Destruindo o Brasil Paralelo:

Via Legião de Santa Cruz

Senhores, mais uma vez o mundo olavético nos presenteia com um show de comédia política e histórica. Não bastasse a histeria de considerar tudo fruto de conspirações russas ou comunistas, absolvendo outros agentes, agora os micos amestrados do guru da Virgínia se lançaram no projeto chamado “Brasil Paralelo”. O objetivo [do projeto] é fornecer uma visão da história do Brasil sem a “ideologização esquerdista” que prevalece no ensino da nossa história, tal como o dado nas universidades e escolas. O projeto conta com patrocinadores e tem uma série de vídeos muito bem produzidos desde o ponto de vista técnico. Tirando a qualidade da imagem, porém, não há nada de muito notável nos mesmos – a não ser a ignorância crassa de certos comentários e o fato de oferecer uma interpretação inusitada de nossa história.

O Brasil Paralelo não oferece nenhuma informação decisivamente nova a respeito da história do Brasil. As questões abordadas no primeiro vídeo, no que diz respeito a história de Portugal, podem ser conhecidas em bons manuais. O segundo vídeo “surfa” na ideia de desconstruir visões estabelecidas nas obras de didáticas de referência e nas cátedras acadêmicas sobre nossa história pátria. Tal desmontagem é feita, sobremaneira, a partir dos elementos já elencados na obra de Leandro Narloch (Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil), um jornalista que reuniu algumas referências de obras historiográficas nacionais e internacionais de autores que fogem dos esquemas – aqui e acolá – do materialismo histórico.

Vamos adiante, pois o que nos move, neste primeiro artigo, não é fazer um exame exaustivo acerca dos erros mais graves dos dois primeiros vídeos do Brasil Paralelo, mas, sim, apontar o fundo do problema que envolve o projeto.

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Primeiro há que se destacar a presença de alguns historiadores profissionais no projeto. Há, também, é verdade, alguns professores de história ali. O que é bastante irônico nisso tudo é que sabemos que a Olavosfera se funda na tese de que nossas universidades são cancros intelectuais: ideia mil vezes repetida pelo Sr. Carvalho. Todavia, observamos, no projeto Brasil Paralelo, um enxame de figuras saídas do mundo universitário brasileiro. Não deixa de parecer contraditório que tenhamos, num projeto que visa libertar o imaginário nacional dos padrões intelectuais acadêmicos, inúmeros figurões acadêmicos? Se os diplomas universitários nada valem, como assevera Olavo, por que recorrer a gente diplomada?

Um deles é Jorge Caldeira, historiador e jornalista. Graduado pela USP – a mesma USP que Olavo defenestra no Imbecil Coletivo como foco do “esquerdismo cultural”–, Caldeira tem em seu currículo vários livros publicados e a participação no projeto Brasil, 500 anos, da Globo. Na época do Brasil, 500 anos, não faltaram críticas ao evento, por se tratar de uma abordagem rasa e acrítica de nossa História. O Brasil, 500 anos, do qual Caldeira participou, tratou o país a partir de um crivo mítico: seríamos um país fabuloso, uma “belíssima paisagem”. Desta forma, o passado (os traumas de nossa história) era negado. A nossa formação frustrada, negada, e nosso presente, mitificado (a nação promissora e soberana). Sabe-se que o maior idealizador do “Brasil 500” é o mesmo figurão publicitário que, numa “Roda Viva” exibido em 97, disse: “Precisamos perder a vergonha e começar a nos vender como país”. Ou seja: o Brasil 500 não passava de peça de propaganda. Evidente que não pretendemos reduzir à obra de Caldeira a chanchada do Brasil 500 da Globo, mas isto é, no mínimo, é um desconforto para o Brasil Paralelo, que pretende oferecer uma visão objetiva e séria de nossa história, uma visão profunda e liberta de ideologias, se escorando em figuras que participaram de algo tão canhestro.

Note-se, porém, que a presença de Caldeira no Brasil Paralelo não é um acaso, nem tampouco o é a nossa insistência em tratar dele aqui. Caldeira sustenta a tese de que a dinâmica econômica e social do Brasil, na era colonial, não estava à mercê da Metrópole. Nós teríamos uma dinâmica própria, original. A metrópole perde importância e o Brasil ganha autonomia desde seus albores, dentro desta tese. O motor de nossa história não seria a metrópole, mas uma dinâmica interna ao país e às suas particularidades. O papel organizador do governo central e da Monarquia Lusitana, em nossa formação, desaparecem na tese de Caldeira. O Brasil já era uma democracia desde 1532, pois sempre subsistiram eleições para as vilas em toda a era colonial – ele dirá. Nossa economia era livre e empreendedora desde sempre, prova disso é o “papel do fiado” na economia informal, aduz Caldeira.

Ora, segundo ele, esta forma de economia e sociedade teria nascido antes da democracia burguesa e seria resultado dos deserdados, que colonizam a terra num espírito de confrontação a autoridade central e real. A tese de Caldeira não fica muito distante do molde do materialismo histórico, onde é a luta de classes o princípio explicativo da formação histórica. Deserdados x Poder Régio: esse é o esquema de Caldeira. É com tal esquema que o Brasil Paralelo pretende confrontar a visão marxista sobre a nossa História?

A obsessão de Caldeira, porém, é confrontar o modelo de Frei Vicente de Salvador, o primeiro historiador brasileiro, o primeiro a escrever uma história do Brasil. Salvador punha o acento sobre a Metrópole enquanto fator organizacional e estruturante de nosso processo histórico.

Outro ponto a se notar é que Caldeira defende que os Templários tiveram um papel fulcral no descobrimento do Brasil. Segundo o mesmo, esta ligação se daria via Ordem de Cristo, fundada em Portugal por Dom Dinis, que era herdeira da tradição templária. A tese de Caldeira – exposta pela revista Superinteressante – vale a pena ser lida por razões didáticas: serve para evitarmos certos equívocos e simplificações. A tese possui erros notórios, visíveis para qualquer historiador de mediana formação. Vamos a eles:

(1) “só a Ordem de Cristo, uma companhia religiosa-militar autônoma do Estado e herdeira da misteriosa Ordem dos Templários (veja na página 40), tinha autorização papal para ocupar – tal como nas cruzadas – os territórios tomados dos infiéis (no caso brasileiro, os índios)”.

É verdade que a Ordem de Cristo – um reforma da Ordem dos Templários em Portugal – tinha tal autorização, mas não é verdade que se pudesse falar, desde 1500, que os índios eram infiéis. A impressão que havia de início, na cristandade, era que os índios podiam ser descendentes de Adão, antes do pecado original. A crença na inocência dos índios era baseada na imagem de nudez ressaltada por Pero Vaz Caminha, que será retomada, com menos talento literário, por Vespucci . Caminha contrasta a ingenuidade comercial e a confiança inicial destes homens que, desde o primeiro dia, se estendem e dormem no convés do navio, com a deslealdade, a cupidez e a sede de ouro e prata dos portugueses.

A alegação de Caldeira é simplesmente grotesca para um historiador profissional. Outrossim, Caldeira tenta mostrar que nossa descoberta teria sido fruto de um conhecimento preservado em segredo pelos templários e que, portanto, não teria sido ocasional como diz Frei Vicente de Salvador:

“A terra do Brasil, que está na América, uma das quatro partes do mundo, não se descobriu de propósito, e de principal intento; mas acaso indo Pedro Álvares Cabral, por mandado de el-rei d. Manuel, no ano de 1500 para as Índias, por capitão-mor de 12 naus, afastando-se da costa de Guiné, que já era descoberta ao Oriente, achou estoutra ao Ocidente, da qual não havia notícia alguma, foi costeando alguns dias com tormenta até chegar a um porto seguro, do qual a terra vizinha ficou com o mesmo nome” (Frei Vicente do Salvador. História do Brasil, Livro Primeiro, Capítulo 1).

Ora, Frei Vicente teve acesso a muitos documentos da coroa lusitana sobre nossa descoberta e início de nossa colonização, além de ter tido acesso a muitos testemunhos orais de pessoas que haviam presenciado acontecimentos. Alegar que houvesse uma desconfiança dos portugueses quanto a existência de terra para este lado do oceano é até plausível. Afirmar que templários sabiam da existência do Brasil é pura especulação que não pode ser apoiada nem mesmos em indícios. Isso deixa clara a incompetência analítica de Caldeira.

(2) “No começo do século XV, Portugal era um reino pobre. A riqueza estava na Itália, na Alemanha e em Flandres (hoje parte da Bélgica e da Holanda). Então como foi que os lusitanos encabeçaram a expansão européia? A rica Ordem de Cristo foi o seu trunfo decisivo.”

Mais uma vez, Caldeira erra. Há referências de relações comerciais entre Portugal e o Condado de Flandres desde 1267 (ver: Joel Serrão. O carácter social da revolução de 1383, p. 95, Livros Horizonte, 1976).

Em 1297, com a conclusão da Reconquista, o rei D. Dinis concretizou políticas em matéria de legislação, ordenando a exploração de minas de cobre, prata, estanho, ferro, organizando-os para exportação e a produção excedente para outros países europeus. Em 1293, D. Dinis instituiu a Bolsa de Comércio, um fundo comercial para a defesa dos comerciantes portugueses em portos estrangeiros, como o Condado de Flandres, que tinham de pagar determinadas quantias em função da tonelagem, obtidos por eles quando necessário (ver: E. Michael Gerli; Samuel G. Armistead, Medieval Iberia: an encyclopedia, Volume 8, Routledge encyclopedias of the Middle Ages, p. 285). Em 1308, assinou o primeiro contrato comercial de Portugal com a Inglaterra.

Portugal, portanto, já possuía capital acumulado o suficiente, e uma estrutura comercial, para custear a expansão marítima. Não é necessário recorrer a Ordem de Cristo para explicar o financiamento das conquistas. Desde o fim do século XIII, Portugal estava ligado às praças mercantis mais importantes do mundo europeu. Ainda que o capital da Ordem tenha sido usado neste processo, nada demonstra que ele tenha sido a causa decisiva, pois o processo já estava em curso antes mesmo do estabelecimento da referida Ordem no reino lusitano.

(3) ”Em 1416, quando assumiu o cargo de grão-mestre, d. Henrique lançou-se à diplomacia. Passaram-se cem anos desde que os templários haviam sido condenado nos processos de Paris e o Vaticano estava preocupado com a pressão muçulmana sobre a Europa, que crescera muito no século XIV”

O Vaticano só foi criado pelo Tratado de Latrão, em 1929.

Cremos que um erro tão grosseiro basta para demonstrar que Caldeira não é lá grande coisa.

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Além de Caldeira, o Brasil Paralelo traz outras figuras pouco relevantes para se entender a história do Brasil, como Rafael Nogueira – que sequer é formado em história: segundo o site do projeto, ele se destaca por ser “Aluno de Olavo de Carvalho há dez anos”, além de ser formado em Filosofia e Direito, pela Universidade Católica de Santos, e pós-graduado em Educação; o site diz que ele é pesquisador de história, mas não refere quais pesquisas seriam estas e nem onde elas se encontram.

Thomas Giuliano – que, segundo o site do projeto, “respeita a singularidade do direito à escolha própria dos indivíduos”, e que se autodefine como pesquisador autodidata.Sérgio Pachá – chamado historiador pelo site do projeto, mas que não possui formação alguma em História (a não ser em língua e literatura), nem nada publicado sobre História pelo que sabemos.

Daniel Fernandes – segundo o site, ele “é pesquisador dedicado aos estudos patrísticos e à história intelectual do Brasil contemporâneo”, mas sem nenhum artigo, livro, livreto publicado sobre tais “pesquisas”.

Entre outros.

No mais, a maioria dos nomes responsáveis pelo projeto são de áreas estranhas à História, não estando habituados ao trato científico com os problemas historiológicos e historiográficos, não tendo nada publicado sobre História de Portugal e Brasil, colonização, navegações lusas, tirando uma ou outra exceção (caso de Alberto da Costa e Silva).

Trataremos da incapacidade teórica e prática no lidar com a História, por parte do projeto e de suas figuras, mais a frente. O que queremos agora é compreender o que está por trás do projeto e a razão de a tese de Caldeira ser bastante veiculada no primeiro vídeo da série.

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Lembremos que, tempos atrás, a Olavosfera promoveu um documentário sobre José Bonifácio. Nele, a tese basilar é a de que Bonifácio teria sido o pai do Brasil, aquele que concebeu e pensou o país como Estado-Nação. Não custa recordar que Olavo de Carvalho, faz anos, vem insistindo num louvor demasiado à tradição estadunidense. Logo, não é sem razão que a referência a Bonifácio se faça nestes moldes. O modelo interpretativo que aparece no documentário sobre Bonifácio lembra muito a interpretação dominante sobre a história dos EUA. Bonifácio vira o Fouding Father do Brasil, exatamente como os EUA tiveram os seus Founding Fathers. Na concepção do documentário, o Brasil, mais do que projeto da Monarquia Lusitana, é obra de um maçom, assim como os EUA foram obra da articulação maçônica. Aliás, quem assevera que os EUA são fruto disso não somos nós, mas o próprio Olavo: para sermos mais específicos, o Sr. Carvalho aduz que a aristocracia dos Estados Unidos, como ele afirma no Jardim das Aflições – livro do fim da década de 90 que foi reeditado recentemente –, é toda maçônica: “todos os signatários da Declaração de Independência são maçons” (o que é verdade, diga-se de passagem). A maçonaria é a responsável, segundo Olavo, não por este ou aquele evento histórico determinado, mas pela “determinação do âmbito dentro do qual os eventos históricos se desenrolaram”.

Ninguém ignora a atual Americanofilia de Olavo. Esta fica patente, seja pela adoção de um discurso político que se pauta por um conjunto de ideias que remetem à ideologia do partido republicano – as loas dele ao antigo governo Bush, e seu anti-obamismo radical, deixaram isso claro por anos a fio –, seja pelo seu hábito de desculpar a cultura e história dos EUA por qualquer coisa relativa a “globalismo ocidental”, seja mesmo pela opção de valorizar, sobremaneira, escritores anglo-saxões no famigerado COF.

O plano de Olavo – já delineada no True Outspeak, no COF, nas suas intervenções culturais várias –, que explica a natureza profunda do Brasil Paralelo, é bem simples: despojar o Brasil de sua identidade própria, de sua forma de ser, para adotar um outro modelo de civilização. Mas não era disso que ele falava no livro O Futuro do Pensamento Brasileiro, onde ressaltava que, quanto mais nos ocupássemos de nossa identidade, menos relevância teria nossa cultura? Assim, ao invés de enfatizar nossa raiz “patriarcal-corporativa-centralista”, de origem lusitana, enfoca-se em uma nova tradição “individual/liberal/democrática” (não é sem razão a participação de um Bruno Garschagen, e de membros do Instituto Mises Brasil, no projeto: lembramos que Garschagen força uma interpretação da história econômica do Brasil em bases liberais, onde chega mesmo a dizer que, antes de Pombal, havia uma tradição de livre iniciativa no país) bem parecida com a estadunidense: tínhamos liberdade econômica, mas veio Pombal e nos tirou esse direito – como ocorreu com as 13 colônias que tinham liberdade, mas vieram a perdê-la graças às intervenções do governo inglês. Ora, se somos assim tão parecidos por que não nos espelharmos na tradição dos EUA a fim de restaurar a pátria?

Então, onde o Brasil Paralelo quer chegar? Nos parece claro que os objetivos do projeto são os seguintes:

(1) Valendo-se da tese espúria de Caldeira, os templários viram a “elite que forjou Portugal”, e, por tabela, o Brasil (diga-se de passagem que a tese da influência templária direta, ou mesmo decisiva, sobre as navegações, é apenas uma hipótese sem prova histórica contundente. Tal hipótese ignora que portugueses, galegos e bascos já eram pescadores desde muito cedo. A caça à baleia começa no Mar da Biscaia no final do século X, pelo menos. Que eles chegariam do outro lado do mar era algo que aconteceria com ou sem templários).

(2) Sabe-se que a tradição maçônica remete aos templários como sendo a origem de alguns de seus títulos iniciáticos, graus, símbolos, doutrina. Ora é evidente que tal tese – a de uma continuidade entre templários e esoterismo maçônico – ainda precisa ser devidamente comprovada, mas ela é bastante plausível pelas seguintes razões:

(i) Uma das acusações de maior peso no processo contra os Templários, sem dúvida, foi a das suas relações próximas com o Islão. Em 1229, Frederico II coroou-se rei de Jerusalém, após ter negociado com os muçulmanos sunitas do Egito a rendição e entrega da Cidade Santa. Nunca obteve o reconhecimento como rei de Jerusalém por parte dos Templários e nem tampouco do sultão do Egito; supõe-se que aqueles devem ter auxiliado secretamente a surpreender e a vencer no campo de batalha o autonomeado rei de Jerusalém. No processo movido contra os Templários, o Papa Clemente V lembrou este episódio para fundamentar a sua condenação.

(ii) Durante o julgamento dos cavaleiros da Ordem em Paris, foi invocado contra eles o episódio daquele guerreiro cristão franco, recém-chegado a Jerusalém, que os Templários repreenderam por ter molestado um árabe durante a sua oração: episódio que fora narrado em primeira mão pelo próprio molestado, o príncipe Usama ibn Munqidh, embaixador do sultão de Damasco cerca de 1175, considerado um amigo do Templo:

“Quando estava em Jerusalém – escreveu Usama – costumava ir à mesquita Al-Aqsa, a Cúpula da Rochedo, ao lado da qual há um pequeno oratório que os francos converteram em igreja. Sempre que entrava nela, que estava em poder dos Templários que eram meus amigos, eles colocavam o pequeno oratório à minha disposição, para que eu pudesse rezar lá as minhas orações. Um dia, tinha entrado e dito o Allahu akkbar e preparava-me para me levantar quando um franco se atirou a mim pelas costas, levantou-me e virou-me para que eu ficasse voltado para oriente. ‘É assim que se reza!’, disse. Alguns Templários intervieram imediatamente, agarraram o homem e afastaram-no do meu caminho. Mas assim que o deixaram ele agarrou-me de novo, obrigou-me a virar para o oriente e repetiu que era assim que se rezava. De novo os Templários intervieram e levaram-no. Pediram-me desculpa e explicaram: ‘É um estrangeiro que só chegou hoje e nunca viu ninguém orar para qualquer outra direcção que não fosse para oriente’. ‘Terminei as minhas preces’, respondi e saí estupefacto com o fanático.”

(iii) É fato provado que a Ordem do Templo sempre privilegiou mais o Xiismo, mais místico e aberto, que o Sunismo. Como diz Bernard Marillier:

“[…] uma coisa é certa: a Ordem dos Assacis desenvolve-se à medida das conquistas cristãs e da implementação das fortalezas templárias, o que não foi obra do acaso, mas devia corresponder a um movimento paralelo, de ordem material e sobretudo espiritual ou supra-espiritual tendo por objectivo a realização de um ‘grande desejo’” (Marillier, Bernard, Templários, p. 43-48, Hugin Editores, Ltda., 1998).

De resto, é provável que o Templo tenha compreendido toda a vantagem que poderia tirar de uma aliança com os Assacis, primeiro contra os príncipes cristãos que se opunham ao seu poder no Oriente, donde o assassinato pelos Assacis do filho de Raimundo de Tripoli, hostil ao Templo, aliança comum contra o príncipe de Antioquia – pela qual os Templários foram censurados pelo Papa Gregório IX em 1236. De resto, o que se sabe, e é incontestável, é que, mesmo que não tenham sido alterados os princípios fundamentais da teologia católica pelo Templo, ainda assim muita metafísica islâmica veio a influenciá-lo com conhecimentos e interpretações mais amplas e profundas. Também é fato que o Templo manteve relações estreitas com várias sociedades filosóficas e corporativas existentes nessas partes orientais: tanto colégios cristãos de Bizâncio ou independentes, de foro anacorético, como corporações muçulmanas ou tarucs, florescidas do século IX em diante com o Movimento Karmate ou Ismaelita, do qual sairiam, em 1090, os Assacis. Foi pela adaptação do modelo de uns e outros que os Templários do reino de Jerusalém constituíram comunidades de construtores, os chamados franco-maçons (Chema Ferrer Cuñat, Los templarios y la secta de los Asessinos. In: Codex Templi, Los misterios templarios a la luz de la Historia y de la Tradición, Santillana Ediciones Generales, S.L., Madrid, 2006).

(3) Se os templários forjaram o Brasil, e se eles deram origens a organizações iniciáticas/esotéricas (como alega a Maçonaria), nada mais natural que apresentar um maçom – José Bonifácio – como Pai do Brasil. O país nasce, aí, de um plano elaborado por uma organização semioculta. Assim, sua restauração só pode ser feita por pessoas ligadas a um novo Pai Fundador, que remodele o país em cima desta mesma tradição primeva (no, caso Olavo de Carvalho e sua “elite” intelectual).

(4) Deste modo, como os EUA foram fundados numa tradição democrática, o Brasil também foi: Caldeira não diz que somos uma democracia desde 1532? Se os EUA tinham, por trás do seu recém criado organismo democrático, uma aristocracia iniciática, o Brasil, fundado pelos Cavaleiros da Ordem de Cristo – continuadora dos Templários – teria neles a referência a uma aristocracia esotérica como fundo da nossa formação, nos mesmos moldes da história americana. O uso da tese de Caldeira em relação com aquilo que Olavo sustenta em seu COF – formar uma “elite intelectual” a reboque dele – é um meio de legitimar um novo projeto para o país, com base numa pretensa tradição histórica: nossa salvação é sermos governados por uma nova aristocracia, de cunho intelectual, a partir da qual a democracia brasileira será uma espécie de quadro organizacional, a proporcionar sua atuação discreta.

(5) Esta neo-aristocracia intelectual será responsável pela determinação do âmbito dentro do qual os eventos históricos vão se desenrolar. Ela será formada pelo círculo de seus alunos. Ela vai moldar a cultura, a linguagem, a religião, o imaginário.

(6) Cabe lembrar do papel que Olavo dá a maçonaria no processo de restauro do Ocidente: “De acordo com Guénon, a civilização do ocidente se não conseguisse reunificar maçonaria e cristianismo – pequenos e grandes mistérios – restaurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional não teria alternativa senão cair na barbárie ou islamizar-se” (Jardim das Aflições, p. 262).

Recordemos que Olavo foi listado pelo Grande Oriente do RJ como ilustre maçom (veja aqui) e que, nos idos de 1998/2000, foi afastado da Capela São Miguel do RJ, onde frequentava a missa tradicional celebrada por Dom Lourenço, em razão do mesmo ter ficado sabendo de sua recente iniciação na Romênia. Recordemos também qual é o papel que Olavo atribui a maçonaria em termos de Brasil.

(7) A filiação maçônica de Olavo seria, em suma, o arco da abóboda. No fundo, o Brasil Paralelo foi criado para pôr o país a reboque de um iniciado e de uma organização secreta, se valendo de falsos argumentos históricos para justificar tal empresa de forma sutil e sub-reptícia.

O site do projeto confessa que:

“NOSSOS PLANOS NÃO PARAM POR AQUI, ESTAMOS APENAS COMEÇANDO, E ESTAMOS LHE ENTREGANDO O NOSSO COMPROMETIMENTO EM CAUSAR O MAIOR IMPACTO CULTURAL QUE NOSSO PAÍS JÁ PRESENCIOU”

E também que:

“TEMOS UM OBJETIVO BEM CLARO: TRANSFORMAR O IMAGINÁRIO POPULAR BRASILEIRO. PARA ISSO ACONTECER, CONTAMOS COM VOCÊ”

Transformar o imaginário? Mas qual seria o intento de tal transformação? Isso pode parecer despretensioso: se falassem de tomar o poder, alguns poderiam se alarmar, mas trata-se “somente” de modelar o imaginário. Porém, tal modelagem é o segredo do poder em termos gerais. Olavo mesmo nos explica isto em um trecho do Jardim das Aflições:

“[…] a maçonaria não é um arquiteto invisível da história mundial, mas uma sociedade secreta que, pelo seu próprio modo de funcionar, molda o imaginário de seus membros e delimita seu campo de ação.”

É a partir daí que podemos explicar a articulação entre o recente lançamento da série sobre Bonifácio, do filme sobre o Jardim das Aflições e, agora, do Brasil Paralelo.

Quem tiver olhos, que veja.

Voltaremos ao assunto.

Rafael Queiroz

Católico e escritor do blog Legião de Santa Cruz.

8 Comments

  1. um dos erros do documentário (que só tive animo pra assistir a primeira parte) é o excesso de falsa dicotomia, especialmente quando falam da ibéria. eles ignoram que ambos muçulmanos e cristãos passavam mais tempo lutando entre si do que uns contra os outros, sendo esse o motivo pra que muito historiador considere a “reconquista” como um mito de formação nacional, isso sem falar no fato que deram tanto foco para a conquista de Granada, mas esquecem que granada passara os 200 anos anteriores sendo vassala de Castela

  2. outro erro é quando o olavo fala que os romanos davam cidadania imediatamente, se eles dessem não veríamos o apóstolo paulo tendo que falar para os governantes da judeia que ele era cidadão romano, roma só foi dar cidadania para os povos conquistados lá pra 212 dc. eles também exageram a importância de Tours/Poiters, e ainda erram a descrição da batalha. de acordo com Ian Heath em Armies of the Feudal Age, da Wargames Research o exército muçulmano era uma tropa de raide, que ia fazer saques na aquitania e depois voltar para a ibéria, mas após vencerem o duque Eudo no caminho este pediu ajuda para Martell, Martell atacou quando os muçulmanos estavam retornando para a ibéria, e pararam para verificar o saque. após a cavalaria recuar os soldados no acampamento acharam que era uma fuga, e fugiram do campo. Poiters teve efeito curto, pois mesmo após a vitória a rota da aquitania foi substituída pela roda do vale do Rodan, liberada para os muçulmanos após o patriarca de Narbonne fazer um acordo em troca de proteção contra os francos.

  3. e além de dar sentimento cruzadista para Poiters eles cagam com as cruzadas em si, o imperador bizantino queria mercenários para defender Constantinopla aproveitando a guerra civil dos seldjúcidas, e não um monte de latino indo pro levante. eles falam de ataques contra peregrinos, só que o único ataque que se conhece foi o contra a grande peregrinação germanica de 1064, que foi atacada por bandidos bérberes que aproveitavam a guerra civil dos fatímidas (sendo salvos após ir pra um forte fatímida). eles também passam toda a culpa da destruição dos templários pro rei como se o papa não tivesse nenhuma vontade própria, é verdade que ele foi posto no cargo pelo Felipe, mas isso não quer dizer que ele não gostasse da aliança, além de que o processo foi feito feito pela inquisição francesa (cujo grão inquisidor era aliado de felipe). o temor de felipe era que os templários comprassem o sul da frança, sendo que eles já haviam reclamado de não terem territórios, enquanto os hospitalários tinham malta e os teutonicos tinham estados no báltico

  4. eles falam de portugal ter dado refúgio, mas isso não aconteceu, ambos portugal e aragão nacionalizaram as ordens religiosas em seu território, quem realmente deu refúgio foi os hospitalários, sendo que alguns fugiram para a escócia. mas mesmo se fosse assim as navegações só começam mais de 100 anos após o fim da ordem, mesmo que alguns membros agora fizessem parte da ordem de cristo não está certo falar que eram os templários os responsáveis pelo descobrimento, até por que eles nem sequer foram os principais financiadores

  5. e claro, não podemos esquecer de falarem que o desarmamento civil ajudou a conquista do reino visigodo, sendo que em primeiro lugar civil nunca foi armado antes da idade contemporânea, e em segundo não tem como civil armado com lança fazer nada contra soldados treinados

  6. Vejam no yt o vídeo: As falácias do Brasil Paralelo.

    Nele a intelectualidade do suposto pesquisador Rafael Nogueira cai completamente por terra.

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