O Precariado da Astrologia, A Burguesia do Yoga e os Integralistas: A espiritualidade como Leitura de Classe

por Hanzi Freinacht

O presente texto é uma investigação sobre as novas dimensões da luta de classes, e como a espiritualidade (principalmente as pseudo-espiritualidades modernas e comercializadas) está inserida nesse contexto.

O principal problema da delineação de classes com relação ao capital financeiro sob o modo de produção é industrial é que trata-se de uma maneira insatisfatória de compreensão da estratificação da sociedade contemporânea. Em vez disso, devemos entender as classes como uma complexa amálgama de diferentes formas do capital: financeiro, cultural, social, emocional, psicológico (que inclui o sexual) e informacional.1 A esse esboço gostaria de acrescentar outro detalhe importante: As interações de classe com a espiritualidade e autoaperfeiçoamento.

O que segue é um extrato levemente editado do livro de Hanzi Freinacht, Ideologia Nórdica: Um guia Metamoderno para a Politica, livro 2. É o segundo livro de uma série sobre o pensamento metamoderno, um trabalho de filosofia popular que investiga a natureza do desenvolvimento psicológica e suas implicações políticas.

Tem existido grande confusão entre observadores da Esquerda política e outros progressistas sobre o papel da espiritualidade e formas de autoaperfeiçoamento na sociedade pós-industrial. O entendimento mais comum é que a espiritualidade, especialmente a New Age, é uma perigosa distração dos ‘verdadeiros’ problemas sociais e seu engajamento – e que cursos sobre autoaperfeiçoamento oferecem uma ‘individualização’ dos males e das injustiças sociais. Tais práticas são frequentemente vistas como aliadas do capitalismo neoliberal já que ‘o indivíduo’ tem somente a si para culpar e a própria mente para trabalhar: “Não reclame, vá para casa e medite”. Eu devo acrescentar que meu próprio trabalho – focado no desenvolvimento interior do povo – está sujeito a reações similares.

Eu gostaria de sugerir um outro entendimento da relação entre espiritualidade e classe, uma que deverá permanecer no grau hipotético até que possamos estudá-lo com dados mais relevantes: basicamente, que a espiritualidade e o autoaperfeiçoamento são com efeito uma lupa para ler as distinções de classe.

Eis o que quero dizer. Se você já se encontra numa posição de segurança financeira, acesso adequado à informação e sensibilidade cultural a fraudes e tendências, você pode participar de cursos elevados de meditação e programas de autoaperfeiçoamento cientificamente aprovados e que ajudar a descobrir mais sobre si mesmo. Isso irá, geralmente, aumentar a sua qualidade de vida e torná-lo mais proficiente nos âmbitos social, emocional e econômico.

Mas se você estiver no outro lado desse espectro de classe – com pouco dinheiro, baixo acesso à informação, pouca habilidade de avaliar criticamente grandes afirmações e promessas, você estará geralmente numa situação mais desesperadora (uma mentalidade de escassez) – é mais provável que você compre a narrativa de magia ineficaz, gemas, suplementos alimentares caros, videntes, consultoria astrológica e todo tipo de baboseira (como O Segredo, sob a ideia de poder materializar riqueza ao pensar em dinheiro, através da ‘mecânica quântica’). Tudo isso te fará gastar tempo, dinheiro, atenção e recursos em coisas que só empobrecerão ainda mais a sua vida. Suas crenças espirituais te fazem simplesmente mais vulnerável à exploração nua e crua.

Então temos uma escala de classe – em seu sentido mais amplo – ampliada pelo crescimento de práticas espirituais e de autoaperfeiçoamento na sociedade. Apenas uma minoria da população possui uma vida espiritual rica, e nessa minoria, diferenças de classe são ampliadas.

No topo dessa escala estão os que chamo de integralistas (por causa dos seguidores da elaborada “espiritualidade integral” de Ken Wilber). Essas pessoas são relativamente privilegiadas e adotam ensinamentos esotéricos e complexos com práticas corporais sutis, praticadas arduamente por anos – enquanto conseguem (relativamente) manter uma visão de mundo científica intacta no processo. Seus pensamentos e experiências de vida são enriquecidos e desenvolvem uma profundidade existencial e estados subjetivos superiores, até o ponto em que se encontram no ponto de poder vender esses serviços por preços amigáveis. Enriquecidos através da escala.

O segmento intermediário é a burguesia da Yoga. Esses podem futricar em um pouco de astrologia e cursos que “mudam sua vida”, consumir suplementos bobos, mas em geral são energizados pela prática espiritual com conforto financeiro suficiente para manter a consciência intacta. Eles podem até acreditar em magia aqui e ali, mas geralmente entendem que devem guardar tais discussões para si, para não estragar suas vidas profissionais no processo.

Então, no fim da escala, estão os que chamo de precariado da astrologia. Aqui as crenças mágicas de pessoas desesperadas resultam em alta vulnerabilidade, que leva então à cruel comercialização da alma humana.

Em uma sociedade capitalista, hiper-comercializada com o advento da internet, pessoas sem poder são levadas a crer nas bobagens mais inimagináveis, e não há fim para as formas de exploração: teorias da conspiração, aliens, fantasmas, vidas passadas, cristais curativos, vacinas alternativas, cientologia, adivinhação – a lista só aumenta, e não há fim para a cadeira do cinismo desumano com o qual isso tudo é produzido, empacotado e vendido.

Mas a esperança e aspirações desse precariado são traídas pela não materialização de soluções rápidas para além de placebos. E então você passou o último ano pagando farsantes enquanto o que realmente precisava era colocar sua vida em ordem. No fim, você está ainda mais desesperado e crédulo. As pessoas do precariado astrológico frequentemente sofrem de doenças mentais e angústia – seguidamente precisando de atendimento psiquiátrico (psiquiatras podem atestar a prevalência de pessoas com síndrome limítrofe que foram exploradas por charlatães e vigaristas).

De uma perspectiva de Esquerda clássica, é tentador pensar na espiritualidade e autoaperfeiçoamento como uma besteira que não oferece qualquer caminho para condições mais iguais. No entanto, eu defendo que elas, de fato, são a chave para transformar a sociedade, para além do igualitarismo, nos aproximando de uma equivalência e equanimidade. Ainda sim, eu desconfiaria de qualquer tentativa de centrar a transformação da sociedade apenas na espiritualidade e no autoaperfeiçoamento. Isso só levaria a uma exacerbação da desigualdade em seu sentido mais profundo e venenoso.

Espiritualidade e autoaperfeiçoamento interior são drogas pesadas; uma faca de dois gumes. Eles se tornaram uma lupa para compreender a desigualdade e estratificação de classe; amanhã, queira Deus, podem se tornar ferramentas universais de poder, emancipação e solidariedade.

Seria tão estranho se, nas profundezas enigmaticamente silenciosas de nossos corações e mentes humanos (ou pós-humanos), encontrássemos uma igualdade mais profunda?

Notas:
[1] No topo da sociedade pós-industrial você tem grupos emergentes que são ricos em todas as formas de capital. Os filósofos suecos Alexander Bard e Jan Söderqvist sugeriram que os “mestres da internet” devem ser chamados de netocratas. Esses são os pequenos grupos mais proficientes em se beneficiar da rede e assim constantemente ter a vantagem na economia informacional; não necessariamente porque eles são tecnicamente superiores, mas porque compreendem a lógica social e cultural da internet mais intimamente. Em The Listening Society eu propus que a crescente população do triplo-H (hackers, hipsters e hippies) ganharam influência ao redor do globo e tornaram-se importantes agentes da nova economia. Você pode até chamá-los de classe criativa, como um termo mais abrangente e estabelecido (e desprezado). Franco Berardi, da escola marxista “autonomista” sugere o termo cognitariado – uma classe distinguida por sua relação com símbolos abstratos.

Na base da sociedade pós-industrial você não encontra mais um “proletariado”. Você encontra pessoas que perderam os direitos de mandeira geral; que estão em situação precária econômica, social e geral. Eles talvez sejam melhor denominados com um termo que ganhou notoriedade (mas não inventado) pelo economista Guy Standing: O precariado. No entanto, no nível mais baixo do capital informacional e cultural você também encontra uma gama de pessoas economicamente confortáveis, mas sem participação significativa nos espetáculos midiáticos da sociedade pós-industrial e eventos excitantes. Esses grupos crescentes são continuamente reduzidos a posição de consumidores das ideias, imagens e espetáculos produzidos por outros, e por isso Bard e Söderqvist os chamam de consumariado.

Em relação aos eleitores “regressivos” dos EUA atual (apoiadores de Trump), há muita discussão sobre se constituem um segmento economicamente desempoderado. É uma revolta das classes baixas, ou a intolerância dos privilegiados?

A resposta é clara: Não são economicamente pobres, mas possuem um capital cultural e informacional inferior ao dos eleitores “progressistas”. Eleitores de Trump pertencem largaemente ao consumariado, a classe baixa da sociedade virtual pós-industrial.

Assim, percebemos que a luta de classes contemporânea foi alterada. Não se trata de uma perda da importância do capital financeiro e da classe econômica – apenas que esse não é mais a única face da disputa, e que outras formas de distinção de classe ganham proeminência. Populistas de direita podem ajudar esses grupos a retomar o espetáculo, o palco central da sociedade – por um tempo – e assim reafirmar um sentido de significado e poder que flui dele.

Fonte: Metamoderna
Tradução: Augusto Fleck

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