Uma breve análise hermenêutica da Quarta Teoria Política

Há tempos venho pensando em escrever um texto em formato de conversação, um texto que dialogue com o leitor como se fossem dois bons companheiros jogando conversa fora, por duas razões: 1) Assim como Hans-Georg Gadamer, encaro a textualidade de um texto como a subjetividade de um sujeito, de modo que o entendimento surge como resultado de um procedimento dialético de perguntas e respostas muito parecido com a maiêutica dos diálogos socráticos, um procedimento que libera para ambos os interlocutores – leitor e texto – o acesso ao significado das coisas elas mesmas, e 2) Porque não vejo maneira mais interessante de construir uma análise hermenêutica da Quarta Teoria Política senão utilizando os recursos que a linguagem da tradição na qual estou inserido me fornece, e que se manifesta da forma mais autêntica através do diálogo.

Com Gadamer, podemos afirmar que “o ser que pode ser compreendido é linguagem”, e que esta linguagem é a linguagem da tradição, que carrega todo o conjunto dos nossos preconceitos (legítimos e ilegítimos) e, ao mesmo tempo, traça o horizonte de nossa experiência. Como seres finitos e precários que somos, nossa compreensão de mundo e dos entes que vêm ao nosso encontro está limitada ao sentido de coisas que aparecem na esteira desse horizonte apreensivo, e devemos nos contentar com isso, afinal, é isso que nos define e é para isso que estamos aqui: para compreender dentro de certos parâmetros interpretativos e com a observância de certas regras.

Se, por um lado, é verdade que a linguagem ilumina o nosso entendimento, desvelando o que está velado e desencobrindo o que está encoberto, por outro, devemos aceitar o fato de que nós não chegamos à linguagem como se ela fosse um objeto colocado à nossa disposição, um objeto neutro que devemos procurar alcançar com o dispêndio de algum esforço, tampouco a dominamos por completo. É, ao contrário, a linguagem que chega até nós — ela é a nossa soberana, e se pensamos de forma diversa, isso se deve àquilo que Martin Heidegger chamou de uma inversão da relação de soberania entre linguagem e homem, inversão esta que só aparece na era da técnica para nos ludibriar, para nos transmitir a falsa impressão de que nos assenhoramos do uso linguístico, de que possuímos uma faculdade comunicativa, enquanto, na realidade, continuamos reféns da linguagem.

Devemos também aceitar o fato de que a linguagem é porosa, e, devido a essa porosidade, os significados sempre nos escapam.

Ao escolher o Dasein como sujeito sócio-político da Quarta Teoria Política, com amparo na hermenêutica fenomenológica heideggeriana, Aleksandr Dugin deixou claro que estava disposto a fazer uma experiência com a linguagem. Isso quer dizer, em termos simples, que o intérprete tem de se permitir morar na linguagem, ser o veículo por meio do qual o fenômeno linguístico se manifesta na abertura da pré-compreensão originária, porque é linguisticamente que ele ek-siste (acontece) no mundo e, ek-sistindo, compreende a si mesmo e as coisas que vêm ao encontro dentro do mundo circundante. É mais ou menos como se o mundo fosse a oficina de Dasein, e, as coisas, suas ferramentas — como se Dasein estivesse destinado a se valer das coisas como utensílios, com o propósito de descobrir seu significado latente, que só aparece dentro do círculo hermenêutico, de um contexto dialético-significante. Assim mesmo ocorre com o homem, que retira sua humanidade do fato de ser portador do status de membro de uma comunidade linguística e de buscar colocar em jogo sua essência por meio do projeto de sua existência temporal e do manejo de uma linguisticidade que está sempre à frente de sua capacidade de apreensão. Em outras palavras, o intérprete sempre chega atrasado, haja vista que está aquém da totalidade de seu poder-ser mais próprio e originário.

Mais uma vez, “o ser que pode ser compreendido é linguagem”. É por isso que a linguagem da Quarta Teoria Política é uma linguagem aberta e, em certa medida, inclusiva: porque é simplesmente impossível prever e catalogar todas as suas possibilidades de aplicação, reuni-las em um todo orgânico e sistemático como fazem as três teorias políticas clássicas, equivocadamente. Os limites semânticos da Quarta Teoria Política são os limites hermenêuticos da linguagem, e não cabe a nós, reles mortais, na precariedade e finitude da nossa condição humana, defini-los. O que devemos fazer, ou, melhor dizendo, o que podemos fazer, é nos lançar de cabeça na busca pelo sentido da nossa existência, pelo resgate de tudo aquilo que nos define como sujeitos históricos, e essa tarefa começa por uma rejeição total à hegemonia liberal, ao Império do Indivíduo. Resistir ao liberalismo significa, em última instância, permitir que novas formas de vida se manifestem no tabuleiro geopolítico; garantir, através de uma geopolítica pretensamente multipolar, que estas formas de vida, entendidas como Dasein, possam compreender seu próprio ser, colocar em jogo sua própria essência no modo de ser do estar-lançado em meio a múltiplas possibilidades existenciais. O mistério de Dasein reside justamente na exploração do uso prático de uma linguisticidade encarada como condição de possibilidade da experiência hermenêutica, na multiplicidade de interpretações que dele se pode fazer a partir de diferentes enfoques, de diferentes horizontes de sentido. É como se cada povo já carregasse uma autocompreensão prévia, uma noção daquilo que representa enquanto povo e só precisasse encontrar uma interpretação capaz de externalizar a pré-compreensão que tem de si mesmo.

Como a transição da modernidade para a pós-modernidade trouxe como consequência uma ruptura radical com a dualidade epistemológica sujeito-objeto, somente uma teoria política que tenha o Dasein como agente está à altura do desafio hermenêutico de compreender a si mesma por meio do fenômeno linguístico, ou seja, de realizar aquilo que o Indivíduo, a Classe e a Raça não puderam realizar por uma questão de insuficiência metodológica, de não terem aceitado muito bem o fato de que tal transição operou uma mudança fundamental no modo como nos relacionamos com o mundo e com as coisas dentro dele. Viabilizar a concretização do giro linguístico, a passagem definitiva do paradigma da Filosofia da Consciência para o da Filosofia da Linguagem é, quiçá, a maior contribuição da Quarta Teoria Política para a seara hermenêutica, e, no final das contas, é disto que se trata a coisa toda; é disto que estamos falando: de expulsar da realidade os resquícios da Modernidade que se recusam a ir embora sozinhos, e que contaminam nossa experiência de mundo, assim como o nosso modo de ser.

Ora, se os sujeitos da primeira, segunda e terceira teorias políticas não puderam realizar uma interpretação autêntica de mundo, isso se deve, em parte, ao fato de não terem escutado o aceno da linguagem, em parte ao fato de estarem tão violentamente aferrados aos pressupostos da era moderna que não souberam entender a tese do esquecimento do ser como um convite à auto-superabilidade. É justo com o intento de suprir esta lacuna que Dasein se insere no marco de uma pós-modernidade de contornos ainda indeterminados com o intento de resgatar, mediante uma posição prévia, uma visão prévia e uma concepção prévia de mundo, as pré-condições para a superação da metafísica ocidental, o que nem de longe deve ocorrer de modo forçado, como se alguma coisa externa nos coagisse a realizar essa reviravolta, mas de forma espontânea, genuína, quase inocente.

“O ser que pode ser compreendido é linguagem”, e habitamos esta linguagem mesmo quando parecemos estar ausentes, afinal, é o uso que dela fazemos que nos permite ganhar um horizonte de sentido, fundi-lo com novos horizontes de sentido e assim sucessivamente. Dasein não compreende porque quer, mas porque a compreensão faz parte do seu modo de ser-no-mundo. Da mesma forma, os diversos povos que disputam espaço no tabuleiro geopolítico mundial interpretam seu próprio ser porque, ontologicamente, é isso que os define enquanto povos na busca por um acesso ao desvelamento (aletheia) da verdade do ser, um acesso à clareira na floresta do entendimento. Ocorre que a tradição metafísica do Ocidente, desde Platão até os dias de hoje, não pôde compreender minimamente esta verdade, na medida em que confundia o ser enquanto objeto de estudo de uma ontologia com o ente, enquanto objeto de estudo das ciências ônticas, e para vencer esta confusão foi preciso que Heidegger elaborasse no século XX, com o auxílio da fenomenologia de Edmund Husserl, uma ontologia fundamental capaz, em tese, de lidar com a totalidade das ontologias regionais. Estou dizendo isto para dar ao leitor uma dimensão da importância da Quarta Teoria Política no tocante à superação das teorias modernas e para tornar nítido o desafio hermenêutico que Aleksandr Dugin teve de aceitar ao escolher o Dasein como sujeito de seu projeto metapolítico. Se partirmos da premissa duginiana de que as três teorias políticas clássicas não conseguiram se libertar inteiramente do calabouço da Modernidade, do dualismo sujeito-objeto e do paradigma epistemológico da Filosofia da Consciência, então restará comprovado que, ao menos hermeneuticamente, a Quarta Teoria Política é a única via que pode nos conduzir ao desencobrimento da verdade do nosso próprio ser por meio de uma interpretação autêntica que dê conta da totalidade dos matizes existenciais.

Dizíamos mais atrás que a linguagem da Quarta Teoria Política é uma linguagem aberta, o que é bom, por um lado, porque permite que tal teoria ajuste seus postulados a diferentes contextos, a diferentes realidades, e, por outro, porque essa abertura previne o intérprete de não cair nas aporias que caíram as demais teorias políticas.

Contudo, é preciso cuidado para não confundir abertura com arbitrariedade. Dizer que uma linguagem é aberta significa dizer que ela não está presa às amarras de um único método científico, que ela sequer enxerga o método como pré-requisito indispensável à obtenção da verdade de um enunciado, como acreditavam os iluministas; de modo que o significado das coisas não é revelado ao hermeneuta como se ele pré-existisse às próprias coisas entendidas como objetos, mas sim construído intersubjetivamente em cada caso singular. Então, não é como se a Quarta Teoria Política significasse o que o intérprete quer que ela signifique, mas como se existisse uma certa flexibilidade no modo como nós a interpretamos, um deixar-as-coisas-elas-mesmas virem à fala na compreensão. É justo desta flexibilidade que a Quarta Teoria Política retira seu caráter metapolítico. Em outras palavras: a Quarta Teoria Política não quer ser apenas mais uma teoria política ao lado de outras tantas teorias políticas, mas também uma teoria filosófica, geopolítica, estética, antropológica etc. Sua linguagem é aberta porque o mundo no qual Dasein está lançado ou projetado também é aberto. A abertura da morada de Dasein torna para ele manifesto o sentido de tudo aquilo que lhe vem ao encontro na intramundanidade do mundo pelo manual da ocupação; através dessa abertura, Dasein transcende o domínio da cotidianidade mediana e alcança uma compreensibilidade cada vez mais profunda de si mesmo e dos demais entes que com ele se relacionam dentro do mundo.

A essa altura o leitor deve estar se perguntando: “mas por que o Dasein? Por que não um outro ente qualquer?” Porque o Dasein é o único ente capaz de interrogar o próprio ser, e faz isso através da abertura de manifestação para a afluência do sendo em seu poder-ser mais próprio, autêntico e originário, por meio da experiência com a linguagem que está a todo momento sendo feita, desde o instante em que nos angustiamos para nós mesmos diante do nosso ser-para-a-morte, ou seja, desde o instante em que de fato somos alguma coisa e, sendo, buscamos um sentido para a nossa existência. É justamente esse significado existencial que uma hermenêutica de orientação quarto-teórica pretende construir, não sem antes aceitarmos o compromisso de passar seus postulados adiante, de conferir a eles uma aplicabilidade prática através do diálogo, da conversação, ou, no léxico gadameriano, da fusão de horizontes.

Gustavo Aguiar

Estudante de Direito da Faculdade Santo Agostinho, militante da NR-MG e filósofo diletante.

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