A Rússia debate a Tecnocracia e o Futuro dos Povos

Tive a honra de ser convidado para palestrar no Congresso “Filosofia do Futuro: Ideias e Significados”, o qual foi organizado pela Universidade Estatal de Moscou “Lomonosov”, nos dias 26 e 27 de junho.

O eixo temático geral do Congresso – “o futuro” – era suficientemente aberto para permitir uma certa ampla margem de abordagens e orientações, mas penso que ninguém se surpreenderá em saber que a maioria dos discursos dizia respeito às novas tecnologias e suas relações com o homem, com um enfoque pronunciado no tema da IA.

Em primeiro lugar, cumpre dizer que este evento não foi um evento filosófico internacional qualquer. Não se trata aí apenas do caso em que parlamentares aprovam orçamentos específicos a pedido dos “especialistas”. Mais do que isso, o próprio presidente Vladimir Putin encaminhou uma mensagem para a abertura do Congresso através de Sergey Kiriyenko, que é Vice-Chefe de Gabinete da Presidência. Houve também intervenções de Dmitri Chernyshenko, vice-primeiro-ministro e Konstantin Kosachev, vice-presidente da Duma.

Me parece relevante chamar a atenção para o discurso enviado por Putin porque não me parece corriqueiro nem que um Presidente tenha considerações a fazer sobre a importância da filosofia, nem que haja um impulso tão específico por parte de um Estado contemporâneo para que os filósofos filosofem sobre as grandes questões contemporâneas. O que Putin faz, portanto, é pedir que os filósofos se detenham sobre as possibilidades de um futuro – e esse chamado a deter-se em assombro e preocupação, na era da aceleração irrefletida, é ela própria uma postura filosófica assumida, conscientemente ou não, por parte de Vladimir Putin.

O único outro evento nos últimos 100 anos a apresentar essa aproximação entre filosofia e política no contexto de uma assembleia de filósofos convidados por um condutor político a filosofar sobre as questões prementes de sua era, foi o Primeiro Congresso Nacional de Filosofia, realizado na Argentina em 1949, sob o governo de Juan Domingo Perón, o qual, inclusive, se fez presente para ler um discurso e apresentar a sua concepção político-filosófica da “comunidade organizada”. Este congresso filosófico contou com a presença dos maiores pensadores argentinos da época, como Nimio de Anquín, Leonardo Castellani e Julio Meinvielle, mas atraiu também nomes de todo o mundo, como Werner Jaeger, Karl Löwith, Jacques Maritain, Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer, Vicente Ferreira da Silva, José Vasconcelos, Benedetto Croce, Ugo Spirito, Ludwig Klages e outros.

Voltando ao Congresso “Filosofia do Futuro”, ele contou com alguns dos principais filósofos, intelectuais e acadêmicos russos contemporâneos, como Alexander Dugin, Alexei Kozyrev, Alexander Pavlov, Boris Mezhuev, Alexander Filippov, Alexei Chadayev, Vladimir Varava, Egor Kholmogorov, etc. E contou também com representantes de mais de 30 nações, ainda que o fato de vivermos numa época muito menos aberta do que 1949, quando a Guerra Fria mal acabava de começar, limitou a presença de representantes da Europa e da América do Norte. É necessário entender que, para muitos países, viajar para a Rússia apresenta a possibilidade de perda de carreira e de posições, especialmente para os que possuem conexões governamentais e acadêmicas formais. Não obstante, se fizeram presentes importantes figuras como Zhang Weiwei e Fei Haiting, da China, Franklin Nyamsi, do Mali, Muhammet Nur Dogan, da Turquia, Florin Platon, da Romênia, Gorazd Hladnik, da Eslovênia, Enrique Refoyo, da Espanha, Jahangir Karami, do Irã, Stephen Baskerville, dos EUA, Richard Sakwa, do Reino Unido, Cristian Lamesa, da Argentina, e outros pensadores representando suas nações.

Tematicamente, seria bastante difícil detalhar todas as abordagens e tópicos específicos desenvolvidos no Congresso, inclusive pelo fato de que várias de suas seções se desenvolviam simultaneamente. Mas é possível especificar alguns padrões gerais que são relevantes.

Em primeiro lugar, por mais que, como já dito, o tema tenha sido aberto e tenha havido uma variação de tópicos abordados, os debates giraram em torno do eixo da IA e do aceleracionismo tecnológico. Mas considero interessante como foi possível ver algumas abordagens de outros temas, não diretamente correlacionados com a tecnologia, como algumas reflexões sobre a moldura mental da geopolítica estadunidense, o papel histórico-ontológico da Rússia na sustentação de uma posição defensiva frente a avalanche cosmopolita, a não-universalidade do tempo (ou seja, o caráter situado e subjetivo da temporalidade), e assim por diante. Houve também reflexões interessantes sobre o papel do Estado, bem como sobre as possíveis configurações futuras do Estado, com bastante atenção dada à ideia do Estado-Civilização como superação do Estado-nação.

Todos esses temas, porém, dialogam em algum grau com a temática tecnológica. E quanto a esta, propriamente, seria possível definir alguns campos específicos.

Se fizeram presentes tecnoentusiastas e tecnoconformistas, através da participação de alguns representantes da própria indústria tecnológica e áreas correlatas. O seu discurso se fundava numa lógica de “inevitabilidade da ascensão da IA”, e sobre a necessidade de aplicá-la em todos os campos devido, por exemplo, ao fato de que os membros da Geração Alpha só consomem e aprendem através de aparatos tecnológicos. Interessantemente, alguns representantes estrangeiros de países do Terceiro Mundo assumiam uma postura semelhante.

Também houve a presenta dos “otimistas cautelosos”, onde se destacaram especialmente os chineses. A posição dos otimistas cautelosos possuía certas sutilezas. Eles consideravam que a IA representava um fenômeno irreversível, e perigoso, mas acreditavam na possibilidade de moldar, conduzir e “domesticar” a IA com a ajuda dos próprios valores da tradição chinesa. É, talvez, a visão de uma IA desempenhando uma função limitada pela possibilidade de do seu alinhamento com a própria identidade, objetivos e destino da China. É interessante como essa visão se alinha com a própria visão dominante do Estado chinês, em que se visa promover o desenvolvimento tecnológico, mas garantindo, através de regulações o papel condutor do Estado neste processo e a submissão do processo tecnológico aos valores nacionais e ao bem comum. Exatamente o oposto da prédica de personagens ocidentais como Alex Karp e Peter Thiel que agitam o espectro de uma ameaça tecnológica chinesa para defender a desregulamentação da IA nos EUA.

A maioria dos presentes, porém, pareciam se enquadrar nas categorias de céticos, pessimistas ou tradicionalistas.

De um modo geral, vários dos participantes apresentaram os efeitos negativos da avalanche tecnológica e da ascensão da IA nas várias esferas sociais, indo da tecnocracia política à crise da arte, passando pelos efeitos nefastos sobre a identidade humana e seu senso de si. Na mesma linha se desdobraram algumas críticas ao transumanismo e seus impactos na medicina e numa série de outras áreas, alertando para o risco de comodificação do corpo humano. Avançou-se também numa análise crítica da ontologia orientada ao objeto, como uma das perspectivas mais compatíveis com o aceleracionismo tecnológico e, portanto, fornecendo a moldura hermenêutica para a possível substituição do homem como ente central no mundo.

Em vários dos discursos se trabalhou, também, com a ficção científica e seu papel não tanto em “prever” futuros possíveis, mas em oferecer “projetos” e “mapas” futurológicos que inspiram visionários de todos os tipos, os quais se esforçam a transformar essas visões utópicas e distópicas em realidade.

Retornando, porém, ao discurso sobre não-universalidade da temporalidade, que foi um dos focos de Alexander Dugin, o tema é interessante pela abertura de possíveis reflexões sobre diferentes modos de temporalidade definidos conforme contornos nacionais ou civilizacionais. O tema já foi pincelado anos atrás pelo filósofo argentino Alberto Buela, que em alguns de seus artigos, e na obra Hispano-América contra o Ocidente, distingue o “time is money” e o “laissez faire”, como concepções de tempo, ao tempo ibero-americano como “atraso do porvir”, à luz do clássico gaúcho Martín Fierro.

E esses tipos de concepções permitem pensar, tal como parecia ser um dos objetivos dos idealizadores do Congresso, uma “filosofia russa” e, ainda mais importante, um “futuro russo” próprio e distinto de todos os outros futuros possíveis.

Naturalmente, as mesmas reflexões deveriam inspirar a construção, por nós, de um “futuro brasileiro”, bem como o mesmo para todos os outros colegas em relação a seus povos e civilizações.

Raphael Machado
Raphael Machado

Advogado, ativista, tradutor, membro fundador e presidente da Nova Resistência. Um dos principais divulgadores do pensamento e obra de Alexander Dugin e de temas relacionados a Quarta Teoria Política no Brasil.

Artigos: 59

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