Uma leitura quarto-teórica de Metropolis (1927), de Fritz Lang

Situada no ano de 2026, o enredo Metropolis consiste em uma distopia industrial que integra a linha do Expressionismo Alemão.

Dentre os filmes mudos do gênero de ficção científica gravados na década de 20, Metropolis, do diretor austríaco Fritz Lang, é sem sombra de dúvidas um achado cinematográfico impresso com as melhores cores do expressionismo alemão, que se destaca sobretudo pela radicalidade com que contrapõe dois modos de vida absolutamente antagônicos, porém, infelizmente, nem sempre abordados de forma condizente com a realidade dos fatos, quais sejam: o do burguês citadino, homem de negócios que vai fazer fortuna no centro urbano envolto pela atmosfera esquizofrênica carregada de muito barulho, poluição industrial e arranha-céus (símbolos do cosmopolitismo atlanto-liberal, por excelência; da destruição dos valores regionais e da ameaça crescente do economocentrismo), e o do operariado explorado que, vivendo no subsolo em situação de semi-escravidão, é quem efetivamente fornece a energia física que faz girar as engrenagens do sistema inteiro.

Pode-se dizer, desde um ponto de vista escatológico, que os trabalhadores personificam as forças da terra sob o estandarte de Behemot – aqueles que detêm o poder político, mas não estão plenamente conscientes disto – e Metrópolis, o Grande Leviatã, a besta marinha apresentada por Jeová a Jó no Velho Testamento (Fritz Lang não economiza referências bíblicas em Metropolis), ícone das hiperpotências atlantocráticas.

O contraste entre mundos tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos um do outro forma o pano de fundo no qual se desenvolve o enredo de Metropolis, e é a partir dele que se deve buscar compreender a trajetória de Freder, filho do dono da cidade, através de regiões desconhecidas, sempre na companhia de Maria, uma espécie de Beatrice, personagem da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Ao descer ao submundo habitado pelos operários tiranizados por Moloch, o deus-mercado, Freder começa a questionar a validade de tudo aquilo em que ele mesmo acreditava, chegando a uma conclusão utópica e pouco aproveitável desde uma perspectiva quarto-teórica: a de que é possível conciliar capitalismo e socialismo numa visão orgânica da realidade, como se fosse razoável propor que, da noite para o dia, ricos e pobres apertem as mãos e sigam coexistindo pacificamente debaixo do mesmo sol.

Mas por mais absurdo que se afigure o desfecho do longa, é preciso enxergar mais além dele a fim de perceber que Metropolis se passa no ano de 2026, futuro distópico em que todas as possíveis alternativas para questões hipercomplexas fracassaram, seja porque ninguém pensou em implementá-las da maneira como deviam ser implementadas, seja porque elas simplesmente não existiam.

Ao propor a destruição do liberalismo, bem como a superação da Segunda e Terceira teorias políticas, a Quarta Teoria Política clama pelo destronamento de Moloch e pela restituição da importância das zonas que foram varridas para a periferia do mundo globalizado.

Mais do que uma crítica social, Metropolis chama atenção para o perigo de se estabelecer um critério unificador dos valores identitários a partir do qual seria possível discriminar civilizações avançadas de civilizações não-avançadas; perigo este que, transportado para a seara das Relações Internacionais, está na base da configuração de uma geopolítica unipolar centrada no Norte rico em detrimento do Sul subdesenvolvido.

Gustavo Aguiar

Estudante de Direito da Faculdade Santo Agostinho, militante da NR-MG e filósofo diletante.

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