Thoreau: Pai da Ética Ambiental e Referencial Autonomista

Escrito por Esther Peñas
Henry David Thoreau foi um dos maiores escritores e filósofos americanos do século XIX. Não sendo anarquista, mas sendo um grande defensor da liberdade, Thoreau construiu toda uma cosmovisão baseada na desobediência a leis injustas e na harmonia com a natureza. Seu pensamento influenciou figuras que vão de Leo Tolstói a Ernst Jünger, e seu “Walden” inspira até hoje todos os que querem uma vida mais autônoma em relação à sociedade industrial.

Duzentos anos após seu nascimento, as reflexões, observações e ensinamentos de Thoreau permanecem luminosamente válidos. Suas palavras têm servido igualmente de base para anarquistas, libertários, socialistas, liberais, conservadores e ecologistas pós-modernos. É surpreendente que um discurso seja capaz de reunir formas tão diversas, se não antônimas, de entender o mundo. Talvez se verifique que o que ele possuía não era um discurso, mas sim uma narrativa própria. Thoreau não convida à imitação, não propõe dogmas ou consignas, Thoreau abre o sulco de um caminho autêntico e cheio de possibilidades, fértil, e permite a cada um que o lê inventar o seu próprio caminho. Isso explica sua influência sobre correntes e eventos tão heterogêneos (em tempo, espaço e perspectiva) como o movimento do deserto, a independência indiana, o movimento operário britânico, a revolução hippie, os movimentos ambientalistas e ecologistas ou o movimento por direitos civis. Todos eles assumiram muitos dos postulados de Thoreau.

“O que importa não é que o começo seja pequeno; o que se faz bem uma vez, fica bem feito para sempre”. Henry David Thoreau nasceu em Concord, Massachusetts, em 1817. Ele morreu cedo, de bronquite, quarenta e cinco anos depois. Ele foi um escritor, um poeta, um filósofo americano, um dos mais influentes daquelas latitudes, tão pouco inclinadas à arte do pensamento. Ele estudou em Harvard, quando Harvard ainda não tinha a aura aristocrática de que desfruta hoje. Trabalhou como professor na escola pública (que abandonou rapidamente para não ter que aplicar o castigo corporal com o qual endireitava os desajeitados, os preguiçosos, os rebeldes); foi pesquisador, naturalista, professor e trabalhador em uma fábrica de lápis (onde introduziu o uso da argila para fixar o grafite na madeira, o que melhorou substancialmente o produto final).

A Desobediência Civil

Incentivado pelo poema de Shelley “A Máscara da Anarquia”, no qual ele retrata a autoridade injusta de seu tempo e imagina formas mais humanas de convivência, Thoreau escreve uma de suas palestras mais influentes, mais tarde ampliada, corrigida e transformada em um livro, “Resistência ao Governo Civil”, conhecido como “Desobediência Civil”. Um dos princípios deste texto é a obrigação moral de não colaborar com o mal e, portanto, de não se resignar à injustiça. “Nunca haverá um Estado verdadeiramente livre e esclarecido até que o próprio Estado venha a reconhecer a pessoa como um poder superior e independente do qual deriva todo o seu poder e autoridade e o trate em conformidade”.

A resposta à injustiça deve ser criativa. Ele esperava que cada um encontrasse sua própria maneira de se opor e contra-atacar. Thoreau apoiou ativamente o movimento abolicionista. A escravidão era uma intolerável aberração contra a qual não se podia ficar indolente. “Qualquer que seja a lei humana, nenhum indivíduo ou nação pode cometer o menor ato de injustiça contra o menor dos seres humanos sem ser punido por isso”. Em 1846, ele se recusou a pagar seus impostos, alegando que a administração de Concord, sua terra natal, colaborava com um governo escravista e belicista, o México de antigamente. Ele foi preso por isso.

Sua proposta de desobediência civil começa a incendiar as consciências. Ele nunca foi um radical, ele era um naturalista convicto. Martin Luther King, Jr. ou Kennedy foram alguns líderes políticos que retomaram seu pensamento. Gandhi, profundamente influenciado por seus textos, chamou-o de “um dos maiores e mais morais homens que os Estados Unidos já haviam gerado”. Sua resistência não-violenta permearam os ideais que procuravam tornar o mundo um lugar mais habitável. Emma Goldman, um dos pilares teóricos do movimento anarquista (a mesma que assegurava que qualquer revolução que valha a pena deve ser feita dançando), considerava Thoreau “o maior anarquista norte-americano”.

Mas Thoreau não era realmente um anarquista. Ele não estava em estrita conformidade com nenhuma etiqueta. Ele era ele mesmo. Ele não rejeitou a civilização, mas também não a aceitava tal como lhe cabia vivê-la. Ele não queria uma sociedade sem governo, mas um governo melhor, mais limitado. Ele defendia um individualismo, mas estava consciente da necessidade de vínculos e que a sociedade é um corpo orgânico composto por pessoas.

Ele trabalhou pela proteção dos animais, pelo biorregionalismo, pelo livre comércio, pela promoção de áreas silvestres, pelo respeito às idiossincrasias dos povos, pela solidariedade entre homens e regiões, ele defendia os impostos e propôs um uso e destino mais social dos mesmos. Ele se opôs veementemente ao utopismo tecnológico, ao consumismo, que considerava o homem como meio de enriquecer, à frivolidade do capitalismo… E propôs outra forma de viver.

Os Anos de Walden

Após sua “Desobediência Civil”, Thoreau decide mudar-se para o campo, para Walden, no meio da natureza, para uma cabana que ele mesmo construiu. Uma cabine de treze metros quadrados. Tinha três cadeiras para não receber mais de duas pessoas ao mesmo tempo, uma cama, uma mesa e uma lareira. O suficiente para se viver. Ele ficou lá por dois anos. “Fui para a floresta porque queria viver deliberadamente só, para confrontar os fatos essenciais da vida, e para ver se podia aprender o que tinha que ensinar, e não descobrir quando morresse que não havia vivido. Eu não queria viver o que não era vida. Tampouco quis praticar a renúncia, a menos que fosse necessário. Eu queria viver profundamente e sugar toda a medula da vida, viver tão forte e espartano como para prescindir de tudo o que não fosse a vida em si…”.

Depois dessa experiência ele publicou “Walden ou a Vida nos Bosques”. No texto descobrimos um Thoreau entusiasta dos padrões ecológicos, um analista da natureza, capaz (basta este exemplo) de observar como as florestas se regeneram após o fogo ou intervenção humana, por meio da dispersão das sementes pelo vento ou pelos animais.

Walden é muito mais do que um livro, como nós o concebemos. Walden é uma proposta de vida. Nele ele defende apaixonadamente as caminhadas, a prática do passeio, a conservação dos recursos naturais, fala de economia, ética, espiritualidade, amizade, progresso… Sua visão influenciou autores posteriores da estatura de Tolstoi, Proust, Yeats, Sinclair Lewis, Hemingway…

Após a experiência de Walden ele se aprofundou nestas questões cruciais, tornando-se referência em matéria de ecologia, ainda hoje, já que ele é citado como um dos pais da ética ambiental moderna. Reconquistar a nossa relação com a natureza. Não submetê-la, nem se submeter a ela, para restabelecer o equilíbrio entre o homem e seu meio ambiente. Estar em harmonia consigo mesmo. Por isso ele desconfiava de qualquer um que quisesse transformar o mundo sem ter se transformado primeiro. Ele, Thoreau, conseguiu. Daí aquela reflexão luminosa que ele nos deixou, no final de seus dias: “Provavelmente, a alegria seja a condição da vida”.

Fonte: Ethic.es

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