O Sul Dionisíaco

Todos os anos, com a chegada do inverno, o intenso frio presente na região Sul do país torna-se foco de admiração e comentários, já que esse é – provavelmente – o principal ponto que destaca a região, do Brasil tropical e da região equatorial.

A verdade é que no clima temperado vivemos as estações de forma bem definida, então temos também um verão excessivamente quente, além da umidade característica de várias áreas. Abstraindo romantizações e sentimentalismo, a maioria das pessoas sofre muito em ambas as estações; mas o calor insuportável não é uma característica típica, é comum em várias partes. Portanto, parece bonito falar no sul com neve, como ocorre em algumas regiões, fala-se até de “clima europeu”, mas essa é uma maneira um tanto pobre de ignorar que possuímos uma particularidade muito bonita com a combinação de todas as estações.

Vitor Ramil nos ensina que a milonga fria da estética sulista vem justamente desse ponto particular, dessa coisa rara no resto do país que nos passa aconchego por acá, uma nuance muito especial de nossas íntimas estações; ao mesmo tempo o verão nos permite o vislumbre tropical e um diálogo mui belo com a alegria brasileira e latina. A prova disso é que, quando concebeu essa noção estética pampeana, no Rio de Janeiro, Ramil não falava a respeito de uma estranheza do calor, que também já sentira no Sul, mas de uma nostalgia melancólica, lhe faltava o frio.

Pensando num sentido quarto teórico, o clima temperado nos dá ampla fonte de raciocínio sobre as estações civilizacionais, como nos diria Spengler. O sulista possui uma intimidade com o inverno e desfalecimento do mundo, que lhe dá outra capacidade de ler a primavera e o verão com suas ricas expectativas e momentos áureos.

A geografia do Sul também favorece muito essa compreensão: entre pampas e serras, somos cercados de uma natureza entre o que está em cima e o abaixo, o vertical e o horizontal. Pouco explorada até hoje, a sacralidade estética do nosso território sempre traz grandes pistas sobre o destino de uma terra e seu povo. A condição especial do Sul que o faz centro poético de uma outra história, cujo coração não pode ser escondido, mas partilhado.

Esta geografia e a alma dialogam de forma bastante forte. Isso não é uma suposição, é fato amplamente demonstrado. A frieza da alma é tão importante quanto seu calor, e o equilíbrio nas estações externas e internas confere um aspecto do logos dionisíaco: Há um verão, quente e extático, aberto; há também um inverno, gélido, introspectivo, fechado.

Mas por que isso é tão importante? Bem, é importante porque dentro do contexto revolucionário e tradicional, essa esfera dionisíaca temperada é o ponto de encontro, o ponto intermediário entre as verdades superiores Apolíneas e a dúvida áspera de Cibele. O Sul latino-americano é uma convergência, uma passagem, um símbolo transicional. Uma terra de desbravadores, de batalhas, conquistas e reconquistas, tratados e rupturas. Historicamente, até na política a relação quente/frio, direita/esquerda sempre foi muito presente, e a rotação de poderes é frequente.

Mas a estética sulista não é fria? Sim, mas ela é fria por contraste! O Sul caminha na transição, na ponte entre os mundos. Se fosse ela comparada às terras gélidas dos polos, seus calores é que predominariam e trariam nostalgia. O Sul é frio, é quente, é alto e baixo. É guerra e sacerdócio. A Nova Roma é um ideal brilhante, a fonte dourada de nosso destino glorioso, e sua música ecoa chamando aqueles ao Sul para proclamarem a sua glória.

Augusto Fleck

Gaúcho, militante da NR e acadêmico em Ciências Sociais.

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