Precisamos de um Brasil Multipolar:

Importantes figuras brasileiras do passado se debateram com uma inquietação fundamental: a inquietação do Brasil enquanto Nação. Não estiveram sozinhos nisso e tampouco o Brasil é o único país historicamente “inseguro” no que concerne essa questão.

O dilema “nacional” é típico dos “povos novos”, daqueles países formados nos últimos 500 anos no Novo Mundo, frutos de colonizações, conquistas e migrações. O dilema, usualmente, gira ao redor de uma possível artificialidade das formações nacionais do Novo Mundo, além de uma pouca homogeneidade, fatores que distinguiriam essas “nações” das velhas formações da Europa, África e Ásia, usualmente mais antigas, orgânicas e homogêneas.

No caso brasileiro, esse dilema levou a incontáveis revoltas contra o poder centralizador colonial português e imperial brasileiro. Mesmo boa parte das revoltas que não se propunham como essencialmente separatistas, mantinham um caráter extremamente regional, local e até concebiam uma disposição de “Se não der para mudar as coisas, talvez separar…”. As reações do poder central foram, em todos os casos, brutais e sanguinárias.

No fim das contas, o Estado brasileiro se consolidou e se estabilizou. As tensões entre poder central e forças regionais, estaduais e locais, subsistiram. Deve-se acrescer a isso, em paralelo, o fato de coexistência de várias raças, etnias e religiões em um mesmo território, o que oferece várias outras camadas de contradições e complexidades.

Sob a neutralidade “cidadã” do Estado Liberal essas contradições e tensões só tem como se acirrar, sejam manipuladas por oligarquias locais ou não. A neutralidade do Estado Liberal é incapaz de trabalhar o tema da Nação a não ser como mera formalidade. É a típica figura do Estado-Nação, construção burguesa tipicamente moderna, na qual a figura central é o “cidadão”, a face política do “indivíduo”.

A reação a essa neutralidade liberal, que ergue um Estado-Nação que não passa de um esqueleto frágil, veio através de um impulso “nacionalista” de conteúdo ufanista e, em alguns casos, até mesmo chauvinista. Esse impulso, com o objetivo de resolver de forma definitiva a questão nacional no Brasil, como medida protetiva tanto contra ameaças internas como estrangeiras, passa como rolo compressor sobre toda a heterogeneidade brasileira.

Ora, se países como França, Itália ou Espanha possuem grande diversidade interna, já de séculos, o que falar do Brasil, um país com dimensões continentais, no qual boa parte do povo brasileiro nasce, cresce, casa e morre no mesmo município?. Não há um “povo brasileiro” como uma figura evidente. As construções no sentido de construir um molde absoluto para “o que é o brasileiro” são puramente teóricas e abstratas.

Nesse abstracionismo, nesse autêntico “policarpismo” o único resultado tem sido o enfraquecimento das relações sociais e culturais orgânicas, já desenvolvidas ao longo de séculos, desde os tempos coloniais. A questão nacional, portanto, não foi decentemente resolvida pelos nacionalistas brasileiros, sejam os de direita, os de esquerda ou os de terceiravia. O Brasil não se tornou mais imune a oligarquias ou a ameaças estrangeiras. Poderíamos dizer até o contrário.

O impulso homogeneizador dos nacionalismos burgueses do passado fragilizou o Brasil perante ameaças internas e externas.

Nesse sentido, e no espírito da compreensão das realidades identitárias, só podemos apontar na direção oposta: A melhor maneira de preservar a unidade brasileira (uma unidade que é necessária, no mínimo, por razões práticas de defesa contra ameaças estrangeiras) está em apoiar exatamente a única realidade que o brasileiro conhece, aquilo que o brasileiro realmente vive: a realidade local.

É necessário harmonizar patriotismo estatal brasileiro, com identitarismo etnocultural, regionalismo estadual e municipalismo político. Não há contradição necessária entre nada disso e não podemos permitir que surjam contradições.

O patriotismo brasileiro é essencial para mobilizar as massas contra ameaças estrangeiras e para guiar todos os povos brasileiros rumo a uma nova civilização, herdeira de Roma nos trópicos.

O identitarismo etnocultural é essencial para conscientizar cada grupo etnocultural brasileiro para a importância de sua própria história, para o resgate de suas raízes e de sua própria contribuição civilizacional.

O regionalismo estadual é essencial porque, de modo geral, os povos que aqui vieram habitar construíram novas culturas e modos de ser que se estruturaram de forma mais ou menos equivalente às atuais divisões estaduais brasileiras.

O municipalismo político é fundamental porque a realidade da vida brasileira se dá majoritariamente no âmbito do município, porque esse nível de descentralização facilita a fiscalização política e a administração de recursos e porque através dele nos aproximamos da democracia direta.

Nesse sentido, precisamos de um “novo pacto federativo”. Mas absolutamente fora dos termos de um federalismo burguês, seja de teor oligárquico ou de teor centralista-burocrático.

Em Defesa dos Brasis e dos vários Povos Brasileiros!

Unidade na Diversidade!

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