Da metapsicologia da liderança

As lideranças contemporâneas se afastam cada dia mais do povo, para além de suas demandas, da sua história, tradição, e da sabedoria revelada através desta e que legitima seu poder. No presente texto, o camarada Guilherme Alvares aborda os aspectos psíquicos da liderança, e a necessidade de resgatar sua verdadeira identidade.

Há muito sendo discutido no âmbito do poder, mas pouco se estuda nas dificuldades de quem o pratica, pouco se discute a problemática real dela para em nossa sociedade estarmos extintos de líderes práticos, por meio dos estudos de psicologia até o estudo da metapsicologia para compreender onde se encontra a solução do líder dos povos.

Vejamos, todos querem os louros da liderança, mas ninguém quer os sofrimentos ou as dificuldades que é estar na posição. O que diferencia de líderes que escutaram os seus povos e são tidos como populistas como Getúlio Vargas, Júlio César, Mário entre outros que representaram uma diferença durante sua governança. Em primeiro lugar podemos ver algo na psicologia behaviorista que Skinner chamava de controle aversivo, há ausência desse. No controle aversivo, se exerce as ações de um mestre para que o outro continue propagando tal comportamento, claramente haverá uma repulsa e uma angustia do sujeito em manter o comportamento se não houver razões ou respostas. Então aqui demonstro que o tempo de liderança necessitou da escuta e da fala da população para se manter, não há dúvidas de nenhum historiador nesses quesitos.

Após já estabelecer um parâmetro dentro da psicologia básica para compreender que esses chamados “tiranos do povo” nunca se estabeleceram de forma cruel para se manter com controle aversivo, podemos adentrar na metapsicologia do simbólico para o sujeito humano. Compreendemos que a diferença primordial entre o ser humano e outros animais se estabelece na linguagem (não escutem o pessoal da biologia com polegar opositor), nós somos os únicos seres que se constituem por linguagem e que se capacitam do inconsciente, no que é dito e o não-dito. Não acredita? Apenas lembremos das informações escritas que possuímos há anos e que podemos aprender com nossos antepassados, só isso já demonstro aqui a importância do que chamamos de tradição, se apenas nós podemos propagar e receber informações do passado, deveremos realmente rejeitar a tradição? Seria esse o caminho mais inteligente? Tal qual a resposta de Cícero a Marco Antônio do porquê passava tanto tempo estudando os gregos, sendo um cidadão romano.

Aqui vemos então que todo cidadão constituído de linguagem, necessita ao menos do conhecimento básico e informação para se manter, como haveria de admirar tal mestre, se esse mestre o mantém no escuro de suas intenções? Agora aqui podemos compreender a relação hegeliana do mestre e escravo, a relação tanto do mestre, quanto para o escravo se baseia numa dialética que um não se encontra sem o outro, que a morte do escravo para o mestre representa uma perda tão grande, quanto o contrário. Ou seja, não há vida que não corresponda a sua compreensão de sujeito, que não para o outro. Isso nunca deve ser esquecido, quebra-se o paradigma liberal de individualidade.

Agora que estabelecemos essa máxima que de fato, podemos chamar de extrema, enxergamos que não há existência pura, singular sem a existência do outro, só pode haver intersubjetividade, enquanto houver coletividade. Então enxergamos que a vida do líder, não pode existir de forma simples e fácil, sem haver sofrimento. Esse sofrimento que o constitui de um estigma descrito por Evola como a ponte entre o divino, tal qual essa é a dificuldade de que exista tantos líderes em sociedade, imaginem tal questionamento, você pode chegar à divindade, ela está resplandecendo para ti, porém ela só estará lá quando sofrer tudo o que tem para sofrer (aqui vemos como tais líderes como Alexandre, nunca foram esquecidos pela história), como tais mortes podem infelizmente de uma maneira brutalmente honesta, ressoar mais do que outras. Aqui vemos também descritos inúmeros boddhisatvas e budas orientais que já existiram, seus sofrimentos, seus infernos que passaram em vida, por somente terem nascido com o estigma da liderança, não há de esquecer também Júlio César com suas convulsões e seus inúmeros sofrimentos durante vida.

Em resumo, não há liderança honesta e bela que não haja escuta e apoio da população. Essa nova monarquia que esnoba, que rejeita o povo e o trata de maneira execrável não representa liderança espiritual. Quem não sabe o valor do seu povo, nunca poderá ser um verdadeiro líder, apenas um mero oportunista. Liderança espiritual vai muito além de um devaneio que muitos acreditam hoje, liderança espiritual se apresenta na fala que acolhe ao seu povo, que esse povo pode dizer, “Sim, esse é o meu líder”. Não porque esse induz medo, mas porque esse induz esperança na fala.

Guilherme Alvares

Estudante de Psicologia, adepto do zen budismo e membro da NR-DF.

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