“Fascismo”: muito se fala, pouco se estuda

Hoje, o “estudo do fascismo” é mais precisamente o “estudo do medo do fascismo” do qualquer outra coisa.

The Nature of Fascism, de Roger Griffin, professor de História Moderna e Teoria Política da Oxford. A obra expõe a tese do “fenômeno do fascismo” como uma forma de “nacionalismo paligenético”.

Pessoas de esquerda, num geral, parecem viver sob a estranha percepção de que o fascismo é e só pode ser um fenômeno estático; nunca um posicionamento ideológico real, com movimentações internas e externas, autocrítica, adaptação, atualização e assim sucessivamente.

Por consequência, nunca apreendem o fascismo corretamente, senão aquelas terminologias prontas, insustentáveis já no século XX.

“O fascismo é autoritário”, “o fascismo é clerical”, “o fascismo é estatista”, “o fascismo é antidemocrático”, “o fascismo é militarista”, “o fascismo é capitalista”, “o fascismo é contra a luta de classes”, “o fascismo é anticomunista”, “o fascismo é tradicionalista” e assim sucessivamente: sem nunca acertar o ponto.

E esse é basicamente o problema de definirmos movimentos políticos e ideológicos a partir de lugares-comuns acidentais: nem uma delas alcança o fascismo, mas a imagem da imagem de uma pareidolia fascista. Vide os “sinais do fascismo” do Umberto Eco: uma das maiores esquizofrenias conceituais da literatura política. Vide “A Onda”, um filme que não diz nada sobre nada do assunto.

Faltam dois anos para o centésimo aniversário da Marcha sobre Roma. Centésimo! Ainda assim, o fascismo permanece como um campo ideológico extremamente obscuro, quase intocável. Por quê? Porque se o estudam, fazem-no não enquanto fenômeno humano. Pelo contrário, é de suma importância que o fascismo seja desumanizado, colocado como o “bicho-papão” absoluto e suprassumo da maldade. Segue-se daí que o “estudo do fascismo” seria mais precisamente o “estudo do medo do fascismo” do qualquer outra coisa.

Abra qualquer documentário sobre Hitler ou nazismo e você entenderá o que eu digo. Em alguns casos, bastará ver o nome: “O Círculo do Mal de Hitler”, “A Arquitetura da Destruição” e assim por diante.

Por consequência, as pessoas não sabem o que é fascismo; o que elas sabem é que “o fascismo é ruim, muito ruim, ruim mesmo, nossa, como ele é ruim!”

Percebe o problema? Você não está lidando com obras voltadas sinceramente à investigação do fascismo. Você está lidando com obras de engenharia comportamental bastante sutis, que visam o seu condicionamento pavloviano à imagem do fascismo. Ora, se eu sei como você vai reagir diante dessa imagem, mesmo quando o fascismo-fundamental não se faz presente, então todos os seus movimentos já foram antecipados. A partir daqui, basta-me instrumentalizá-lo ao meu favor.

Não é à toa que hoje ninguém luta contra o fascismo, nem o promove. Estamos lidando com o espetáculo do fascismo, não com a realidade dele. Todos os anos há um novo filme sobre o assunto, não há? E podemos dizer que todos esses filmes variam muito pouco na abordagem, não podemos? Seria então realmente necessário lembrar a humanidade todos os anos do terrível mal do fascismo? Todos os anos? Especificamente desse mal em particular? Mesmo quando há problemas evidentemente maiores em nosso cotidiano?

Alguém poderia dizer que o iminente colapso ambiental não provoca tanto interesse quanto a estética nazista, e eu estaria de acordo. Mas hemos de convir que o interesse estético geral está nos nazistas, na mobilização imagética da Alemanha, não na dor física e emocional dos perseguidos (perseguidos que poucas vezes envolvem os ciganos e eslavos).

O que eu posso dizer é que são muitas as motivações políticas para isso e nem uma delas tem a ver com “memória”, “conscientização”, “combate ao antissemitismo” ou “história”. Fosse a primeira opção, falariam também de outros grupos e de outros genocídios, como o (Genocídio) Armênio. Fosse a segunda, falariam de batalhões neonazistas ucranianos, não de Bolsonaro ou pivetes que tem Hitler como stand. Fosse a terceira, fariam algo contra o antissemitismo explícito na indústria pornográfica — dominada sobretudo por judeus. Fosse a última, não perderiam tempo com Diário de Anne Frank.

Leiam fascistas. Estudem fascistas. Façam-no com sinceridade. Eventualmente vocês descobrirão que não conhecem o fascismo; vocês descobrirão que o inimigo não é fascista; vocês descobrirão que o inimigo verdadeiro supera com facilidade a perversão de um Mengele.

Aí sim surgirão as perguntas fundamentais:

Quem tem medo do fascismo? Por que tem medo do fascismo? Que perigo o fascismo representa? Será mesmo que a preocupação está nos crimes e atrocidades dos fascistas? Ou será que esses crimes e atrocidades servem como desculpa para não ocultar a verdadeira preocupação?

Clécio Pereira

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3 Comments

  1. Concordo plenamente com o texto. A historiografia sobre o fascismo foi quase totalmente dominada pelos tradicionais inimigos do fascismo, Os comunistas/socialistas, com amplo domínio das cátedras universitárias. .
    Para entender isso é preciso se reportar à Itália, ao final da Primeira Guera Mundial, quando os comunistas, aliados aos anarquistas, animados pela Revolução Bolchevique, tentaram fazer uma revolução na Itália.
    Após dois anos de intensas perturbações sociais, greves quase diárias, ocupação de fábricas e propriedades rurais – o “Biênio vermelho” -, a coalizão de comunistas, socialistas e anarco-sindicalistas quase dissolveu a sociedade italiana.
    Por outro lado, o rei e o parlamento mostraram-se incapazes de oferecer estabilidade e esperança ao povo italiano, evidenciando a fraqueza da monarquia parlamentar, sua falta de coesão e de direcionamento da vontade política. O liberalismo parlamentar se mostrou fraco para enfrentar um movimento subversivo com objetivos bem definidos e organizado (derrubar a sociedade burguesa), que pregava a tomada de poder pela violência, pelo terrorismo e pela força das armas (Karl Marx; Vladimir Lenin), e amparados por uma teoria social poderosa (o marxismo). O rei era reconhecidamente fraco e pusilâmine, e o parlamento totalmente desmoralizado por escândalos quase diários de corrução. A fraqueza e incapacidade do liberalismo em enfrentar uma ameaça poderosa e agressiva como o comunismo, desmoralizaram o sistema.
    Somente um regime de força, que tinha como ideal a coesão social, teria condições de se opor ao comunismo.
    Milhões de italianos aderiram ao ideal fascista; dezenas de milhares abandonaram o Partido Comunista e outras organizações revolucionárias e se alistaram nas fileiras do movimento fascista.
    A ITÁLIA DE MUSSOLINI FOI A PRIMEIRA GRANDE DERROTA DO COMUNISMO, por isso o fascismo é tão odiado pelos intelectuais, os quais influenciam professores ignorantes que, por sua vez, influenciam sucessivas gerações de estudantes.
    A democracia, para se instalar na Europa, teve que matar milhões de pessoas que, voluntariamente, escolheram o fascismo, em sua diferentes manifestações regionais. Em suma, a democracia venceu porque teve maior potencial de matar e vencer a guerra que ela criou.

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