Netanyahu acusa Dugin de disseminar o antissemitismo no Ocidente

Constantin von Hoffmeister examina como o primeiro-ministro israelense destaca Alexander Dugin como uma das forças motrizes por trás do crescente sentimento anti-Israel entre os conservadores ocidentais, levando o filósofo russo a responder com suas opiniões sobre o sionismo, o tradicionalismo e a soberania civilizacional.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu lançou um extraordinário ataque verbal contra o filósofo russo Alexander Dugin, acusando-o de ajudar a disseminar o antissemitismo em todo o Ocidente e de exercer uma influência particularmente perigosa sobre os jovens conservadores norte-americanos. Durante uma reunião com ativistas israelenses de língua russa, Netanyahu descreveu Dugin como um “homem terrível”, cujas ideias estariam envenenando a direita ocidental. Suas declarações expuseram o crescente antagonismo entre a liderança israelense e as correntes políticas que rejeitam a política externa do país e sua relação privilegiada com os Estados Unidos.

O confronto ocorre em meio à deterioração das relações entre Israel e Rússia em torno do Oriente Médio. Em 18 de outubro, Netanyahu criticou publicamente a cooperação de Moscou com o Irã e acusou redes ligadas à Rússia de conduzirem campanhas informativas antissemitas contra Israel. Seu ataque posterior a Dugin colocou uma figura intelectual conhecida no centro dessas acusações, sugerindo que a oposição às políticas israelenses dentro dos movimentos conservadores ocidentais se tornou motivo de séria preocupação para o governo israelense.

O episódio é particularmente revelador porque a filosofia política de Dugin há muito desperta interesse em setores da direita internacional que buscam alternativas à hegemonia liberal norte-americana. Suas teorias sobre multipolaridade, eurasianismo e Quarta Teoria Política conquistaram públicos muito além da Rússia. A acusação de Netanyahu, portanto, levanta uma questão mais ampla: se a disputa ideológica em torno de Israel se tornou inseparável do confronto mais abrangente entre o sistema internacional centrado nos Estados Unidos e o mundo multipolar emergente.

O diálogo entre Netanyahu e Arina Aminov

A mulher que se dirige a Netanyahu na gravação é Arina Aminov, uma ativista israelense nascida na Ucrânia e fundadora da Associação Hasbara, organização dedicada a promover a imagem de Israel e a combater narrativas consideradas hostis ao Estado israelense.

De acordo com uma reportagem publicada pelo portal de notícias israelense NAnews em 3 de abril de 2025, Aminov emigrou da Ucrânia para Israel e, posteriormente, passou a atuar na área das comunicações públicas. Após os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, ela organizou uma rede de blogueiros de língua russa envolvidos no combate às mensagens anti-Israel nas redes sociais. A iniciativa se desenvolveu e deu origem à Associação Hasbara, cujas atividades, segundo relatos, alcançavam dezenas de milhões de pessoas mensalmente. Em abril de 2025, Aminov recebeu o Prêmio de Qualidade de Vida do Presidente do Knesset, em reconhecimento ao seu trabalho de comunicação pública.

Durante seu diálogo com Netanyahu, Aminov reclamou que as campanhas informativas do governo israelense haviam negligenciado o público de língua russa. O primeiro-ministro respondeu identificando organizações russas e o próprio Dugin como importantes fontes da oposição que Israel enfrenta na opinião pública ocidental.

A seguir, apresenta-se a tradução integral  do diálogo divulgado no vídeo:


Arina Aminov: As instituições governamentais não reconhecem suficientemente a língua russa. Reconhecem o espanhol, reconhecem o francês, todas essas línguas.

No Ministério dos Assuntos da Diáspora, até agora, a língua russa continua ausente.

As campanhas informativas foram conduzidas em todas as línguas. A luta contra o antissemitismo foi conduzida em todas as línguas.

E isso não faz sentido.

Benjamin Netanyahu: A principal fonte de antissemitismo no Ocidente, infelizmente, é a atuação de organizações russas e daquele homem terrível, Dugin.

Um homem terrível, simplesmente terrível.

E ele está envenenando particularmente os jovens direitistas norte-americanos.

É para isso que os principais esforços estão sendo direcionados.

Eles trabalham juntos. Têm alianças.

E devo dizer que você tem razão.

Essa batalha também precisa ser travada por meio da inteligência artificial, bem como das instituições governamentais.

E temos motivos para fazer isso. Acredito que você possa confirmar isso.


Dugin responde a Netanyahu

Dugin respondeu no Telegram com uma longa declaração em russo, rejeitando a responsabilidade pelo crescimento mundial do sentimento antissionista, embora reconhecesse que muitos de seus apoiadores se opõem a Israel. Também expressou preocupação com as implicações de ser pessoalmente declarado inimigo pelo primeiro-ministro israelense.

Sua resposta, traduzida integralmente para o português, é a seguinte:


Alexander Dugin: Tudo isso é um tanto estranho. Condeno o genocídio dos palestinos, apoio a posição da Rússia sobre Gaza e sou amigo do Irã, mas certamente não posso assumir a responsabilidade pelo fato de os direitistas do mundo inteiro considerarem Israel seu inimigo número um. Muitos o fazem, sim. Mas isso acontece sem a minha participação.

Não é que eu discorde inteiramente da opinião de Netanyahu. Se eu for designado como o principal inimigo, talvez realmente me torne um. Embora, há pouco tempo, o próprio Netanyahu tenha reconhecido que eu era a única pessoa na Rússia que considerava o judaísmo uma civilização.

Isso é um assunto sério, especialmente considerando o que acontece com os inimigos de Israel. Não pretendo tratar isso com leviandade.

Interesso-me pelo judaísmo há muito tempo e conheço essa tradição consideravelmente melhor do que a maioria das pessoas. E, francamente, procuro compreender o que os motiva.

E sim, muitos conservadores — chamemo-los de direitistas — em todo o mundo acompanham com interesse minhas ideias sobre multipolaridade, geopolítica e Quarta Teoria Política. Mas certamente não sou o instigador do sentimento antissionista, embora esse sentimento exista entre meus apoiadores e muitos deles sustentem essas opiniões. Também há sionistas convictos entre os tradicionalistas, embora a maioria adote uma posição diferente.

Sou um patriota ortodoxo russo, apoiador de Putin e da Rússia como Katechon, isto é, a Terceira Roma.

E ninguém me afastará dessa posição. Netanyahu é um adepto radical e extremista de sua própria escatologia. Eu a compreendo, mas não a compartilho. Não sou responsável pelo movimento antissionista de direita em escala mundial, embora compartilhe muitas de suas ideias.

Ben-Gvir poderia até ter vindo nos visitar. Minha atitude em relação ao sionismo é complexa, não simples. Entre os eurasianistas estava Yakov Bromberg, cuja obra publiquei. Aprecio certas ideias de Ze’ev Jabotinsky sobre a necessidade de resistir à Modernidade e retornar à Tradição. Certamente não sou antissemita em nenhum sentido — os árabes são semitas, e esse fato, por si só, torna o termo desprovido de significado.

Em geral, chegou a hora de uma discussão séria sobre o rumo para o qual nossas tradições religiosas e seculares estão nos conduzindo. A direita, incluindo a direita judaica, fala sobre isso de maneira mais coerente do que a esquerda.

Não sou a causa do “antissemitismo no Ocidente”; foram eles próprios que inventaram essa história. Tampouco sou sua consequência. Simplesmente defendo os russos e todas as outras civilizações. Certamente não nego aos judeus o direito de serem eles mesmos, e jamais defendi, nem remotamente, seu desaparecimento. Mas não se pode permitir que destruam quem bem entenderem. Sou contra isso.

Cada povo que desaparece empobrece a humanidade. Isso é errado. Os judeus devem existir. Assim como os palestinos, os iranianos, os brancos e os negros.


Um conflito em torno da soberania civilizacional

A resposta de Dugin situa a controvérsia no quadro intelectual que definiu grande parte de sua obra. Para ele, a Rússia representa uma civilização distinta, cuja identidade espiritual e cujo destino geopolítico não podem ser subordinados às prioridades de Washington ou de seus aliados. O conceito de “Katechon”, derivado da escatologia cristã, ocupa um lugar central nessa compreensão. Dugin interpreta a Rússia como uma força de contenção das tendências destrutivas da Modernidade, um poder histórico cuja missão é inseparável da concepção ortodoxa da Terceira Roma.

Seus comentários sobre o judaísmo são especialmente significativos. Em vez de retratar a civilização judaica como algo inerentemente hostil à Rússia, Dugin insiste em reconhecer sua existência histórica e religiosa particular. Suas referências ao pensador eurasianista Yakov Bromberg e ao fundador do sionismo revisionista, Ze’ev Jabotinsky, indicam uma disposição para examinar o nacionalismo judaico sob a perspectiva mais ampla da Tradição, da identidade coletiva e da particularidade civilizacional. Isso torna sua relação com o sionismo mais complexa do que a hostilidade categórica sugerida pelas declarações de Netanyahu.

Por que Netanyahu está preocupado com a direita ocidental

Talvez o elemento mais revelador das declarações de Netanyahu seja seu foco nos jovens conservadores norte-americanos. Historicamente, Israel se beneficiou do forte apoio da direita dos Estados Unidos, particularmente entre os cristãos evangélicos, os neoconservadores e as instituições republicanas responsáveis pela política externa. No entanto, esse consenso tem enfrentado uma oposição crescente de figuras conservadoras que questionam os compromissos de Washington no Oriente Médio e argumentam que a política externa norte-americana deve ser orientada pelos interesses nacionais, e não pelas prioridades de aliados estrangeiros.

A influência intelectual de Dugin é relevante para esse debate mais amplo. O apelo filosófico da multipolaridade fundamenta-se na ideia de que as civilizações devem determinar seus próprios destinos políticos, sem se submeterem a um modelo ideológico universal. Aplicado à política norte-americana, esse princípio pode reforçar as críticas aos envolvimentos externos e estimular o ceticismo em relação à suposição de que os interesses norte-americanos e israelenses necessariamente coincidem.

Há ainda uma ironia nessa confrontação. O próprio Netanyahu lidera um movimento político nacionalista que enfatiza a continuidade histórica judaica, a soberania nacional, a herança religiosa e a defesa de uma identidade coletiva distinta. Em outro contexto civilizacional, esses temas se sobrepõem a elementos da filosofia tradicionalista de Dugin. Portanto, a divergência entre ambos não decorre simplesmente de uma oposição entre nacionalismo e liberalismo, mas de concepções concorrentes de soberania, destino histórico e limites legítimos do poder político.

A disputa mais ampla

O confronto entre Netanyahu e Dugin reflete uma profunda divergência sobre o futuro político do Oriente Médio e do sistema internacional como um todo. Netanyahu considera a influência política russa, a cooperação com o Irã e a hostilidade a Israel em determinados círculos conservadores ocidentais desafios interligados. Dugin interpreta os mesmos acontecimentos à luz do surgimento de um mundo multipolar, no qual a Rússia, o Irã e outras civilizações afirmam sua independência em relação à dominação ocidental.

O que torna essa disputa notável é o fato de ela ter se tornado pessoal. Ao destacar Dugin nominalmente, Netanyahu elevou um filósofo político russo da esfera do debate intelectual à condição de adversário ideológico explicitamente identificado.

Em última análise, a condenação de Netanyahu talvez revele tanto sobre a transformação do cenário político ocidental quanto sobre o próprio Dugin. O primeiro-ministro israelense identificou uma corrente filosófica que questiona os pressupostos subjacentes à tradicional aliança entre os Estados Unidos e Israel. O que é inegável é que a disputa em torno da posição de Israel na ordem mundial emergente chegou a um ponto em que ideias, afinidades intelectuais e visões concorrentes de civilização se tornaram objetos de confronto direto entre líderes políticos e filósofos.

Fonte

Constantin von Hoffmeister
Constantin von Hoffmeister

Cientista político e tradutor alemão.

Artigos: 58

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