A destruição da cultura brasileira:

Alexander Dugin e o Logos de Ariel:

De forma brilhante, o Professor Alexander Dugin, em seu livro O Logos de Ariel, explica através de diversos estudos de autores essencialmente latinos e, de acordo com as manifestações das Américas, como os “novos povos” são diferentes daquilo que foi formado na América do Norte pelos invasores protestantes. Sua análise é muito precisa e desce às profundezas daquilo que compõe a mentalidade brasileira, tanto em suas raízes como em seu desenvolvimento. De forma complementar, podemos analisar o seguinte:

A cultura brasileira é um fenômeno único e singular. Segundo Darcy Ribeiro, a formação dos “povos novos” ocorreu entre a síntese do ibérico com os escravos e índios, formando algo que não é indígena, nem africano ou europeu. Entretanto, cada componente forneceu uma impressão profunda na alma dos “povos novos”. Aqui, é importante salientar uma diferença fundamental entre a mentalidade colonial ibérica e a mentalidade saxônica. Portugueses e espanhóis, tanto durante as descobertas do Novo Mundo como durante o período colonial, estavam afastados das reformas modernistas dos saxões – um fato que se deve à forte presença católica romana entre os ibéricos. Essa diferença de mentalidade se refletiu na formação dos “povos novos” e, no Brasil, na formação de uma cultura própria, envolvendo não só a formação social como novas manifestações religiosas e uma cosmovisão muito particular.

Quando olhamos, por exemplo, a questão da religião afro-brasileira, notamos uma diferença fundamental: enquanto nos EUA os escravos eram espalhados pelo continente, sem qualquer agrupamento étnico ou cultural, a organização no Brasil, em irmandades, que organizavam os negros em nações, para que fossem catequizados no Catolicismo, como a Confraria do Senhor da Redenção, dos negros daomeanos. Tais irmandades, embora combatessem o culto africano e buscassem a conversão dos negros, foram fundamentais para a sobrevivência das tradições africanas no Brasil, ainda que em formas sincréticas e em um novo sentimento religioso, que influenciou a formação de um culto diferente do culto africano[1]. Da mesma forma, a relação dos portugueses com os índios era diferente da relação dos puritanos: portugueses buscavam a catequização dos índios, enquanto ingleses buscavam o extermínio. As culturas indígenas e africanas não sobreviveram nos EUA como no Brasil por uma questão muito simples: o português, ainda imbuído do espírito católico, buscava “ganhar almas”, o inglês, com base no puritanismo racista do Protestantismo, buscava apenas varrer o Novo Mundo, visto como a nova “Terra Prometida” e, os locais, vistos como os povos habitantes da antiga Terra Prometida e inimigos do povo eleito. Uma diferença que reflete a diferença entre as teologias cristãs: a Teologia Católica, da Igreja Visível e Universal, e a Teologia Protestante, a Igreja dos eleitos, restrita aos modos protestantes. Portanto, a abertura do catolicismo para outras culturas é inegável, enquanto a mentalidade protestante é essencialmente saxã – e entenda, aqui, não a mentalidade verdadeiramente saxã, mas a mentalidade deturpada formada pelo Protestantismo.

Os “novos povos”, portanto, foram formados por essa mentalidade que, quando em contato com os índios e africanos, formou não só novas misturas culturais, mas também religiosas e culturais. Enquanto os poucos sobreviventes indígenas dos EUA foram obrigados à completa imersão na vida americana ou à vida em pequenas reservas restritas, e os negros absorvidos por completo no modo de vida americano, inclusive religioso, no Brasil surgiu um novo modo: um sincretismo completo que formou um catolicismo singular, uma religião afro-brasileira singular e uma cultura indígena, em até certo ponto, particular. Obviamente, isso não quer dizer que muitos atos dos colonizadores portugueses foram legítimos, como a escravidão, assassinatos, conversões forçados etc. Entretanto, a mentalidade ibérica permitiu a sobrevivência de diversos outros elementos culturais e a formação de um “novo povo”.

Cultura Negra Brasileira e Cultura Americana

Quando falamos em cultura popular, a questão da diversidade é muito mais presente no Brasil do que entre os estadunidenses. A cultura que prevaleceu entre os estadunidenses é essencialmente branca e de moral Protestante. Até mesmo entre os negros, pouco da cultura negra sobreviveu, quando comparados aos brasileiros. O negro americano, mais americano e mais preso ao ideal Protestante de buscar a riqueza, difere daquilo que era, antes da invasão midiática, do negro brasileiro, mais ligado às raízes e sua herança. É interessante notar, por exemplo, o fascínio que o Islã exerceu em muitos ativistas negros estadunidenses, algo que não ocorreu no Brasil[2]: a falta de qualquer resquício cultural da cultura negra nos EUA fez com que o Islã surgisse, para eles, como um fator libertador, justamente por ser o contrário da mesquinhez racistas do Puritanismo: afinal, o primeiro muezim do Islã foi um escravo negro.

A cultura musical negra, por exemplo, embora também tratada como marginal em seu início, nunca refletiu elementos culturais propriamente africanos. O Blues, embora nascido nos cantos dos afro-americanos para embalar o trabalho nas plantações, possui um caráter muito mais melancólico do que o Samba brasileiro – o Samba, embora repleto de letras melancólicas, de saudades e tragédias, não possui o mesmo caráter essencialmente melancólico do Blues. Um exemplo:

I got stones in my passway
And my road seem dark as night
I got stones in my passway
And my road seem dark as night
I have pains in my hearts
They have taken my appetite

I have a bird to whistle
And I have a bird to sing
Have a bird to whistle
And I have a bird to sing
I got a woman that I’m loving
Boy, but she don’t mean a thing

My enemies have betrayed me
Have overtaken poor Bob at last
My enemies have betrayed me
Have overtaken poor Bob at last
And here’s one thing certainly

Robert Johnson – Stones In My Passway

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade

Folhas Secas – Nelson Cavaquinho

O Blues americano representa uma completa melancolia resignada, causada pela identidade perdida, um pessimismo de alma. O Samba brasileiro, mesmo em seus momentos mais melancólicos, apega-se ao passado ou a um renascimento. O sentimento do negro brasileiro é aquele de quem perdeu alguma coisa e encontrou algo novo. É uma conseqüência entre a saudade e uma nova descoberta. O do negro americano, pelo contrário, é apenas desolação.

Desta forma, enquanto o brasileiro esteve separado da cultura americana, a entidade brasileira foi preservada. As músicas populares, em diversos ritmos, retratam as raízes locais, o sentimento do negro e do índio, a vida no campo, as mazelas sentimentais curadas pela bebida ou por um novo amor.

É preocupante, entretanto, como a influência da cultura americana tem deteriorado a noção do brasileiro em relação à sua identidade. A música negra moderna dos estadunidenses não busca as raízes perdidas, não busca uma libertação de fato, mas sim a mesma forma de escravidão já sofrida pelos brancos, uma escravidão ao consumismo e ao modelo escravista americano. Pois o sistema de consumo, baseado na usura bancária, é um navio negreiro – errados estão aqueles que, em situação econômica pior, imaginam que a libertação está em subir alguns degraus na escravidão, sem lutar pelo fim do sistema escravocrata. A “libertação” proposta pela ideologia da música negra pop americana não é uma libertação, é apenas uma cobiça. Isso ocorre pela falta de identidade – no Brasil, não precisamos disso.

Uma Nova “Cultura Brasileira”

O que se vê no Brasil, tanto nas manifestações ideológicas como culturais, é uma tentativa desesperada para encontrar algum sentido em ideologias, manifestações culturais e ideias estrangeiras. De um lado, conservadores adulam um conservadorismo que é o completo oposto às raízes do nosso povo, do outro, vemos uma flutuação absurda entre o niilismo e a “moral de pressão” dos grupos pós-modernos, que é apenas um moralismo formado por valores falsos dos grupos de pressão. Assim, a discussão está sempre entre “isso é uma degeneração”, “é amoral”, “é contra os valores judaico-cristãos” e “isso é manifestação cultural dos oprimidos”, “voz da periferia”, “empoderamento” – dos dois lados, temos apenas zurros, imbecis buscando justificar preconceitos e burrices. Ninguém se dá conta que o problema está no ataque direto ao dasein brasileiro, ao que é nossa identidade. Toda sociedade, ao perder sua identidade mais profunda, caminha para a barbárie e para a polaridade. Sem uma identidade única, a sociedade é dividida entre “nós” e “eles”, que são na verdade uma forma revivida de Gog e Magog. São urubus lutando pelos últimos pedaços da carniça.

Desta forma, o conservador que defende a ideologia de um Russel Kirk é tão burro e perdido quanto qualquer MC de favela que canta um “nóis chega”. O discurso pode ser mais bonito, mas a cegueira é a mesma. O imbecil defensor de valores estadunidenses e britânicos no Brasil acaba, por ironia, lutando ao lado do funkeiro de favela que busca a cultura do consumismo e da ostentação.

Enquanto a verdadeira cultura brasileira exalta, em diversos ritmos, sotaques, danças, lendas e outras manifestações os valores ibéricos, católicos, africanos e indígenas, o idiota do baile funk veste uma camisa de algum time europeu e outras quinquilharias de marcas importadas. Ao mesmo tempo, o “conservador” idolatra figuras tipicamente estadunidenses: a caça esportiva, a vestimenta “conservadora”, adota uma postura quase “britânica”.

O problema, portanto, não está centrado na degeneração “moral“. O problema é a falta de identidade cultural. O funk não é fruto da ausência moral – é fruto da nossa morte cultural. É fruto da invasão cultural estadunidense, financiada desde as camadas mais exaltas da sociedade, que hoje também consomem todas as formas da nossa degeneração cultural. Não vivemos um problema “racial”, vivemos um problema cultural.

Embora esta idéia pareça um tanto reacionária para alguns antropólogos, que acreditam na cultura “viva” e em constante transformação e, portanto, todo fenômeno cultural, independente da influência externa, é “cultura”. De fato, assim pode ser considerado de acordo com fins exclusivamente acadêmicos – entretanto, quando partimos de um ponto de vista superior, sabemos que não é assim. Basta analisar, primeiro, de acordo com um olhar histórico: a formação do dasein brasileiro com os “novos povos”, na união entre o sentimento do negro, o sentimento do índio e as intenções dos colonizadores ibéricos difere bastante da influência estadunidense. Em um caso, ocorreu um verdadeiro “casamento alquímico” que, mesmo na união, preservou diversos elementos. No outro, temos apenas a influência de valores decaídos de uma mentalidade completamente estranha à cultura local. Pois não é preciso ser partidário da chamada escola “perenialista” para notar certa semelhança entre as diversas civilizações antigas – qualquer pessoa em sã consciência consegue notar pontos semelhantes entre a cosmovisão ibérica e os diversos povos africanos, por exemplo, mas o mesmo não ocorre quando você analisa a civilização ibérica em comparação à civilização anglo-saxônica.

Portanto, a questão do atual choque cultura não é apenas ideológica. São filhos do mesmo pai brigando por uma fatia do bolo, talvez a última da festa, pois a destruição daquilo que é a essência de uma civilização só pode acabar em banho de sangue e extinção.

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[1] O culto afro-brasileiro é diferente do culto africano em vários aspectos. Em primeiro lugar, o sentimento de “banzo” é uma marca dos afro-brasileiros e influenciou a questão do candomblé no Brasil. Orixás como Okô, da agricultura, é muito pouco cultuado no Candomblé, praticamente esquecido, pois não fazia sentido pedir a proteção para uma colheita que não era dos trabalhadores escravos, mas dos portugueses. A tradição afro-brasileira é uma tradição que reivindica mais justiça, vingança e outros elementos relacionados ao exílio, vingança e justiça – algo que influenciou inclusive a formação de outros cultos baseados nos elementos afro-brasileiros, como a Umbanda e Quimbanda. Além do mais, o sincretismo com os índios e portugueses também formou uma característica única ao Candomblé brasileiro, como o “Candomblé de Caboclo”, um sincretismo entre nações africanas e elementos indígenas. Podemos citar ainda outras manifestações, como o Catimbó. Uma figura muito importante na análise deste fenômeno é o célebre Pai de Santo Joãozinho da Gomeia (1914-1971), que recebeu o apoio de uma tradicional Mãe de Santo, Mãe Menininha do Gantois, para tocar seu Candomblé peculiar.

[2] Atualmente, o mesmo fenômeno começa a ocorrer no Brasil, através da invasão do rap nas comunidades carentes de São Paulo.

Rafael Daher

Professor, tradutor, colaborador da NR e editor-chefe da revista Antestéria.

4 Comments

  1. há muitos outros ângulos para ser acrescentados para enriquecer o texto, parece-me que o autor exagerou em algumas acusações ao protestantismo anglo-saxão, no puritismo, ao mesmo tempo parecendo defender o catolicismo brasileiro(?), a igreja católica alienou os negros, índios e pobres, favoreceu as desigualdades, a formação de castas. Enquanto países nórdicos protestantes fizeram reforma agrária, no Brasil a igreja católica distribuiu e distribui terras aos ricos, a oligarquia de cada cidade do Brasil se reúnem nas igrejas católicas e nas lojas maçônicas e continuam a manter o poder em suas mãos a qualquer custo.

  2. Parece que você se esquece de que essa mesma “Igreja Protestante” que fez a reforma adotava a teoria da predestinação (os calvinistas), que por sua vez negavam completamente a “graça” aos índios e aos negros. Para os calvinistas, ou você nasce com a graça ou sem ela, e se nasce sem ela está completamente sujeito a ser escravizado ou destruído, por isso eles não tiveram nenhum remorso em eliminar completamente os índios. Os católicos ainda tentaram converter os índios e por isso o Brasil tem muita gente mestiça, o que não é o caso dos países WASP. A eugenia nasceu exatamente nos países protestantes, em especial no Reino Unido, onde floresceram as teorias de Kipling.

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