Geopolítica do Separatismo no Brasil

As tendências separatistas no Brasil não foram exclusividade de apenas uma região. Elas se fizeram sentir no Império da mesma forma que na América Espanhola. Houve diversas guerras e insurreições republicanas visando escapar do controle imperial na primeira metade do século XIX.

Essas tendências centrífugas só foram abafadas de vez ao longo do terceiro quarto do século XIX. Durante algum tempo, permaneceram possibilidades de secessão aqui e ali, mas cada vez mais fragilizadas diante da força contrária, que apontava para a unidade do território brasileiro. De modo que, pouco mais de cem anos depois da Independência, nem mesmo São Paulo, com todo o seu poderio e articulações com a oligarquia mineira e gaúcha, conseguiu sustentar uma guerra civil contra o restante do país.

Não vou esmiuçar quais eram as forças centrípetas, já que são diversas e mudaram ao longo das décadas. Basta apontar que, na América Portuguesa, elas foram muito mais poderosas que a tendência contrária, que prevaleceu nos territórios que haviam sido colonizados pela Espanha.

Apesar de ocorrerem em todas as regiões, a memória do separatismo se consolidou mais em torno do Rio Grande do Sul. Há mais de uma razão para isso, mas aquela que realmente ofereceu perigo depois da derrota da Farroupilha tinha natureza geopolítica.

Em um momento em que as elites sul-americanas construíam países independentes, rivalidades se levantaram entre os Estados que se formavam. Nem as fronteiras estavam totalmente delineadas. Desnecessário dizer que o maior embate existente no subcontinente era entre o Império do Brasil e a República Argentina.

O temor argentino com a possibilidade de expansão do Império tinha seu exato espelho no temor brasileiro de que a Argentina continuasse obcecada na reconstituição do território do antigo Vice Reino do Prata. A política externa brasileira, liderada pelo Partido Conservador, foi um dos pilares da manutenção da Independência tanto do Uruguai quanto do Paraguai, considerados ”Estados-tampões” que diminuíam a possibilidade de agressão argentina nas fronteiras do Império.

Não é à toa que o maior contingente militar fora do Rio de Janeiro estivesse no Rio Grande do Sul, já que eram as fronteiras mais perigosas.

Evidente que esse cenário foi perdendo sua relevância com o passar do tempo. Não só a catástrofe representada pela Guerra do Paraguai, em que todos os contendores perderam mais do que ganharam, mas também o desenvolvimento interno cada vez maior do Brasil, e a nova consciência da situação geopolítica mundial com a ascensão dos EUA mostrou para argentinos e brasileiros que aquele conflito era uma imensa perda de tempo.

Nos ”manuais” de geopolítica ianque a situação não poderia ser mais explícita: o norte do continente poderia dominar o sul diante de certas condições. A primeira delas era manter a separação entre a ”América Mediterrânea”, aqueles países que tinham costa para o Mar do Caribe, e os poderes telurocráticos meridionais. A segunda, era manter a divisão entre os próprios poderes telurocráticos [principalmente, Brasil, Argentina e Chile].

A política de Brasil e Argentina passou a ser, portanto, de integração regional e não de disputas de fronteira ou sabotagem mútua. Claro que, como em toda relação entre diferentes Estados, é uma política difícil. Mas ela é incontornável, e atende a interesses de regiões e setores importantes dos dois países.

A preocupação geopolítica das elites do Cone-Sul se voltou não só para a integração da região, mas também para a criação de vínculos cada vez maiores da Bacia do Prata com a Bacia Amazônica. No caso do Brasil, essa sim é a verdadeira preocupação quanto a perda territorial.

É a Amazônia que separa as telurocracias sul-americanas da parte mais ao sul da ”América Mediterrânea”, dificultando a união do subcontinente em uma frente econômica, social e cultural comum que reivindique autonomia do poder ianque. Daí toda a polêmica em torno das políticas brasileiras em torno da Amazônia. Claro que a preocupação das grandes potências, EUA à frente, não está exatamente em preservação ambiental, mas em pirataria econômica e corredores geopolíticos.

A principal dor de cabeça do Itamaraty e das Forças Armadas está, portanto, na Defesa e assimilação da região amazônica. Ninguém está seriamente preocupado com ”separatismo” de qualquer outra região, já que se trata de ideia que só existe como memória afetiva, não como perigo concreto.

O único poder relevante que ficaria muito feliz com separatismo, guerras e secessões nas telurocracias sul-americanas é o ianque. Quanto mais divididas estiverem essas regiões meridionais, mais longe estarão da união com a Bacia Amazônica e mais enredados no cerco geopolítico vindo do Norte.

[A hegemonia geopolítica ianque nas Américas independe do levantamento do cerco à Eurásia. Se essa fortaleza estadunidense cair no Velho Mundo, permanece sua segunda trincheira, que consiste no domínio da América Latina.]

Portanto, a quem servem aqueles que colocam pequenos nacionalismos à frente da necessária integração dos grandes Estados da América do Sul?

Servem à Besta Loura Calibã, inimiga de nossos povos.

São burricos, idiotizados e incapazes de ver um palmo à frente do nariz, lutando para se agrilhoarem ainda mais ao Ocidente e matarem de vez qualquer possibilidade de liberdade de suas pátrias. Cegos guiando outros cegos rumo ao abismo.

Como são asnos, não percebem que o verdadeiro problema de nossos povos está na subordinação ao Ocidente e, movidos por afetos, desejam gastar energia e vidas perpetuando a calamidade.

”Os escravos servirão”, como dizia Raul Seixas…

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

Deixe uma resposta