Nem Dugin, nem a Quarta Teoria Política, nem a Nova Resistência são fascistas

De tempos em tempos a Nova Resistência é alvo de difamações aleatórias, que tentam nos “exorcizar” politicamente, por meio de alguma rotulação como “hereges” políticos.

Geralmente, isso se dá por meio de argumentos de “associação”. “Vocês postaram sobre Fulano. Fulano é X, então vocês são X”.

A acusação mais recente, vinda de meios anarco-trotskistas, é a de que nós, Dugin e a Quarta Teoria Política seríamos fascistas. Preparamos uma resposta para essas acusações:

A Quarta Teoria Política de Dugin é fascista? Dugin é fascista? Dugin é racista?

A resposta é não, mas, em primeiro lugar, como ressaltamos em outras oportunidades, não somos “duginistas”, não somos uma seita análoga aos olavetes (seguidores do reacionário Olavo de Carvalho), com seu culto fanático à figura de um intelectual. Rejeitamos sectarismos e todo guruísmo. Quanto a Alexander Dugin, dialogamos com e nos apropriamos de seu chamamento à construção de uma Quarta Teoria Política (nem liberalismo nem comunismo nem fascismo). De resto, não somos tutelados pelo Movimento Eurasiano de Dugin (ou qualquer outro) e nem lhe devemos qualquer satisfação nem tampouco nos responsabilizamos por quaisquer posicionamentos desse ator político russo. Somos brasileiros e latino-americanos, com nossa própria “agenda” de interesses.

Isso dito, cumpre esclarecer que Dugin, um patriota russo anti-liberal, não pode em absoluto ser considerado um autor fascista – e muito menos racista (nem todo fascista é racista, de qualquer forma – ainda que fosse o caso). Nos anos 1990, Dugin esteve próximo do movimento “nacional-bolchevique” e, provocativamente, se apropriou da ideia de um “fascismo vermelho” russo. Contudo, Dugin rompeu com o Partido Nacional Bolchevique de Limonov naquela mesma década e renunciou a tais ideias há muitos anos, conforme a evolução de seu pensamento.

Especialistas e acadêmicos como o historiador brasileiro Angelo Segrillo, especialista em assuntos russos (em sua tese de livre docência de 2006, “Europa ou Ásia?”, p. 230-1) concordam que o pensamento de Dugin é lido por ocidentais (que raramente sabem russo) de forma demasiado enviesado e Dugin não pode ser considerado fascista – assim como, em menor grau, Marlene Laruelle (“Russian Eurasianism”, 2008), apesar de fortemente crítica a Dugin, admite que o pensamento do russo é complexo e não se reduz a nenhuma leitura “nacionalista”. Para uma leitura mais equilibrada de Dugin, vide ainda o geógrafo brasileiro André Martin (“Entrevista com André Martin sobre meridionalismo”, Matos, 2013, p. 4 e ainda “Geopolítica e Geoideologia na atualidade”, Regiane & Martin, Revista de Geopolítica, v. 9, n. 2, p. 152-3). A questão é que se trata de um teórico, politólogo e pensador relevante, cujo pensamento e análises recebem atenção e são estudados, independentemente de se gostar dele ou não e quer ele fosse, pessoalmente, “fascista” ou não (o que não é o caso).

Por fim, para dissipar qualquer dúvida acerca de se a Quarta Teoria Política é fascista, basta citar trechos da coletânea chamada justamente “A Quarta Teoria Política” (2012), considerada a principal e mais influente obra de Dugin:

Como uma de suas características essenciais, a “Quarta Teoria Política” rejeita todas as formas e variedades de racismo e todas as formas de hierarquização normativa de sociedades com base em fundamentos étnicos, religiosos, sociais, tecnológicos, econômicos ou culturais. Sociedades podem ser comparadas, mas nós não podemos afirmar que uma delas é objetivamente melhor do que as outras. Tais avaliações são sempre subjetivas e qualquer tentativa de elevar uma avaliação subjetiva ao status de uma teoria é racismo. Esse tipo de tentativa é não científico e anti-humano.
As diferenças entre sociedades em qualquer sentido não podem, de qualquer forma ou jeito, implicar na superioridade de uma sobre a outra. Este é um axioma central da “Quarta Teoria Política”. Ademais, se o antirracismo diretamente atinge a ideologia do nacional-socialismo (i.e., a terceira teoria política), então ele também indiretamente alcança o comunismo, com seu ódio de classe e o liberalismo, com seu progressismo, bem como seu racismo econômico, tecnológico e cultural inerentes” (p. 74-5).

“A Quarta Teoria Política não pode ser a continuação seja da segunda teoria política ou da terceira. O fim do fascismo, muito como o fim do comunismo, não foi apenas um mal-entendido acidental, mas a expressão de uma lógica histórica bastante lúcida” (p. 27).

“As velhas alternativas ao liberalismo – comunismo e fascismo – foram historicamente superadas e descartadas: cada uma a sua própria maneira, porém elas demonstraram sua ineficácia e incompetência. Portanto, a busca por uma alternativa ao liberalismo deve ocorrer em outro lugar” (p. 49).

“Se começarmos com o fascismo e o nacional-socialismo, então aqui nós devemos definitivamente rejeitar todas as formas de racismo. O racismo é o que causou o colapso do nacional-socialismo no sentido histórico, geopolítico e teórico. Este não foi somente um colapso histórico, como também filosófico. O racismo é baseado na crença na superioridade objetiva inata de uma raça humana sobre outra. Foi sobretudo o racismo e não alguns outros aspectos do nacional-socialismo que gerou as consequências, que levaram a sofrimento imensurável, bem como ao colapso da Alemanha e das Potências do Eixo e à destruição de toda a construção ideológica da “terceira via”. A prática criminosa de varrer grupos étnicos inteiros (judeus, ciganos e eslavos) com base na raça estava precisamente enraizada na teoria racial – é isso que nos enfurece e choca em relação ao nazismo até hoje. Ademais, o antissemitismo de Hitler e a doutrina de que os eslavos são “sub-humanos” e devem ser colonizados, é o que levou a Alemanha a entrar em guerra contra a URSS (pelo que nós pagamos com milhões de vidas), bem como ao próprio fato de que os próprios alemães perderam sua liberdade política e o direito de participar na história política por um longo tempo (senão para sempre) (agora resta para elas apenas a economia e, na melhor das hipóteses, a ecologia). Os apoiadores da “terceira via” foram deixados na posição de párias e marginais ideológicos. Foi o racismo – na teoria e na prática – que criminalizou todos os outros aspectos do
nacional-socialismo e do fascismo, fazendo dessas visões de mundo políticas o objeto de insultos e vilificação” (p. 70).

“A ideia de modernização é baseada na ideia de progresso”. (…) “Esse otimismo histórico pertence às três ideologias políticas clássicas (liberalismo, comunismo e fascismo). Ele está enraizado na visão de mundo científica, societária, política e social das ciências humanas e naturais dos séculos XVIII e XIX, quando a ideia de progresso, desenvolvimento e crescimento foi tomada como um ‘axioma’ que não estava sujeito à dúvida” (p. 94-5).

“Muito estranhamente, o fascismo, também, é um movimento evolucionista [assim como o liberalismo e o comunismo]”. (…) “Aqui [no fascismo], nós encontramos a mesma perspectiva progressista associada à ideia de desenvolvimento e evolução, a qual leva à hipótese da superioridade racial com base no fato de que as nações brancas possuem instrumentos sofisticados de produção de máquinas, enquanto outros grupos étnicos não”. (…) “Hoje, nós rejeitamos e criticamos o fascismo por seu componente racial, mas esquecemos de que essa ideologia também é construída sobre as ideias de progresso e evolução tanto quanto as outras duas teorias políticas da modernidade. Se nós fôssemos visualizar a essência da ideologia nazista e o papel do progresso e da evolução nela, então a conexão entre racismo e evolução se tornaria óbvia para nós. Essa conexão – de uma forma oculta – pode ser vista no liberalismo e mesmo no comunismo. Ainda que não biológico, nós vemos racismo cultural, tecnológico e econômico na ideologia do “livre mercado” e na ditadura do proletariado” (p. 103-4).

“Elementos do fascismo na pós-modernidade são representados pela prática do BDSM. Além disso, o fascismo contemporâneo – que é sadomaso e pervertido – vem para a pós-modernidade como um atributo essencial, juntamente com o feminismo, ciborgues, um ‘Corpo sem Órgãos’ etc” (p. 217-8).

“O programa negativo da “Quarta Teoria Política” soa assim, “Diga ‘não’ ao fascismo, ‘não’ ao comunismo, e ‘não’ ao liberalismo!” “O liberalismo não vai funcionar!” “Ele não passará!” (No pasará!), assim como o fascismo outrora falhou (no ha passado). O Muro de Berlim, também, caiu” (…) “Agora, o que resta é que os liberais “não passem” e “eles não passarão!” (No pasarán!). Mas para que eles “não passem”, os fragmentos do Muro de Berlim são insuficientes para nós, como o próprio Muro foi insuficiente. O Muro existia, mas eles ainda passavam. Ainda menos úteis são as sombras escuras do Terceiro Reich, seus “cadáveres independentes”, inspirando apenas a brutal juventude punk e os sonhos perturbadores e pervertidos de adeptos do sadomasoquismo” (p. 55-6).

Em suma, nem a Quarta Teoria Política é fascista, nem a Nova Resistência. De qualquer forma, a Quarta Teoria Política, para nós, é inspiração e convite à construção de um horizonte para além das ideologias da modernidade. Nosso pensamento político concreto se baseia em alguns autores trabalhistas e nacional-revolucionários e formulações nossas. Nos próximos dias, publicaremos textos a respeito das ideias que fundamentam nossa práxis política.


O que é a “Quarta Teoria Política”?

É uma proposta em construção: parte da ideia de que as três principais grandes teorias políticas (no sentido de paradigmas) do século XX esgotaram suas possibilidades – isto é, nem o liberalismo hegemônico e nem o socialismo clássico ou o nacionalismo clássico fornecem alternativas reais para a crise econômica, social, ambiental e espiritual do mundo moderno. Defender uma “Quarta Teoria Política” significa, assim, defender a ideia de que o “sujeito histórico” (isso é, aquilo que move a História) não é necessariamente nem só a livre associação de indivíduos na sociedade aberta e o mercado (Liberalismo) nem a luta de classes (Socialismo) e nem a Nação (Nacionalismo e fascismos).

Construir uma Quarta Teoria envolve, enfim, pensar em outros sujeitos históricos, fora do determinismo liberal, marxista e fascista; fora da extrema-esquerda, extrema-direita e do consenso liberal. É realmente um chamado, um projeto em construção.


Quem é o autor da “Quarta Teoria Política”?

O principal divulgador dessa ideia (e com este nome) é certamente o sociólogo, filósofo e geopolítico russo Alexander Dugin – que o faz em inúmeros ensaios, uma coletânea de mesmo nome, artigos, entrevistas etc. No caso de Dugin, sua crítica às três grandes teorias políticas (liberalismo, socialismo, fascismo) parte da ideia de que todas elas estariam fundamentadas no paradigma moderno do culto ao progresso. Em sua crítica à modernidade, Dugin enfatiza a ideia de conservação e de Tradição e a ideia do Dasein ou devir de cada povo.

Contudo, outros pensadores têm defendido ou dialogado com a ideia, à sua maneira (às vezes independentemente), como o filósofo conservador Alain de Benoist, o geopolítico brasileiro de esquerda André Martin, os arquitetos da Revolução Iraniana, o revolucionário Muammar Kadafi, o filósofo peronista argentino Alberto Buela, o filósofo neo-hegeliano italiano Diego Fusaro, o sociólogo e escritor francês Alain Soral, etc. Até mesmo o nacionalista Brizola, em mais de uma ocasião, defendeu a necessidade de uma “quarta via”, que não seria “nem esquerda nem direita, muito menos a terceira via” (vide Folha de Londrina, 22 de agosto de 1998).


Então vocês são duginistas? A Quarta Teoria Política é a doutrina de vocês?

Não somos “duginistas”. O horizonte da construção de uma Quarta Teoria Política é, para nós, uma espécie de marco teórico ou paradigmático, mais ou menos como o materialismo dialético o seria para marxistas. Temos nossas próprias formulações e outros autores que são importantes para nosso pensamento político.


Que outros autores são importantes para você?

Georges Sorel, Carl Schmitt, Martin Heidegger, G.K. Chesterton, Muammar Gaddafi, Kim Il-sung, José Carlos Mariátegui, Antonio Gramsci, Glauber Rocha, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Eneas Carneiro, Ariano Suassuna, José Bautista Vidal e muitos outros entre brasileiros e estrangeiros.


“Mas isso que vocês fazem não é uma ‘salada ideológica’ eclética?”

Todas as teorias políticas, em sua gênese, são culpadas do pecado do ecletismo: Marx, por exemplo, baseou-se na economia política de Adam Smith (teoria do valor-trabalho), no materialismo de Ludwig Feuerbach e ainda na dialética de Georg W. F. Hegel, um idealista (em termos filosóficos). Os fascistas se basearam no socialista Sorel, no pensamento marxista e no sindicalismo etc.


“Entendi que vocês rejeitam o liberalismo, socialismo e fascismo. Mas o que vocês defendem então?”

No caso específico da Nova Resistência, nós pensamos em uma idéia de Grandes Espaços (Carl Schmitt) em um mundo multipolar, no lugar de Estados-Nações burgueses. Nosso patriotismo é multidimensional – rejeitamos o globalismo e o chauvinismo. Pensamos em comunidades históricas (não necessariamente nações homogêneas) como sujeitos históricos, ao lado de comunidades orgânicas e civilizações (em níveis diferentes simultâneos). É também nesses níveis que focamos nossa militância e nossa práxis política.

Se as “comunidades orgânicas” (“ethnos”) são um possível sujeito da História, no nível micro, a grande comunidade histórica (civilização, “narod” etc) é um tipo de sujeito em sentido existencial.

O Grande Espaço, para nós, é molde formal; a Civilização, estrutura substancial. Para construir um mundo realmente multipolar, seus pólos estratégicos (Grandes Espaços) devem estar devidamente conscientes de suas próprias visões de mundo (Weltanschauung) para assim fazerem frente à hegemonia espiritual do Ocidente – equipados, necessariamente, de recursos materiais (hard-power) e capacidade persuasiva (soft-power).

Isso dito, não negamos a luta de classes (afirmamo-la!), mas não a erigimos em único motor da História. A atual dominação unipolar do Ocidente não se reduz a uma relação de dominação puramente vinculada aos aspectos materiais, mas também passa por uma correlação de forças civilizacionais. Trata-se também de ser independente da hegemonia espiritual do Ocidente.

De forma resumida, somos patriotas trabalhistas, comunitaristas e distributistas.

Vide nossos pontos doutrinários aqui

Vide ainda os seguintes textos curtos disponíveis em nosso site:


“Mas se vocês se inspiram em pensadores fascistas como Heidegger e Carl Schmitt, então isso não faz de vocês fascistas também?”

Em primeiro lugar, é um equívoco reduzir Heidegger e Carl Schmitt a simplesmente “fascistas”. São intelectuais com importantes contribuições para pensar o problema da técnica no mundo moderno, da decisão política, soberania e vários outros problemas. Ainda que fossem, isso não seria problema a não ser aos maiores puristas políticos. Existem até heideggerianos de esquerda e schmittianos de esquerda no meio acadêmico, e em publicações como a revista Telos.


Qual é o “background” dos militantes da Nova Resistência? Vocês não nasceram já militando nela? Há ex-fascistas em suas fileiras? Ex-comunistas? Vocês são de esquerda? De direita?

A Nova Resistência é majoritariamente formada por ex-ativistas ou ex-simpatizantes da 2ª e da 3ª teorias políticas – por exemplo, militantes que admiravam o ideal de um Grande Plano Nacional do Dr. Enéas Carneiro ou ainda o projeto trabalhista de Leonel Brizola, assim como ex-comunistas e ex-nacionalistas de direita que perceberam que, no mundo globalizado pós-liberal, a grande ameaça à liberdade e dignidade dos povos não é nem um fascismo defunto nem um comunismo igualmente defunto. Nosso inimigo é o liberalismo. Nossa luta nasce, sobretudo, de um despertar dialético.

Não somos, contudo, sectários. Nossa luta é contra o liberalismo selvagem, pela autonomia dos povos e pelos trabalhadores, mas entendemos que o Brasil, imenso como é, não cabe em uma “frente de esquerda” (assim como não cabe em uma “frente nacionalista” de direita). Em nossas ações e parcerias, dialogamos com a esquerda marxista e com a direita nacionalista sã – e sobretudo com patriotas trabalhistas.

Entendemos que trabalhismo sem patriotismo e sem projeto de nação é inócuo – contudo, atualmente, qualquer discurso de nacionalismo, soberania ou segurança nacional é geralmente rejeitado pela esquerda e tachado de fascismo. Além disso, na maior parte das vezes, a esquerda que supostamente defende o trabalhador e o povo, o ofende reiteradamente em seus valores culturais e religiosos, promovendo uma cruzada dos costumes, uma guerra cultural e uma engenharia social basicamente racista.

Da mesma forma, o que se entende como ‘direita’ defende, em seu discurso, valores tradicionais caros à família. Porém, na prática, tal discurso se mostra demagógico e vazio: afinal, é inútil defender a família por meio de discurso moralista e, ao mesmo tempo, defender a criminosa Reforma da Previdência que deixará nossos avôs e avós desamparados ou ainda a reforma trabalhista, que acaba com a segurança dos pais e mães trabalhadores e permite que grávidas trabalhem em condições insalubres. Pensadores conservadores como Chesterton e Christopher Lasch já observaram que o maior inimigo da família é a sociedade capitalista.

Nós estamos com o pensamento cristão e a Doutrina Social da Igreja Católica e com todas as grandes tradições religiosas do mundo no que diz respeito à usura (sempre condenada). Acima de um suposto e abstrato direito à propriedade de oligarcas, está a dignidade do povo. Não queremos banheiros públicos mistos, “reorientação de gênero” para supostas “crianças trans”. E também não queremos usura, especulação, desmatamento e nem subordinação do Brasil aos EUA. Queremos uma Pátria livre, com Forças Armadas bem equipadas, direitos trabalhistas respeitados. Queremos a reforma agrária, a proteção ao meio ambiente e a bomba atômica. Rejeitamos a direita sionista, rentista e também rejeitamos a esquerda cosmopolita, pós-moderna, anti-família e anti-religião. Isso nos torna uma organização de esquerda ou de direita? Fica a critério de quem quiser assim classificar – não estamos preocupados com isso.


Vocês são “nazbol”?

Não. Existem pontos positivos no chamado “nacional-bolchevismo”, contudo entendemos que é algo a ser superado pelo horizonte de uma Quarta Teoria Política e, no caso brasileiro, por um trabalhismo patriótico e um patriotismo que, em diferentes níveis, valore o regional, o nacional e o continental – fazendo frente ao liberalismo nos âmbitos político, econômico e cultural.


Mas vocês citam autores “tradicionalistas”, além de autores da “Revolução Conservadora” alemã e Dugin também faz isso. Isso não é fascismo?

Nenhum desses autores era fascista nem nazista – contudo, mesmo que fossem, não haveria nenhum problema em se utilizar de algumas das ferramentas teóricas ou conceituais desenvolvidas por eles (não somos puritanos nem puristas ideológicos).

Deixemos o próprio Dugin responder, de qualquer forma (A Quarta Teoria Política, 2012):

“No século XX, um número de politólogos tentou identificar ou atribuir o fenômeno do tradicionalismo fundamental com o fascismo. Louis Pauwels e Jacques Bergier, os autores de ‘O Amanhecer dos Mágicos’ escreveram: ‘O fascismo é guenonismo com mais essas divisões’. Obviamente isso está completamente equivocado. Nós dizemos que o fascismo é mais uma filosofia da Modernidade, que foi afetada por elementos da sociedade tradicional em uma medida considerável, mas que não age nem contra a Modernidade, nem contra o tempo. Ademais, tanto Guénon como Evola rigidamente criticaram o fascismo” (p. 230-1).

“Há também um terceiro conservadorismo. Desde um ponto de vista filosófico é o mais interessante. Esta é uma família de ideologias conservadoras que é normalmente chamada de Revolução Conservadora (RC). É uma constelação de ideologias e filosofias políticas que considera o problema da correlação entre conservadorismo e Modernidade dialeticamente. Um dos teóricos da Revolução Conservadora foi Arthur Moeller van den Bruck”(…)

“Outros pensadores que pertencem a essa escola são: Martin Heidegger, os irmãos Ernst e Friedrich Jünger, Carl Schmitt, Oswald Spengler, Werner Sombart, Othmar Spann, Friedrich Hielscher, Ernst Niekisch e toda uma plêiade de autores principalmente alemães. Algumas vezes, eles são chamados de “os dissidentes do nacional-socialismo”, porque a maioria deles em algum período de tempo apoiou o nacional-socialismo, mas logo partiram em imigração ou emigração e alguns até foram para a prisão. Muitos deles participaram em atividades antifascistas subterrâneas e ajudaram judeus a fugir. Particularmente, Friedrich Hielscher, um conservador revolucionário de primeira linha e apoiador do renascimento nacional alemão ajudou o famoso filósofo judeu Martin Buber a escapar” (p. 242-3).


“Mas a ‘Quarta Teoria Política’ de Dugin não é formada a partir de ‘pedaços’ do comunismo e do fascismo? Isso não é um tipo de fascismo? Isso não é nazbol?”

Deixemos o próprio Dugin responder:

“Descartando as três teorias políticas como um todo sistematizado, nós podemos tentar olhar para elas a partir de uma perspectiva diferente. Elas estão sendo rejeitadas precisamente como sistemas ideológicos completos – cada um com base em argumentos separados. Mas eles – como qualquer sistema – consistem de elementos que não pertencem a eles. As três ideologias políticas possuem seus sistemas filosóficos, grupos, metodologias explanatórias, sua totalidade únicas – uma estrutura de seu “círculo” hermenêutico”, suas epistemes fundamentais. Elas são o que elas são como um todo. Desmembradas em componentes, elas perdem sua significância e se tornam dessemantizadas. Um componente particular de uma ideologia liberal, marxista (socialista, comunista), ou fascista (nacional-socialista) não é liberalismo, marxismo, ou fascismo. Não é que eles sejam completamente neutros, mas fora do contexto ideológico estrito, eles podem encontrar ou descobrir um diferente – novo – sentido. Os aspectos positivos no desenvolvimento da ‘Quarta Teoria Política’ são baseados nesse princípio” (p. 56-7).


Qual é a diferença entre vocês e os comunistas?

Afirmamos a luta de classes, mas não a concebemos como motor único da História. Não desconsideramos fatores de identidade regional, nacional, étnica e cultural como meros “estágios” a serem superados – somos patriotas e pan-identitaristas. Não temos uma sociologia funcionalista; nossa visão antropológica não é evolucionista cultural (ou seja, não vemos a História em termos de uma linha reta de “estágios” pelos quais todos devem passar). Isso significa que não somos arautos da “modernização” no que diz respeito a um programa político e cultural de uniformização da Humanidade inteira. Não defendemos uma forma de socialismo na qual o Estado necessariamente centralize toda a atividade econômica ou meios de produção – concebemos a construção do socialismo pela via do cooperativismo e distributismo. Não somos materialistas e nem temos uma visão anti-religião. Consideramos, assim como Mariátegui e Sorel, que o Mito move o homem na História. Há outras diferenças, mas, por ora, destacamos essas.


Qual é a diferença entre vocês e os fascistas?

Há um abismo de diferenças: negamos o Mito do Progresso e o mito do domínio da Técnica e da Razão presente no fascismo. Nossa noção de patriotismo não é unidimensional nem chauvinista – somos etnopluralistas e pan-identitários. Em termos práticos, a existência das “nações” indígenas, por exemplo, em nada nega ou enfraquece a nação brasileira e o mesmo vale para colonos eurodescendentes, quilombolas e vários outros tipos de comunidades orgânicas. Somos comunitaristas, defensores dos dialetos e das culturas regionais. Somos anti-capitalistas e não acreditamos em “conciliação de classes”. Não somos anti-comunistas. Existem várias outras diferenças, mas essas são as que destacamos por ora.


Qual é a diferença entre vocês e os liberais?

A principal diferença é que nossa noção de Liberdade não é reduzida ao Indivíduo. Mais do que isso, negamos a noção filosófica liberal de Indivíduo.

Contudo, defendemos a idéia de uma verdadeira meritocracia e de um mercado verdadeiramente livre – coisas que só podem ser proporcionadas por uma sociedade organizada, com forte atuação do Estado (“mercado”, evidentemente, não existe apenas no sistema capitalista, ao contrário do que pensam incultos liberais).


Vocês são um partido político?
Não. Somos uma Organização Popular, voltada para a luta cultural, ativismo, militância e outras ações. Não somos um partido político.


Vocês são ligados a algum partido político?

Não. Nossos ativistas são livres para se filiarem a partidos. Contudo, somos uma organização autônoma.


Vocês são nacionalistas? Há separatistas em suas fileiras? O que pensam sobre a Revolução de 1932?

Como já mencionado acima, nossa ideia de patriotismo é multidimensional. Somos nacionalistas, mas não no sentido chauvinista – gostamos tanto de patriotismo, que defendemos três níveis de patriotismo, sem contradição alguma: regional, nacional e continental.

Em termos de avaliação política, francamente não consideramos que todo “separatismo” seja necessariamente ruim: existe o separatismo libertador, assim como existe o separatismo corrosivo – o próprio Brasil nasceu da separação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, do qual fazia parte. Somos, contudo, radicalmente contrários a qualquer iniciativa separatista contemporânea no Brasil, por entendermos que seria geopoliticamente desastroso (um Brasil “balcanizado”, dividido em pequenas repúblicas seria mais facilmente dominado pelos EUA) e, além disso, por entendermos que os vários povos e regiões que compõem o Brasil, apesar de suas diferenças, partilham uma História em comum. A nação brasileira, para nós, é uma comunidade histórica e uma civilização que abriga diferentes povos, culturas e regiões; não é um rolo compressor ou nivelador que deve forjar uma cultura nacional unificada por cima de todos os dialetos, sotaques e identidades regionais. Ao contrário: seu mandato deriva da proteção que deve dar a cada uma das identidades regionais, culturais etc. Assim, apoiamos e nos engajamos em todas as ações de afirmação da cultura regional, sem prejuízo da unidade nacional brasileira nem da integração continental sul-americana.

É por isso que nossos camaradas de São Paulo participam de atos relacionados à memória e cultura local, nossos camaradas da Região Sul possuem uma frente e nossos camaradas do Norte e Nordeste estão articulando uma frente nortista.


A Nova Resistência é a filial brasileira de um movimento estrangeiro? Ela faz parte de uma rede?

Não. Nossa organização é inteiramente autônoma e auto-financiada em sua atuação nacional (nós financiamos nossas ações com contribuições dos militantes, venda de camisetas e doações de simpatizantes). Ela não é “filial” nem “seção brasileira” de nenhum movimento estrangeiro, e tampouco se responsabiliza por atos ou palavras de organizações estrangeiras semelhantes. Assim como, a título de exemplo, o PC do B não pode se responsabilizar pelos posicionamentos do Partido Comunista da Grécia (mesmo que ambos os partidos usem o mesmo símbolo da foice e do martelo) e assim como o PDT não pode se responsabilizar pelo Labour Party inglês, o Democratas não se responsabiliza pelo Partido Republicano dos EUA etc etc.

Fazemos parte de uma “rede” internacional de ativistas apenas no sentido aberto de que temos interlocução e contatos internacionais e ocasionalmente articulamos ações com parceiros estrangeiros, enviamos delegações a atos internacionais etc.


Esperamos que isso sirva para esclarecer qualquer tipo de dúvida sobre nós.

Quem tiver qualquer objeção racional a levantar, que faça e será devidamente respondido.

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