Dark: o Tempo como experiência tétrica:

São muitos os aspectos que concorrem para tornar grandiosa uma obra-prima do gênero sci-fi, mas o principal, talvez, seja a falta de respostas definitivas para as perguntas que o telespectador faz a si mesmo ao mergulhar de cabeça na trama. Quer dizer: quando achamos que, finalmente, entramos em sintonia com a narrativa, e que ela transcorre de forma linear ou horizontal, de modo que o cérebro humano já está acostumado a processar – e a antecipar – qualquer sequência cronológica, somos pegos de surpresa por algo que estava ali desde o início, mas que, por algum motivo, não podíamos notar. É quando nossa percepção se dobra e passamos a enxergar um mesmo objeto a partir de diferentes pontos de vista e, de repente, o que parecia obscuro se torna claro, e o que parecia claro se torna obscuro, eclipsando nossa observação como que num passe de mágica.

Nessa pegada, a série alemã Dark, concebida pelas mentes de Baran bo Odar e Jantje Friese, consegue gerar assombro, perplexidade, e trazer à tona questionamentos filosóficos em torno da natureza do mistério chamado Tempo, desafiando experiências cinematográficas similares, tais como Donnie Darko, De Volta Para o Futuro e Efeito Borboleta. A diferença é que Dark nem sequer se esforça para ser uma série comercial, tamanha a naturalidade com que os acontecimentos mais surpreendentes nos são revelados, ou melhor, jogados na nossa cara, fazendo-nos reconsiderar a todo momento as informações que nos foram apresentadas no início. Dessa forma, o grande mérito dos criadores não reside tanto na originalidade do enredo quanto na maneira ousada com que ele é explorado. Some-se a isso a beleza deslumbrante da fotografia, e o clima de suspense criado pela trilha sonora, e o resultado é um verdadeiro espetáculo sensorial, quase como se cada episódio fosse um quadro a ser decifrado – peças de um enorme quebra-cabeças que vai montando a si mesmo.

A interação estoica entre os habitantes da cidade de Winden (que tem uma usina de energia nuclear como ponto turístico e uma floresta com uma caverna –  que, descobre-se, é, na verdade, um buraco de minhoca) vai, pouco a pouco, desenhando um círculo perfeito onde o passado, o presente e o futuro estão em constante movimento e influenciam-se reciprocamente, de modo que os personagens se veem presos em um loop perpétuo, fadados a reproduzir toda uma cadeia de eventos e reencenar, no palco do tempo, o teatro nietzschiano do Eterno Retorno.

O roteiro, dividido em três linhas temporais – os anos 1953, 1986 e 2019 –, é bastante denso, sombrio além da conta (o que, diga-se de passagem, pode decepcionar quem espera encontrar na série o próximo Stranger Things), e composto por uma sobreposição de camadas recheadas de simbolismo, na trilha de uma narratividade construída contra um pano de fundo mítico-esotérico. Assim, a série entretém o grande público com aventuras e dramas familiares vivenciados pelos personagens, além de despertar o interesse de estudiosos através de um discurso voltado para iniciados, sem esquecer de trabalhar, de forma absolutamente genial, os elementos que fazem da ficção científica aquilo que ela é, ou, pelo menos, deveria ser: um campo de batalha entre o natural e o sobrenatural, o conhecido e o desconhecido.

Em poucas palavras: Dark nos coloca diante da face mais tétrica do tempo.

 

Gustavo Aguiar

Estudante de Direito da Faculdade Santo Agostinho, militante da NR-MG e filósofo diletante.

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