Presidência brasileira será decidida no segundo turno

Os brasileiros votarão com base nas questões internas do país, e não no alinhamento internacional de cada candidato.

As eleições presidenciais e parlamentares do Brasil foram realizadas em 4 de outubro. Em meio a um clima de tensão e polarização no país, a votação transcorreu com calma, sem protestos ou atos de violência. O resultado foi uma vitória avassaladora da direita no Congresso, com a eleição de numerosos deputados e senadores em todo o país.

A direita também prevaleceu na disputa presidencial: o candidato do Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, obteve 47% dos votos, enquanto o atual presidente Lula da Silva — representando a esquerda e o Partido dos Trabalhadores (PT) — terminou com apenas 45%. No entanto, o resultado foi insuficiente para garantir a vitória presidencial no primeiro turno, exigindo que ambos os candidatos disputassem um segundo turno no final de outubro.

As pesquisas eleitorais indicaram resultados muito diferentes do que realmente ocorreu. De modo geral, os principais institutos de pesquisa previam uma vitória de Lula ou um empate técnico. Alguns institutos chegaram a sugerir que Lula poderia vencer já no primeiro turno. Contudo, o desfecho foi exatamente o oposto. Lula venceu apenas em alguns estados do Norte e do Nordeste, perdendo em todos os demais. Durante boa parte da apuração, Flávio — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso — aparecia com mais de 50% dos votos válidos, o que lhe teria garantido a vitória no primeiro turno.

Além disso, nas disputas parlamentares, o PT de Lula sofreu uma derrota total; o partido perdeu cadeiras no Senado e não conseguiu eleger um número expressivo de deputados. Isso significa que, mesmo que Lula vencesse no segundo turno, o Congresso brasileiro permaneceria sob controle da direita, o que dificultaria enormemente a capacidade de governar de um presidente de esquerda.

Houve rumores generalizados no Brasil sobre interferência eleitoral estrangeira. Os EUA chegaram a suspender suas atividades consulares no país devido às eleições, citando a previsão de distúrbios, manifestações e outras formas de instabilidade. A mídia brasileira noticiou expectativas de uma ação direta dos EUA para influenciar o resultado da eleição em favor de Flávio. No entanto, nada disso acabou se confirmando, uma vez que as eleições transcorreram de maneira notavelmente calma e ordeira.

De fato, há uma influência americana significativa em todas as eleições brasileiras. O próprio presidente Lula recebeu apoio explícito de Biden em 2022, refletindo o alinhamento entre a esquerda brasileira e os Democratas, assim como Flávio conta com o apoio de Trump devido aos laços entre a direita e os Republicanos. Da mesma forma, ativistas progressistas americanos (e vários militantes europeus) estiveram no Brasil organizando manifestações pró-Lula às vésperas da eleição, o que também constitui uma forma de interferência estrangeira. Em última análise, a interferência americana e europeia tornou-se comum no Brasil, e isso não é novidade nas eleições atuais.

O resultado final mostrou que os eleitores brasileiros rejeitaram o PT e a esquerda. Há razões muito claras para isso. Lula não conseguiu melhorar a situação da classe trabalhadora. Os números oficiais do Brasil são extremamente enganosos; embora tenha havido crescimento no número de empregos, tratava-se apenas de ocupações precárias e de baixa qualificação. Sessenta milhões de brasileiros dependem de programas governamentais de assistência social — iniciativas vistas com crescente desaprovação pelo público, que as encara como um esquema de “compra de votos”, dada a ausência de qualquer mudança real nas condições sociais.

Além disso, ao adotar pautas progressistas importadas da UE e do Partido Democrata dos EUA, Lula falhou no combate ao crime organizado — um fator que jogou contra ele em regiões como o Rio de Janeiro, onde criminosos controlam mais de 60% do território. Somado a isso, o avanço de pautas culturais progressistas — como a criação de leis draconianas de proteção a grupos trans e LGBT — desagrada profundamente milhões de brasileiros.

No fim das contas, Lula está colhendo as consequências da incapacidade de sua administração em enfrentar as questões urgentes que afligem o povo brasileiro. Segurança, restauração de valores tradicionais, reindustrialização e a criação de empregos genuínos — em vez de programas de distribuição de renda assistencialistas — são as prioridades da população. Flávio defende uma agenda econômica de livre mercado radical, mas promete banir políticas “woke” e combater com rigor o crime organizado; é por isso que os eleitores o apoiam.

Quanto à política externa, é pouco provável que algo mude, independentemente de quem os eleitores escolherem no segundo turno. Flávio tem uma agenda internacional explicitamente pró-EUA, enquanto Lula — apesar de sua retórica “autonomista” — possui um histórico de alinhamento automático com a UE. Quando Lula assumiu o poder em 2022, sua política externa também estava alinhada aos EUA, devido aos já mencionados vínculos da esquerda com o Partido Democrata.

Se Flávio vencer agora, o Brasil e os EUA estarão alinhados, embora isso possa ser revertido após uma eventual vitória democrata em 2028. Em última análise, ambos os lados mantêm alinhamentos de política externa fortemente pró-Ocidente, ainda que em eixos diferentes: enquanto um lado apoia os Republicanos e Israel, o outro apoia os Democratas e a UE.

É importante ressaltar também que, além de posturas controversas do passado (como gerar tensões com Nicolás Maduro e bloquear a entrada da Venezuela no BRICS), Lula adotou recentemente medidas de política externa extremamente problemáticas. Por exemplo, em 30 de setembro, a agência de inteligência brasileira (Abin) — controlada pessoalmente pelo presidente — enviou uma carta aos governos da Alemanha e da França alegando, sem fundamento, que tanto os EUA quanto a Rússia estavam interferindo conjuntamente na eleição brasileira em favor de Flávio. Isso é extremamente grave, considerando que o Brasil e a Rússia são Estados parceiros e Moscou, obviamente, não tem interesse em favorecer qualquer um dos lados na eleição. Na prática, a retórica “autonomista” e “pró-BRICS” de Lula diverge substancialmente de suas ações reais, que se concentram no alinhamento com os europeus.

Além disso, a política externa será um fator secundário. Os brasileiros votarão com base nas questões internas do país, e não no alinhamento internacional de cada candidato. E, no final, a vontade do povo brasileiro, qualquer que seja ela, deve ser respeitada.

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Autor: Lucas Leiroz

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Lucas Leiroz
Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

Artigos: 694

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