Laranja Mecânica, ultra-violência e a técnica moderna:

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, é um daqueles filmes marcantes que você pode assistir mil vezes e, mesmo sabendo para a onde a história vai te levar, nunca enfarará ao longo desse processo, pois será surpreendido de mil maneiras diferentes, uma mais deliciosa do que a outra.

Baseado no livro homônimo do escritor britânico Antony Burgess, o longa descreve a trajetória de Alexander DeLarge (interpretado por Malcom McDowell), líder sádico de uma gangue de delinquentes juvenis que se divertem fazendo vítimas com a prática de horrorshow em noites agitadas na Londres futurista, palco de brigas homéricas regadas a doses homeopáticas da “boa e velha ultraviolência”, no melhor estilo cyberpunk da década de 70.

Ao som de Ludwig van Beethoven, por quem nutre uma admiração quase incontrolável, o jovem Alex narra suas peripécias e desejos intercalando cenas bombásticas do tipo que só uma mente insana seria capaz de conceber, tudo na presença de inúmeros detalhes visuais e cores fortes, que não só capturam a atenção do espectador, como o deixam maravilhado (ou horrorizado, dependendo de sua reação habitual a atrocidades).

Por se tratar de uma distopia, é natural que a atmosfera criada por Burguess (e genialmente assimilada pela adaptação de Kubrick) seja bastante similar à de 1984, de George Orwell e de O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, com a diferença de que a narrativa em comento exige um pouco mais de imaginação por parte do espectador na lida com as gírias importadas do Nadsat (dialeto fictício de tribos urbanas criado por Burguess, através do qual é narrada toda a trama).

Apesar dos cortes, que em nada prejudicaram o desenvolvimento do enredo principal, pode-se dizer que o filme consegue resgatar, com algumas pinceladas de excentricidade (marca registrada do diretor, também presente em 2001: Uma Odisseia no Espaço e Dr. Fantástico), as questões mais importantes suscitadas pelo original de Burgess, que trata, basicamente, da desnaturalização daquilo que antes era natural. (Daí o título Laranja Mecânica, baseado na expressão “as queer as a clockwork orange”, que os ingleses usavam toda vez que queriam se referir a algo bizarro, estranho ou absurdo).

O que é colocado em perspectiva são os limites morais da violência, e em que medida ela é capaz de servir para legitimar a repressão de atos considerados socialmente indesejáveis. Assim, questões sempre atuais como “até que ponto um homem que perdeu sua humanidade pode ser reabilitado por meio da técnica numa época em que o próprio sentido de ser humano parece ter sido pulverizado pela marcha do progresso?” e “de que maneira a vulgarização das artes e de todo o arcabouço estético e cultural de um mundo cada vez mais dependente de mecanismos artificiais vai nos transformando aos poucos em espécimes ‘tão estranhos quanto uma laranja mecânica?’” são trazidas à tona de uma forma completamente surreal e um tanto quanto inusitada.

O espectador precipitado pode achar, em um primeiro momento, que a adaptação cinematográfica (diferentemente do livro, dividido em três partes, quais sejam: a da imaturidade, a da transição para a maioridade e a fase em que o protagonista finalmente atinge a maturidade) trata da ressocialização de criminosos perigosos em uma sociedade constantemente vigiada, e que isso é representado, principalmente, pelo tratamento Ludovico a que Alex é voluntariamente submetido; ou talvez pense que a intenção principal da obra é condenar o Estado pelo cerceamento das “liberdades individuais”, posto que o procedimento em questão é famoso por transformar predadores em presas, objetos de prazer e êxtase (como a Nona de Beethoven, no caso do nosso herói) em terror sufocante, potencialmente suicida. Contudo, tais interpretações não sobrevivem a uma análise mais elaborada, e pecam por simplificar demasiadamente o escopo da obra.

Em verdade, o que Laranja Mecânica está nos dizendo pode ser resumido ao diálogo que Alex tem com o capelão no presídio, para onde é enviado após ter assassinado por acidente uma cuidadora de gatos e, na sequência, traído por seus drugues. Quando pergunta ao padre o que ele pensa sobre Ludovico, a técnica pavloviana capaz de “curar” delinquentes cujo sucesso vinha sendo amplamente noticiado pelos jornais, obtém, como resposta, o seguinte: “A virtude vem de nós mesmos. É uma escolha que só a nós pertence. Quando um homem perde a capacidade de escolher, deixa de ser homem”. Com efeito, alguém que prescinde da capacidade de fazer a escolha certa não pode ser considerado efetivamente livre, pois terá perdido sua humanidade junto com essa capacidade. Neste ponto, Kubrick consegue ser ainda mais subversivo do que Burguess, no sentido de que seu Alex, apesar de Ludovico, jamais atinge a maturidade, e o filme termina exatamente no ponto em que parece ter começado.

Mais do que uma apologia ao livre arbítrio, Laranja Mecânica é uma viagem repleta de paisagens delirantes com destino ao coração da contracultura. .

Gustavo Aguiar

Estudante de Direito da Faculdade Santo Agostinho, militante da NR-MG e filósofo diletante.

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