Vacinas como o novo umbral do poder: coronavírus gera corrida farmacêutica

Lucas Leiroz discorre sobre a nova corrida armamentista, em que as armas são os instrumentos de combate contra pragas mortais, que cada vez se tornarão mais frequentes em um contexto de globalização e circulação massiva de pessoas. Entramos na idade das pandemias e na corrida pelas vacinas.

Em cada época, é possível detectar um fator central na lutar pelo poder entre as nações, o qual, quando alcançado, possibilitar à nação que o conquistou estar em um estágio vantajoso em relação a todas as outras que ainda não o obtiveram. O acadêmico argentino Marcelo Gullo chamou a isto “umbral do poder”. O primeiro umbral teria sido o Estado Nacional, o segundo a industrialização, o terceiro a aquisição de territórios durante o período neocolonial, o quarto foi a bomba atômica e o quinto ainda não está perfeitamente determinado, mas está ligado às novas tecnologias da era pós-atômica. Num mundo cada vez mais devastado pelos efeitos de uma pandemia global, onde todos os países investem tudo o que possuem na pesquisa de medicamentos e vacinas contra o novo coronavírus, podemos refletir mais profundamente sobre qual seria o novo e atual “umbral do poder”.

Na Inglaterra, cientistas iniciaram no dia 23 de Abril os primeiros testes clínicos em seres humanos de uma nova vacina experimental. A informação foi confirmada pelo secretário de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, nesta quarta. Segundo o secretário, o projeto está recebendo um financiamento estatal no valor de 20 milhões de libras. São suas palavras: “Vamos apoiá-los até o fim e dar os recursos que precisam para melhorar suas chances de sucesso”. Segundo o infectologista Andrew Pollard, que lidera o projeto de pesquisa, o centro de vacinas de Oxford produzirá um milhão de doses da vacina até setembro, mesmo estando no período de realização dos testes clínicos, o que por si só já revela o quanto o projeto é uma aposta por parte do Reino Unido. O objetivo inglês é produzir uma vacina antes do prazo de um ano, que foi o estipulado pela Organização Mundial de Saúde, o que, indubitavelmente, colocaria os britânicos em relação de vantagem em relação a quase todas as nações.

A Alemanha também espera tirar suas vantagens nesta corrida. O governo alemão autorizou os primeiros testes clínicos de uma vacina contra o novo coronavírus. Duzentas pessoas saudáveis vão participar na primeira fase dos testes. Os cientistas estão tentando verificar o desenvolvimento de uma imunidade e incluir mais pessoas nos testes num segundo momento dos experimentos. Mas o presidente do instituto de Vacinação alertou que o processo vai levar meses até que qualquer vacina seja aprovada e fique disponível à população nos postos de saúde do país. Quem lidera as pesquisas para desenvolver a vacina na Alemanha são a corporação farmacêutica Pfizer e a empresa de biotecnologia BioNTech SE. Ambas as empresas também aguardam autorização para iniciar testes clínicos nos Estados Unidos.

A China, primeiro país a controlar a infecção, possui uma posição de relativa vantagem em relação aos demais países, que foram afetados posteriormente. Pequim iniciou em março os testes clínicos de uma vacina experimental, tendo sido aplicadas doses em mais de cem voluntários entre 18 e 60 anos da cidade de Wuhan. Durante seis meses, os voluntários serão acompanhados, razão pela qual não há resultados ainda identificados quanto à eficácia da vacina. Também em março, os EUA iniciaram a fase de testes de uma vacina experimental. No país, quem está liderando as pesquisas é a empresa de biotecnologia Moderna Therapeutics. Os voluntários vacinados também seguem sendo acompanhados.

A Rússia anunciou que estará preparada para iniciar testes de suas vacinas experimentais em seres humanos a partir de junho. Rinat Maksiutov, que dirige o centro estatal Vektor, disse durante um encontro com Putin e os diretores dos principais centros de pesquisa russa que planeja realizar a primeira fase de ensaios de três vacinas em 180 voluntários a partir de 29 de junho. “Os grupos de voluntários já foram criados. Recebemos mais de 300 inscrições”, explicou Maksiutov. Segundo o diretor, os cientistas de seu laboratório, localizado na cidade siberiana de Novosibirsk, desenvolveram os protótipos da vacina com base em seis plataformas tecnológicas diferentes. Atualmente, os testes seguem sendo realizados em animais. Os protótipos mais promissores serão anunciados até 30 de Abril, quando serão encaminhados para os testes humanos.

Há ainda outros diferentes projetos de vacina em curso. Como se pode ver, todas as nações do mundo possuem notória pressa em desenvolver sua própria vacina, o que representaria para o respectivo Estado uma verdadeira autonomia farmacêutica e uma vantagem extrema na era das epidemias. Em verdade, o novo coronavírus nos trouxe uma mudança muito significativa na ordem mundial, mesmo que ainda estejamos longe de conhecer seus maiores efeitos: nós já estamos em uma era das epidemias e pandemias. A nação que atualmente obtiver soberanis farmacêutica terá alcançado o mais novo “umbral do poder”.

Durante a Guerra Fria a bomba atômica representou o limite da soberania dos povos. União Soviética e EUA disputavam entre si uma grande corrida armamentista, na qual as nações buscavam obter vantagem uma sobre a outra através da superioridade bélica. O que estamos vendo agora é uma nova corrida armamentista, em que as armas são os instrumentos de combate contra pragas mortais, que cada vez se tornarão mais frequentes em um contexto de globalização e circulação massiva de pessoas. Entramos na idade das pandemias e na corrida pelas vacinas.

Ainda, o pior cenário seria um em que corporações privadas controlem estas vacinas, porque isto colocaria empresas em vantagem sobre Estados. Curiosamente, estamos contemplando justamente esta situação na maior parte do Ocidente.

Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

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