira alheia às hierarquias de poder no mundo. O êxito chines, cubano, coreano, iraniano, vietnamita, dentre outros, se deram justamente na correta definição do que significa o poder do príncipe.

Para nós, brasileiros dissidentes, é de suma importância uma correta leitura das relações de poder no mundo. Se existem polos se instituindo no mundo de modo a se contraporem à hegemonia que nos oprime, é necessário sermos brutalmente aliados a eles! Kim Il Sung, por exemplo, não desperdiçou o seu brilhantismo criticando as reformas de mercado chinesa, ao contrário, se colocou centrado na Coreia de modo a apoiar firmemente o êxito chines como etapa crucial da manutenção da revolução coreana, mesmo não concordando com as vias de mercado. Do mesmo modo, Fidel tolerou uma URSS que em muitos aspectos não dialogava no mesmo linguajar dos revolucionários cubanos. É notável que a luta dissidente e contra hegemônica exitosa sabe de antemão quem são seus inimigos e quem são os inimigos deles. Os trotskistas e demais sectários divisionistas defendiam e defendem a concepção de serem o único e exclusivo sol capaz de tirar o povo da escuridão hegemônica ocidental, ignorando por completo a realidade geopolítica e a relações de poder no mundo. Contudo, é fácil entender como tais concepções surgem, uma vez feitas exclusivamente apenas dentro de universidades e congressos, longe da complexa realidade paulatina da sociedade.

Quando se tem um verdadeiro objetivo revolucionário, dissidente e contra hegemônico, não há tempo para divisões e purismos incompatíveis com a realidade. A construção do mundo multipolar passa diretamente pelo apoio que cada polo não-hegemônico dá aos demais para o seu estabelecimento com fonte soberana de poder. A vitória de todos os polos de poder inimigos da unipolaridade ocidental é a vitória da soberania brasileira!

O trotskismo é a doença infantil da dissidência!

LIBERDADE! JUSTIÇA! REVOLUÇÃO!

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Tácio Nepomuceno Reis

Formado em Relações Internacionais com MBA em Relações Institucionais e Governamentais, também é estudante de História e militante da NR-DF.

Artigos: 451

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