“PARCEIROS ESTRATÉGICOS”: O lobby britânico secreto de Bolsonaro para favorecer as Grandes Farmacêuticas, Petrolíferas e Mineradoras.

Por John McEvoy, Nathalia Urban e Daniel Hunt

A compra da vacina de Oxford/ AstraZeneca (que não está pronta para produção) por Bolsonaro, e a letargia e boicote do presidente em relação a outras vacinas prontas pode ter uma explicação mais sinistra do que a mera estupidez ideológica: corrupção e favorecimento. Documentos obtidos pelo Brasil Wire comprovam o lobby do Reino Unido a Bolsonaro para favorecer mineradoras, petrolíferas e farmacêuticas britânicas – entre estas, a AstraZeneca.

Exclusivo do Brasil Wire: o Reino Unido fez secretamente lobby pelo candidato de extrema direita Jair Bolsonaro em favor dos seus
interesses farmacêuticos, petrolíferos e de mineração na preparação para a eleição presidencial de 2018. As companhias incluíam a AstraZeneca,
cuja vacina de Oxford contra a Covid 19 permanece como a única comprada pelo governo federal, apesar de não estar pronta para a produção.

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Um documento secreto obtido pelo Brasil Wire revela que o Governo Britânico fez lobby pelo candidato Jair Bolsonaro em favor das farmacêuticas, petrolíferas e companhias mineradoras britânicas na preparação da eleição presidencial de 2018.

Em uma carta privada pessoalmente endereçada a Bolsonaro em 29 de junho de 2018, o então embaixador britânico para o Brasil, Vijay Rangarajan, convida o candidato a presidente para uma visita a sua residência a fim de conhecer um número de “Parceiros Estratégicos” no Brasil.
Esses parceiros incluíam a multinacional farmacêutica AstraZeneca, bem como as gigantes extrativistas BP, Shell e Anglo American.

A publicação dessa carta vem em tempo oportuno. Bolsonaro tem colocado quase todas as suas esperanças como a resposta brasileira contra a Covid 19 na vacina de Oxford / AstraZeneca, enquanto se recusa a procurar por alternativas. Depois de quase 200 mil brasileiros terem morrido em decorrência do vírus, a segunda maior cifra global, o seu aparente investimento pessoal na AstraZeneca/ Oxford foi descrito como “negligência homicida” e “absurdo”.

A dependência de Bolsonaro na vacina da AstraZeneca levanta uma séria questão: o esforço do lobby britânico levou a um acordo por debaixo dos panos com a companhia?

PARCEIROS ESTRATÉGICOS

Em Março de 2020, o Brasil Wire revelou (1) detalhes básicos de encontros prévios e não revelados ao público, e correspondências entre altas autoridades britânicas e Jair Bolsonaro antes, durante e depois da campanha eleitoral brasileira de 2018.
Esses encontros levantaram preocupações, dadas as virulentas declarações de Bolsonaro em favor da ditadura, tortura e violência contra as comunidades indígenas no país.

O primeiro encontro entre ambas as partes aconteceu em 10 de abril de 2018, seis meses antes da eleição, contando com a presença de Bolsonaro, Rangarajan e nomes censurados no documento. Ainda em 9 de Abril de 2018, a então Secretária Chefe do Tesouro, Liz Truss, iniciou uma visita oficial ao Brasil para discutir “livre comérico, livre mercado e oportunidades Pós-Brexit”.

O Tesouro bloqueiou um pedido da Liberdade de Informação sobre as atividades de Truss no Brasil, e o Gabinete de Relações Exteriores britânico (FCO) se recusou a dar qualquer detalhe adicional em relação aos encontros com Bolsonaro. O FCO levou 8 meses para concordar com o pedido inicial da Liberdade de Informação.

Entretanto, o Brasil Wire pode agora revelar a informação chave por trás dos encontros de Bolsonaro com autoridades britânicas na corrida presidencial de 2018.

Em 29 de junho de 2018, Rangarajan deu segmento ao seu encontro de abril com uma carta privada a Bolsonaro a respeito de “Parceiros Estratégicos” britânicos no Brasil. “Deputado Bolsonaro”, como diz a carta, “foi um imenso prazer conhecê-lo e iniciar nossa conversa em Abril deste ano. Eu gostaria de convidá-lo para um café da manhã ou almoço em minha casa com os maiores investidores britânicos no Brasil, em um horário que melhor lhe agrade.”

A primeira na lista de investidores britânicos era a gigante farmacêutica AstraZeneca. Outros investidores incluíam as petrolíferas e gigantes da mineração BP, Shell e Anglo American; empresas de armas e segurança Rolls-Royce e G4S; bem como a British Airways e as montadoras automotivas Jaguar e Land Rover.

Convidados para o encontro incluíam Bolsonaro, Rangarajan e representantes sêniores dos “parceiros estratégicos” – “no total de não mais que 20 pessoas, para permitir uma discussão fluída”. Rangarajan concluiu a carta dizendo a Bolsonaro: “espero te encontrar novamente”.

Em Novembro de 2018, Bolsonaro e Rangarajan se encontraram mais uma vez(2), na companhia de dois filhos de Bolsonaro, do vice-presidente Hamilton Mourão, do General Augusto Heleno e de “outros” nomes não especificados e classificados.
O FCO se recusou a fornecer qualquer detalhe sobre esse encontro.

O Reino Unido estava então fazendo lobby pelo candidato direitista em nome das grandes companhias farmacêuticas e extrativistas britânicas na corrida presidencial brasileira mais controversa desde o fim da ditadura (1964 – 1985). Realmente, a eleição foi o cume de um golpe lento, dando segmento ao espúrio impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e ao encarceramento do líder da corrida presidencial, Luis Inácio Lula da Silva, em Abril de 2018.

O Brasil Wire também obteve emails privados entre Rangarajan e autoridades brasileiras nos anos antecedentes à eleição de 2018. Um email enviado em abril de 2017, com o assunto “Briefing ( censurado) Shell”, frisa que os “Parceiros Estratégicos, liderados por Vijay, se encontraram com o candidato a presidente (censurado) em São Paulo, no dia 22 de junho” (2016).

Apesar de Bolsonaro não ter ainda anunciado formalmente sua candidatura em junho de 2016, o Brasil Wire tem a informação em primeira mão de que a missão britânica sob o antecessor de Rangarajan, o embaixador Alex Ellis, estava em contato com ele desde o começo de 2014.
Não podemos confirmar se o nome censurado no email de 2017 é de Jair Bolsonaro ou de outro candidato a presidente.

INTERESSES BRITÂNICOS

Esses esforços de lobbying vão ao encontro de uma outra campanha de pressão britânica mais antiga. Em Novembro de 2017, o Ministro de Estado para Comércio Internacional, Greg Hands, fez lobby para que o Ministro brasileiro de Minas e Energia, Paulo Pedrosa, enfraquecesse “taxas, leis ambientais e políticas contratuais locais” em favor dos interesses das companhias de mineração britânicas.

Bolsonaro já provou ser um presidente lucrativo para muitas das empresas britânicas listadas no convite de Rangarajan. A gigante de mineração britânica Anglo American fez cerca de 300 requerimentos de pesquisa para explorar 18 terras indígenas na Amazônia, algumas das quais são lares de povos isolados. Isso é apenas um episódio na corrida transnacional para explorar a região desde que Bolsonaro chegou ao poder.

Por idos de 2018, a Shell e BP – com quem o embaixador britânico para o Brasil encontrou cerca de 20 vezes desde 2017 – já acumulou 13.5 bilhões de barris do petróleo brasileiro, mais do que a própria companhia do país, a Petrobras, e por somente uma fração do preço de custo.

ASTRAZENECA E A “NEGLIGÊNCIA HOMICIDA” DE BOLSONARO NA RESPOSTA CONTRA O CORONAVÍRUS

O Brasil sofreu a segunda pior cifra mundial de mortes por Covid 19.

Bolsonaro tem sido criticado no Brasil e internacionalmente por depositar suas fichas na vacina de Oxford / AstraZeneca, a qual, ao contrário de outras vacinas, não está pronta para produção. Em 3 de Dezembro de 2020, o Governo Federal comprou 100 milhões de doses da vacina da AstraZenea por 1.9 Bilhões de reais (360 milhões de dólares).

Enquanto isso, o governo de Bolsonaro se recusou continuadamente a assinar contratos com a Pfizer ou a Chinesa SinoVac – cuja produção já está em andamento.
A SinoVac já tem até mesmo um produto desenvolvido e testado em colaboração com o renomado Instituto Butantan de São Paulo e, ainda assim, essa promissora iniciativa está sendo constantemente boicotada pelo presidente.

No dia 16 de Dezembro, por ordens do STF, o governo Bolsonaro finalmente apresentou a sua estratégia de vacinação. Na conferência de imprensa, ele confirmou que o Brasil compraria qualquer vacina aprovada pela Anvisa, disponibilizando um orçamento de 3.93 bilhões. Muitos estão preocupados, entretanto, se Bolsonaro irá continuar a usar a sua influência dentro da Avisa para bloquear a compra de vacinas que ele não aprova.

Dada a falta de preparação do Brasil, somada à quase total dependência na AstraZeneca, a reposta de Bolsonaro contra a Covid 19 tem sido descrita como “negligência homicida”, “irresponsavelmente criminosa” e “absurda”.

Apesar do modelo da AstraZeneca ser atualmente não-lucrativo, um memorando de entendimento entre a companhia e o fabricante brasileiro demonstrou que a AstraZeneca poderia começar a obter lucros a partir do começo de julho de 2021.

A aparente total dependência de Bolsonaro na vacina da AstraZeneca levanta sérias questões sobre sua relação com o governo britânico e a companhia em si. Foi a pressão britânica, a suspeição contra a China ou a negligência criminosa que levou Bolsonaro a esta situação?

[1] https://www.brasilwire.com/exposed-the-uks-secret-meetings-with-the-bolsonaros/

[2] https://www.brasilwire.com/exposed-the-uks-secret-meetings-with-the-bolsonaros/

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